Grande repórter destemida, pivô segura, entrevistadora bem preparada, Judite de Sousa significa, no léxico televisivo, qualidade. O Presidente da República, Jorge Sampaio, acaba de distingui-la com a Comenda da Ordem de Mérito, elogiando a sua competência...
“As notícias fazem parte da minha vida. Não sei viver sem elas.” Judite Fernanda Jesus da Rocha Sousa de Reboredo Seara assume que não sabe “fazer outra coisa”. “Todas as outras actividades são um complemento à minha profissão de jornalista”, admite, em declarações à Correio TV. A escrita de um livro, as aulas que dá no Instituto Superior de Comunicação Empresarial, em Lisboa, e as crónicas na imprensa são apenas uma parte de uma vida dedicada à palavra. Judite de Sousa é assim. Sempre foi assim.
“Competente e profissional”, ela é “um nome distinto do jornalismo português”. A avaliação é do Presidente da República, Jorge Sampaio, que a distinguiu no passado dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, com a Comenda da Ordem de Mérito. “Fiquei feliz com a distinção, claro, não posso dizer que não, sobretudo vinda de quem vem. O Presidente é uma pessoa cujas opiniões e avaliações profissionais são ouvidas com grande atenção pela generalidade dos portugueses”, reconhece a jornalista, admitindo que esta condecoração só aumenta a sua responsabilidade.
Licenciada em História pela Faculdade de Letras do Porto, Judite de Sousa entrou na RTP em 1979 como jornalista estagiária, mediante a realização de um concurso público. Um ano depois partia para Macau em comissão de serviço, onde viria a conhecer José Rodrigues dos Santos, que, 20 anos mais tarde, viria a ser seu director de Informação.
“Eu na altura vinha do Liceu, ela já estava na televisão. Eu era o estagiário, ela já tinha experiência. Tivemos logo uma boa relação e aprendi muito com ela”, recorda o jornalista, que a chamou, por duas vezes, para sua adjunta na Direcção de Informação da televisão pública (entre Junho de 2000 e Outubro de 2001 e, mais tarde, entre Setembro de 2002 e Novembro de 2004). Conhecedor do percurso de Judite, Rodrigues dos Santos não hesita: “Ela é uma grande profissional, uma figura de referência da televisão portuguesa. Na sua área de especialidade, não há melhor”.
PORTO SENTIDO
De regresso a Portugal, volta ao Porto, à redacção então chefiada por Manuel Rocha. Foi lá que fez os primeiros apontamentos de reportagem, que deu a cara pelo ‘Bom Dia Portugal’ e pelo ‘Jornal da Tarde’. “Ela não enganava, manifestava já todas as características e qualidades de jornalista, pela forma de estar, pelo rigor, pela postura e pelo seu comportamento”, conta o agora director da RTP Memória.
Foi na Invicta que Judite conheceu Fátima Campos Ferreira, de quem se tornou amiga e companheira cúmplice. “A Judite é da minha família. Tenho uma relação excelente com ela. Temos estado juntas nos momentos mais importantes das nossas vidas, no que de bom e de mau elas têm tido. As pessoas percebem muito bem o que isto quer dizer”, refere a moderadora de ‘Prós e Contras’.
Campos Ferreira não poupa elogios à amiga: “As pessoas não fazem ideia do grau de preparação e de conhecimento, do rigor, do conhecimento dos dossiês, e da honestidade de carácter que são precisos para se chegar àquela qualidade”.
“São 26 anos de jornalismo, sempre me dediquei à minha carreira. Trabalhei muito para isso”, lembra a própria Judite. E quando achou que no Porto não tinha mais espaço para voar, decidiu mudar-se para Lisboa. Na capital, seguramente, teria outras oportunidades.
“Recordo-me de lhe ter dito que não viesse, que era um passo arriscado, mas o que eu queria é que ela ficasse lá a trabalhar connosco. No entanto, reconheço que a sua vinda para a capital foi decisiva”, relata Manuel Rocha, que viria a ser seu director, já na 5 de Outubro. “Ela tinha uma grande vontade e necessidade de fazer reportagem. Sempre que havia um grande acontecimento internacional, ela aparecia-me no gabinete. Lembro-me, em 1994, quando quis fazer a cobertura do êxodo dos refugiados do Ruanda. Ela queria ir, e eu sabia que ela fazia bem.”
E fez. No Ruanda, no Zaire (também em 1994), na guerra civil da Bósnia (1995), nas legislativas francesas em 1997, em Hong-Kong, nesse mesmo ano, em Macau (1999), na passagem de testemunho entre Portugal e a China, e, dois anos mais tarde, no Paquistão, logo após o 11 de Setembro de 2001.
“Ultimamente, não tem feito muita reportagem, porque é muito polivalente. É muito boa na condução do ‘Telejornal’ e excelente nas entrevistas políticas. Prepara--se muito bem e essa é a sua principal virtude”, destaca Rocha.
FORÇA INTERIOR
A sua qualidade ultrapassa as fronteiras da concorrência televisiva. Clara de Sousa, actualmente um dos principais rostos da informação da SIC, considera-a uma “profissional a 100 por cento”. E diz que, “apesar da sua aparente fragilidade, tem uma força interior enorme”. “É uma mulher que não descansa enquanto não se sentir completamente preparada”, observa.
Clara conheceu Judite em 1997, quando estava na RTP. “Sou amiga dela e tenho acompanhado, se bem que à distância, a sua carreira. A Judite cresceu muitíssimo nas entrevistas e soube aproveitar todas as oportunidades que se lhe depararam.”
Apesar do estatuto, mantém as suas amizades. José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes são disso exemplo. Determinada e empenhada, dizem uns, há quem critique a sua “frieza e forma de exercer o poder”. Fátima Campos Ferreira prefere contrapor com um elogio: “É uma mulher de princípios pessoais, de rigor comportamental e de grandes convicções”.
Casada com Fernando Seara, presidente da Câmara Municipal de Sintra, benfiquista e comentador desportivo, Judite de Sousa é, no dizer de Fátima Campos Ferreira, “uma mulher que tem muito prazer em viver”. No catálogo de paixões, o jornalismo só tem um concorrente à altura, o seu filho André. “Por ele, faz tudo. Às vezes, até é um bocadinho mãe galinha”, confidencia a amiga…
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