Director de informação da SIC, Alcides Vieira acredita na credibilidade da estação e diz que Marcelo Rebelo de Sousa seria bem-vindo,mas só para “jogar em equipa”. “A SIC nunca seria Marcelo e mais dez”, avisa, adiantando que o modelo de comentários que o professor tinha na TVI “não se enquadra” no espírito da estação que dirige…
O último mês e meio colocou o sector dos media em permanente rebuliço. Como tem analisado esta polémica sobre a alegada pressão do Governo nos media portugueses?
Bem, trata-se, em minha opinião, da situação mais complicada vivida em Portugal depois do 25 de Abril. Acho que tudo isto é muito grave, embora, por outro lado, esta questão tenha vindo relançar o debate sobre os media e a sua relação com os vários poderes. E isso é um dado positivo, porque nunca se tinha discutido tanto o jornalismo e os jornalistas.
Como se portou o Governo?
É evidente que não soube gerir de uma forma correcta estes casos. Isso é mais do que óbvio. O ministro Rui Gomes da Silva esteve muito mal e o próprio Morais Sarmento foi infeliz naquela frase sobre os limites à liberdade dos órgãos de comunicação públicos. Mas no dia seguinte já explicou melhor o que queria dizer.
Como lê a demissão da Direcção de Informação da televisão pública?
Não tenho dados suficientes. A questão pode resumir-se a uma mera questão interna, embora o assunto seja hoje (segunda-feira) discutido no Parlamento. Mas é preciso dizer que eu não sei quais são as regras internas da RTP no caso dos correspondentes. Se os correspondentes são também delegados da empresa, então é natural que a administração tenha de ter uma palavra a dizer. Se os correspondentes forem apenas jornalistas, então a sua nomeação deve ser da competência exclusiva da Direcção de Informação.
A SIC conseguiu, para já, escapar ilesa a esta questão…
Sim, e isso enche-me de orgulho, porque é um sinal de que estamos no bom caminho, o que só reforça a nossa credibilidade.
“PORTUGUESES CONFIAM NA SIC”
Os portugueses acreditam na informação da SIC?
Ah, claramente que sim. Aliás, a evolução das audiências na história da SIC revela isso mesmo. Hoje em dia é muito fácil a médio prazo conquistar audiências elevadíssimas na informação. Mantê-las é que é difícil.
Há um grande equilíbrio entre os três principais telejornais, com o ‘zapping’ a funcionar activamente todos os dias. Isto significa que a informação televisiva não muda muito de canal para canal?
Não, significa é que há muitos públicos diferentes, mas todos ávidos de serem informados.
Mas esses públicos saltam de canal em canal entre as 20h00 e as 21h30 com uma frequência maior do que fazem depois. Como se explica isso? O que é que distingue, afinal, a informação de RTP, SIC e TVI?
Eu não gosto de comentar o trabalho dos outros, mas como espectador o que eu acho é que a informação da RTP é um pouco mais institucional, é pouco ousada, no sentido dos conteúdos.
A esse argumento da “informação institucional e cinzenta”, que é muitas vezes esgrimido pelos canais privados, a RTP responde com uma outra expressão, a de um “alinhamento mais rigoroso”…
Não tem nada a ver uma coisa com a outra. O rigor da informação é um valor supremo, não tem nada a ver com o alinhamento. Nós na SIC não temos tabus em relação aos alinhamentos e aos conteúdos. O que nós queremos é um jornal mais aberto à sociedade.
“O ESPECTADOR NÃO É TOLO”
Há quem aponte o dedo à SIC por não resistir à tentação de tentar acompanhar o estilo mais popular e emotivo da informação da TVI…
Mas não há razão nenhuma nessas críticas. Eu não gosto de falar dos outros, mas toda a gente consegue perceber as diferenças. Na SIC não cedemos aos nossos princípios de rigor e credibilidade. Isso para nós é fundamental.
Mas o ‘Jornal Nacional’ da TVI tem audiências superiores na generalidade dos dias...
Isso não é bem assim, porque as audiências do jornal da TVI são muito oscilantes, muito mais do que as nossas. Isto não é uma maratona, não se consegue de um dia para o outro. O nosso trabalho é manter a qualidade, sem ceder à tentação das audiências fáceis.
Em sua opinião, é isso que a TVI faz?
Não sei se é isso que faz. O público sabe analisar. E o público sabe, por exemplo, que o grande jornalismo sério de investigação está na SIC. Os últimos anos são, aliás, um bom exemplo disso.
“COMENTADORES DE QUALIDADE”
Falta opinião à informação da SIC?
Não, não falta. A SIC não é um caso isolado. Temos de falar no grupo SIC e, por isso, temos um leque de comentadores muito amplo, de grande qualidade e de uma imensa versatilidade.
Sim, mas são comentadores da SIC Notícias, não são da SIC…
São comentadores do universo SIC. Estão habitualmente no canal de notícias, mas vêm à antena da SIC sempre que consideramos necessário.
Sim, mas a minha pergunta vai noutro sentido. A TVI tem comentadores de peso, tem opinião respeitada. Tinha Marcelo Rebelo de Sousa, tem Miguel Sousa Tavares, tem Peres Metello. São comentadores com peso, fazedores de opinião. À SIC falta essa vertente…
A nossa estratégia editorial não é essa. A SIC não quer essa obrigatoriedade de ter um comentador de plantão à segunda, outro à terça e por aí fora… Connosco, é diferente. Se houver assunto de interesse para comentar, obviamente sabemos a quem recorrer..
Há menos de um ano, a SIC tentou seguir esse caminho com Pacheco Pereira, Carrilho e Santana Lopes. Acabou por recuar, por falta de audiências e de impacto…
O que nós tentámos foi ter comentadores residentes para comentar as notícias do dia. Mas em termos de audiência, é errada essa ideia que dá. Não houve qualquer impacto negativo nas audiências.
Reconhece ou não a importância de ter ‘opinion makers’ a comentar na estação que dirige?
Toda a opinião é importante, reconheço isso. Mas nós temos gente de muita qualidade como o Nuno Rogeiro, o António José Teixeira, o Luís Delgado, o Mário Bettencourt Resendes. Gente de todos os quadrantes, com muita influência.
Desculpe a insistência, mas estão todos na SIC Notícias…
Mas já vieram à SIC. E voltarão à antena sempre que acharmos conveniente.
“NUNCA SE FALOU EM MARCELO”
Gostava de ter Marcelo Rebelo de Sousa na SIC?
Com toda a franqueza, foi coisa que nunca se questionou. Nunca se falou em Marcelo na SIC.
Insisto na questão: gostava de o ter na SIC?
Eu reconheço que ele é um excelente comunicador, mas a lógica da estação é ter uma opinião mais variada, um leque abrangente de comentadores. Por isso, penso que quantos mais comentadores houver, melhor.
Mas há comentadores e comentadores…
Os nossos são muito bons. E a SIC tem lançado novos comentadores, que se têm revelado como excelentes analistas. E não só de política. Esqueçamos a política. Nós temos descoberto gente muito competente na justiça, na genética, na política internacional…
Está a fugir à questão. Eu estou a falar-lhe de Marcelo Rebelo de Sousa…
Já lhe disse que é um excelente comentador, mas é uma questão que não está em cima da mesa. Por outro lado, é preciso perceber se dentro da lógica do que tem sido a estratégia da informação da SIC, o professor Marcelo se enquadra ou não.
Não, eu acho que não. Pelo menos, o modelo de comentários que ele tinha na TVI. Aquele tipo de comentários, uma explanação de meia hora, uma espécie de tribuna para ele dissertar...
Portanto, está a fechar a porta da SIC ao professor Marcelo, é isso?
Não, não estou a fechar a porta. Estou a dizer-lhe que aquele modelo de comentário não cabe na nossa informação.
Então, em que condições é que Marcelo Rebelo de Sousa era bem-vindo à SIC?
Ele é sempre bem-vindo (risos). A nossa lógica é convidar a pessoa mais certa para comentar um determinado assunto. Não é a de ter alguém a falar sobre várias questões. O professor Marcelo é um excelente comentador de política, portanto caberia perfeitamente na nossa equipa de comentadores. Apenas nesse espírito.
Sim, mas utilizando uma linguagem futebolística, não se compra o Figo ou o Ronaldo para sentá-los no banco de suplentes…
Os grandes craques por vezes ficam no banco. Sobretudo se os que estão a jogar são muito bons, como é o caso dos nossos comentadores. Nós temos alguns Figos na nossa equipa.
Portanto, Marcelo só seria bem-vindo à SIC se integrado no painel de comentadores e para aparecer pontualmente e não com uma tribuna como na TVI. É isso?
Só isso é que se integra na lógica da SIC.
Voltando à metáfora futebolística: a SIC nunca seria Marcelo e mais dez?
Sim, isso não. Marcelo seria sempre um elemento da equipa.
“A SIC INOVA AO FIM-DE-SEMANA”
Em Maio, a SIC iniciou a renovação dos seus jornais de fim-de-semana, criando
o ‘Jornal de Sábado’, com dois apresentadores. Há um mês e meio lançou o ‘Jornal de Domingo’. Que balanço é que faz?
Eu não vejo só isso na perspectiva das audiências. Aliás, faço um balanço altamente positivo destes novos formatos, porque a SIC, uma vez mais, inovou, criando produtos mais adequados aos públicos disponíveis. Claro que há coisas a melhorar, mas está a ser muito gratificante. São dois produtos muito diferentes da lógica dos jornais dos dias úteis, porque ao fim-de-semana os espectadores sentem outro tipo de necessidades.
A crítica tem aplaudido os formatos, sobretudo o de sábado, com a aposta na mais apreciada dupla da SIC Notícias, constituída por João Adelino Faria e Ana Lourenço. Mas mesmo assim, o público está a demorar a habituar-se ao conceito…
Não, tem havido uma subida constante do ‘Jornal de Sábado’, para números, aliás, muito idênticos aos dos jornais da RTP e da TVI. E o que é certo é que, há uns meses atrás, por circunstâncias várias de programação, os nossos jornais de fim-de-semana estavam muito atrás.
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