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Correio da Manhã

Tv Media
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A RTP NÃO PODE DAR SÓ AQUILO QUE O PÚBLICO QUER

A sua vida profissional foi passada, quase sempre, longe dos holofotes, atrás das câmaras, como produtora. Primeiro nas televisões, depois na Endemol. Agora na RTP, é a responsável pela ficção nacional do serviço público de televisão. À Correio TV, Maria de São José explica o que deve diferenciar a RTP das privadas, compara a ficção portuguesa com as novelas da Globo e afirma que a televisão portuguesa é o reflexo do País. Uma entrevista oportuna para ler nas entrelinhas…
15 de Maio de 2004 às 00:00
Está há um ano na direcção de programas da RTP com a área da ficção nacional. O que está a fazer, afinal?
O que estamos a fazer neste momento é definir claramente um caminho. É que até aqui a RTP era apenas um receptor de porta aberta, onde os produtores chegavam e entregavam o seu projecto e nós seleccionávamos e exibíamos. Ora, essa é a realidade que existe actualmente e que advém de hábitos do passado recente.
E isso é mau?
É mau, claro que é, e deriva, quanto a nós, de uma concepção errada do que é o serviço público. A RTP não pode ser um mero receptáculo de propostas, ideias e produtos. O que se pretende é que seja a RTP a dizer o que é que quer emitir, que assuma uma postura mais activa.
E o que é que a RTP quer para a sua antena?
A nossa ideia é que devemos privilegiar histórias da História Contemporânea de Portugal. Não estou a falar de obras históricas, estou a falar de ficção sobre casos da História Portuguesa contemporânea.
Por exemplo, só para nos entendermos: uma série como a ‘A Banqueira do Povo’, inspirada na vida de Dona Branca, como a que a RTP exibiu há 11 anos, integra-se nesse espírito?
Perfeitamente. Esse é um bom exemplo: uma obra de ficção inspirada em factos reais que os portugueses conhecem. Do nosso objectivo faz parte igualmente a produção de séries longas, que permitam uma fidelização do espectador, em que estejam inseridos temas sociais, porque achamos que a RTP deve promover a discussão de alguns temas e, se possível, até possibilitar a mudança de mentalidades dos portugueses em relação a determinados assuntos.
E deve também promover o desenvolvimento do guionismo em português.
Exactamente. Esse é o terceiro objectivo desta direcção de programas. O que nós pretendemos é privilegiar a autoria portuguesa e não a adaptação de formatos de sucesso no estrangeiro. Esse é o grande passo que devemos dar.
OS GUIÕES
Como se explica que haja bons escritores em Portugal e depois a ficção portuguesa falhe tão claramente na qualidade dos argumentos ou nos diálogos entre personagens?
Isso acontece porque há claramente uma técnica de guião que não tem a ver com a técnica da escrita para livro. Pode haver grandes romancistas que não saibam escrever para televisão. O guião é outra disciplina. Se eu escrever um livro, posso imaginar a história mais mirabolante do mundo, que meta naves, mortes e fantasmas. Mas quando faço um guião para televisão, tenho de pensar na exequibilidade do que estou a criar. Ou seja, um guionista tem de pensar na produção da cena, nas filmagens e na realização.
E é aí que reside o problema…
Pois. Porque as pessoas têm a dificuldade de imaginar histórias interessantes, passíveis de serem contadas e prender o espectador, mas ao mesmo tempo exequíveis do ponto de vista produtivo. Porque tudo depende dos custos.
De qualquer forma, uma das críticas que mais se faz aos argumentos portugueses é a sua falta de coerência e de razoabilidade…
Uma novela é sempre uma obra de ficção e as pessoas não se podem esquecer disso. Mas é preciso alguma coerência, de facto, e aquilo tem de fazer sentido, sob pena do espectador se deixar de interessar pela história, porque ela não lhe diz respeito, não retrata a sua vida. Agora, o que acontece em Portugal, é que há sempre uma grande pressa para ultimar o trabalho e pouco dinheiro para a investigação dos temas, para a leitura dos guiões. É preciso tempo para respirar e para pensar.
TEMPO É DINHEIRO
Mas neste particular, tempo significa dinheiro…
Sim, o tempo é o mais caro. (risos) O que em televisão custa dinheiro é o tempo. Você consegue produzir novelas muito baratas em Portugal, porque em cada dia consegue fazer 45 minutos de produto que vai para o ar. Só para lhe dar um exemplo, nós na ‘Ferreirinha’, gravamos em média oito minutos por dia de produto final. Ou seja, um dia inteiro de gravações só rende oito minutos de emissão. Isto não quer dizer que estes actores, realizadores ou produtores trabalhem menos horas. O que se passa é que as obrigações do serviço público são outras e, portanto, há um maior rigor, uma maior minúcia e exigência na forma como se grava.
Dos exemplos de ficção que se vêem hoje na televisão portuguesa há algum que, em sua opinião, não caberia numa grelha da RTP que obedeça a esses princípios que enumerou?
A ficção que passa hoje na televisão portuguesa, sobretudo a da TVI, é puro entretenimento. Algumas dessas obras têm má qualidade artística, derivada da falta de tempo para a sua realização. E o tempo em televisão é o dinheiro. Se não há dinheiro não pode haver uma boa novela.
Mas se não houver um bom texto também não…
Sim, é verdade, mas o texto nem sempre é tudo. Eu quando falo em falta de qualidade artística, estou a pensar em cenas mal iluminadas, actores com má performance ou actores que nem o são, problemas de realização, etc.
E existem esses casos na televisão privada portuguesa?
Sim, há esses casos na televisão portuguesa.
O ESPELHO
Como é que se explica que muitos desses produtos que considera terem má qualidade artística sejam grandes sucessos de audiência?
O que as pessoas procuram nesses produtos é emoção, é seguirem uma história. Não procuram ver se os actores estão a representar bem ou mal.
Esse é o segredo de qualquer novela. Então, assim sendo, porque razão umas falham e outras não?
Vamos colocar a pergunta de outra forma: o que é que nós, espectadores, temos de ter para fruir as coisas boas? Essa é a grande questão. Afinal, que livros é que se vendem em Portugal? E qual é a sua qualidade? Provavelmente não é muito diferente da qualidade dos produtos de televisão que se vêem, ou dos filmes que fazem sucesso no cinema.
Ou seja, a televisão é o espelho do País?
Claro que é. Se eu tive acesso a alguma informação, se sofri um processo de aprendizagem de uma série de coisas, se os livros do Paul Auster são o grande, grande prazer, então é natural que não me contente com menos. Mas há outras pessoas que não tiveram a sorte de ter acesso a algumas ferramentas que eu tive, que não conseguem sentir o mesmo prazer que eu sinto ao ler Paul Auster e preferem fotonovelas ou outro tipo de produtos.
Mas essas estão em maioria…
Sim, eu sei, mas eu também não sou radical e não digo que só as coisas que não têm qualidade é que têm sucesso. Eu não digo isso. Não vou tão longe. As coisas com qualidade também podem ter sucesso.
AUDIÊNCIAS
Acredita no sucesso de uma série como a ‘Ferreirinha’, que a RTP está a gravar para estrear no Outono?
Eu acredito que a ‘Ferreirinha’ pode fazer boas audiências em relação ao público-alvo a que ela se destina.
Então por que é que séries como ‘O Processo dos Távoras’ ou ‘Alves do Reis’, produções históricas de qualidade, que a RTP exibiu no passado recente, falharam?
Não sei se falharam…
… pelo menos passaram ao lado dos portugueses.
Sim, passaram ao lado do grande público, mas não tínhamos outro tipo de expectativa. Provavelmente essas séries de reconhecida qualidade atingiram as pessoas que estavam preparadas para consumir aquele produto.
São assim tão poucas?
Se calhar, muitos dos portugueses preparados para ver este tipo de ficção não são espectadores habituais de televisão, ou não estavam à espera que a televisão possa oferecer este tipo de produtos. E é bom que a RTP possa contribuir um pouco para essa mudança.
EMOÇÃO
Mas como é que se consegue fazer isso? No fundo, estão a trabalhar só para a classe A/B, que provavelmente até prefere depois do jantar ir ao teatro ou ao cinema do que ficar sentado a ver uma novela na televisão.
A nossa ideia é pegar em temas que potencialmente interessam às classes sociais mais elevadas (A/B) e juntar-lhe factores de emoção e interesse, que atraia gente de outras franjas sociais, que possa chegar ao português médio.
Acredita que o português médio, entre a fantástica vida da D. Antónia Ferreira na época da filoxera da vinha, no século XIX, e a história de um advogado de sucesso que tem várias amantes ou de uma mulher infértil que se vê obrigada a adoptar uma criança, vai escolher a primeira?
É precisamente por causa dessa questão que a RTP pretende introduzir neste tipo de produções elementos que as popularizem e que criem mecanismos de ligação ao público. Nesse sentido, a presença da Catarina Furtado no elenco pode dar essa ajuda. Ela é uma excelente actriz e, além disso, tem um valor acrescentado de popularidade, que pode chamar público à RTP.
Se os portugueses gostam de ficção ligeira e leve, sobre as histórias do dia-a-dia, por que razão a RTP continua a apostar nas obras históricas, de realidades passadas, que já pouco dizem às pessoas e nada aos jovens?
Em nossa opinião, a RTP tem obrigação de não dar só o que as pessoas querem, mas um bocadinho mais. E é nesse bocadinho mais que reside o segredo, porque se for muito mais, as pessoas nem lhe tocam. E são esses passinhos que temos de dar.
A FICÇÃO DA GLOBO
É possível, com justiça e sem nacionalismos exacerbados, comparar a ficção feita em português com a que nos chega do Brasil, via Globo? Ou temos ainda, inevitavelmente, e sem qualquer drama, um longo caminho a percorrer?
Primeiro que tudo, há uma coisa importante para dizer: em Portugal, nós só recebemos o melhor da Globo. Há seguramente produtos falhados da Globo. Nós é que não os conhecemos. E esses devem ser inferiores aos portugueses. Agora, é uma verdade que eles conseguem um número óptimo de excelentes produtos. Isso é uma verdade.
E nós?
Nós ainda temos um longo percurso a percorrer para chegar aos patamares de excelência de alguns produtos da Globo. Isso, no entanto, não quer dizer que nós não façamos já alguns produtos que se equiparem a alguns brasileiros.
Mas o que é que eles têm melhor do que nós?
É a junção de uma série de coisas. Não é que eles tenham um guião melhor do que o nosso, ou um produtor melhor do que o nosso, ou um realizador melhor do que o nosso. Eles têm é um conjunto de coisas que faz a diferença. E muito mais dinheiro.
PERFIL
Maria de São José Ribeiro tem 49 anos, é mãe de três filhas e é, desde Maio de 2003, directora-adjunta de programas da RTP para a área da ficção nacional. Licenciada em Filologia Românica, começou a sua vida profissional como professora do ensino secundário entre 1973 e 83, altura em que saltou para a comunicação. Primeiro em publicações e revistas, onde fez reportagens e traduções e, mais tarde, na RTP, onde se estreou, colaborando no programa ‘Concordo ou Talvez Não’, apresentado por Mário Figueiredo e onde conheceu Nuno Santos. Foi produtora de José Eduardo Moniz no ‘De Caras’ (RTP), mas ainda hoje fala com orgulho do seu mais ‘importante filho televisivo’, o ‘Caderno Diário’, na sua primeira edição, com Pedro Mourinho e a Sílvia Alves. Ainda produziu o ‘Momentos de Glória’ de Manuel Luís Goucha, na TVI, mas foi na Endemol que desenvolveu o seu percurso profissional mais relevante dos últimos anos, integrando alguns dos maiores êxitos da produtora de Piet Hein.
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