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Correio da Manhã

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'A PRIMEIRA VÍTIMA DA GUERRA É A VERDADE'

Aurélio Faria, jornalista da SIC, esteve duas semanas na Turquia para fazer a cobertura do conflito no Iraque.
2 de Abril de 2003 às 00:00
Correio da Manhã - Qual o balanço do trabalho na Turquia?
Aurélio Faria - É um balanço um pouco frustrante. Tínhamos muita expectativa que pudéssemos entrar para o norte do Iraque caso a Turquia autorizasse a entrada das tropas americanas. Essa entrada acabou por ser recusada e acabámos por ficar ali a pastar.
- Fez alguns preparativos especiais para a cobertura do conflito?
- Trabalho de casa faz-se sempre. Um dos medos deste conflito é que possa haver ataques químicos ou biológicos, portanto há a questão da máscara e dos fatos. Para a Turquia não levámos, mas sabíamos que podíamos comprar no caso de passarmos a fronteira. Acho que todos os jornalistas foram preparados para a eventualidade de haver um ataque químico ou biológico e, de certo modo, saber o que fazer no caso de um ataque desses. E como jornalista do Internacional não tenho qualquer dificuldade em explicar o que se passa naquela zona.
- Sentiu medo?
- Na Turquia não. Se houvesse uma intervenção da Turquia na guerra... Na situação de guerra há sempre medo, só os inconscientes é que não têm medo.
- Recorda algum caso especial que tenha acontecido?
- Não houve nada de saliente, talvez a noite em que começou a guerra. A reacção turca foi de alguma expectativa e angústia, as pessoas pensavam o que lhes ia acontecer estando ali perto da fronteira. Ficou tudo naquela expectativa do que se poderia passar. E nós também. O que se pode salientar pela negativa é o controlo turco, que também há do lado americano, dos jornalistas.
- E como é que o povo recebe os jornalistas, nomeadamente os portugueses?
- O povo recebe muito bem. O futebol continua a ser um derrubar de fronteiras. O facto do Abel Xavier jogar no Galatasaray e do Figo e do Vítor Baía serem muito conhecidos faz com que nos confins da Turquia, desde o soldado até aos curdos da aldeia, saibam quem eles são. Isso funciona como um deitar abaixo de barreiras. Outra questão é o facto de dizermos “obrigado” e “olá” em curdo, que era uma língua proibida, o que fazia logo abrir os sorrisos. E nas tascas, se calhar, até éramos melhor servidos só pelo facto de dizermos isso ou falarmos no Figo ou no Abel Xavier. Pagamos um bom preço por sermos um país pequeno e sem grandes interesses estratégicos nesta guerra.
- Como é ser um repórter de guerra?
- Vivemos na era da imagem e a cobertura de guerras acaba por ser um bocado frustrante, porque entre aquilo que vimos e o que podemos mostrar, às vezes, vai uma grande distância. No caso da Jugoslávia era completamente controlado pelos sérvios, neste caso tanto os americanos como os iraquianos controlam muito os jornalistas. A verdade é sempre a primeira vítima da guerra, antes de morrer alguém a verdade já foi afectada pela guerra. E neste caso está a provar-se mais uma vez isso. Às vezes a guerra na televisão não é aquilo que as pessoas pensam, há sempre uma grande distância entre a realidade e a informação.
PERFIL
Aurélio Faria, de 37 anos, passou pelo jornal “A Capital”, pela RTP e é jornalista da SIC desde 1992. Em Carnaxide esteve sempre na editoria do Internacional. Este profissional já passou por vários conflitos, nomeadamente na Bósnia, Guiné-Bissau e Afeganistão.
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