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Correio da Manhã

Tv Media

Actores de palmo e meio na vida real

Beatriz, Afonso e Luís lidam bem com a fama mas sabem que o sucesso é efémero. Actores na TVI, SIC e RTP, na escola e no desporto voltam a ser meninos como os outros.
1 de Junho de 2007 às 00:00
Hoje é dia de treino de basquetebol no Atlético de Queluz. Os meninos estão todos equipados e a postos para hora e meia de actividade intensa. Entre eles, o Luís, que faz parte da equipa, mas também o Afonso e a Beatriz que estão de visita. Até agora tudo normal. Só que estes três miúdos são conhecidos do pavilhão inteiro. Do país inteiro. O Luís Ganito veste todos os domingos a pele do Carlitos na série ‘Conta-me como foi’ da RTP. O Afonso Maló é o Matias, da telenovela ‘Vingança’ (SIC). E a Beatriz Figueira é mais conhecida como a Belinha da ‘Doce Fugitiva’ (TVI). Quem os vê, pavilhão fora, a driblar e encestar quase não se apercebe da diferença. É que, antes de serem estrelas, são crianças. E nos momentos de crise também precisam de colo.
“Às vezes, de noite, começo a imaginar sombras nas paredes. Levanto-me e peço à minha irmã para dormir no quarto dela” confessa Afonso, sem complexos em assumir o seu lado criança. Não foram fáceis, os primeiros tempos de fama, quando era o Tiago da série ‘Inspector Max’. “Cheguei a ter um só amigo durante meses”, conta. E adianta: “Dantes, toda a gente gozava comigo”. Agora, felizmente, as coisas estão pacificadas e só um rapaz lá da escola teima em “tentar virar os outros contra” o Afonso. Para Luís, a exposição mediática é mais recente, mas também mais bem aceite pelos colegas da escola. “Há só um miúdo que tenta sempre chamar as atenções. Acho que é dor de cotovelo. Os outros querem saber coisas, mas eu não posso contar. Também me pedem para entrar na série ou para se inscreverem na agência”, diz. E o próprio jovem actor lida aparentemente bem com a sua fama. “Não mudou nada na sua maneira de ser”, afirma a mãe, Elizabete Costa.
No caso da Beatriz, a reacção dos colegas também tem sido amigável. “Alguns perguntam-me como é que eu fiz para entrar nas novelas, outros dizem-me ‘tens muita sorte’”, conta a pequena actriz que admite ser “muito vaidosa”. A mãe, Sofia Figueira, confirma que a filha tem sido sempre “bem tratada” e até que “na escola toda a gente a protege.” Só por ocasião de uma zanga com as amigas, uma delas teve uma tirada menos simpática: ‘Tu, lá porque és da televisão, tens a mania’, mas “no dia seguinte já eram amigas outra vez”.
Situações como esta são classificadas pela pedopsiquiatra Ana Vasconcelos como “normais”. “O ser humano não foi feito para a exposição”, explica, daí que saliente a importância de “os pais saberem, quando uma criança entra numa telenovela, integrar esses momentos de fama numa situação passageira que sirva de aprendizagem”. E compara a exposição mediática com um “game boy XPTO”, que todos os miúdos gostariam de ter. “Podem minimizar o jogo que o outro tem, mas eles não têm. É uma forma de lidar com a inveja.”
TEM DE HAVER TEMPO PARA TUDO
Como crianças que são, o Luís, o Afonso e a Beatriz têm as suas actividades diárias: escola, desporto e brincadeira. “Tem de haver tempo para tudo”, explica Alexandra Maló, mãe do Afonso e também de Filipa, hoje com 15 anos, mas que, tal como o irmão, começou cedo nestas andanças das séries e novelas televisivas. São os próprios jovens actores os primeiros a salientar a importância de não perder o pé na escola e de tirarem um curso: “Se eu não for chamado, fico desempregado”, declara Afonso, revelando uma maturidade pouco habitual para os seus onze anos. Afinal, o Matias de ‘Vingança’ já trabalha no ramo desde os quatro. Contas feitas são sete anos de experiência profissional. Mesmo assim, Afonso encara o trabalho de actor como “um passatempo” e pretende formar-se em “marketing ou advocacia.” E nem a perspectiva de ficar mais “engravatado” o demove dos seus projectos de futuro: “Gosto de usar roupa formal.”
Os pais dos jovens actores estão todos conscientes da efemeridade da fama e da possibilidade de o sonho dourado que os filhos vivem poder terminar um dia. Foram, aliás, amplamente informados e aconselhados pelas equipas de produção dos respectivos programas: “Sobretudo na primeira novela que a Beatriz fez”, conta Sofia Figueira, “falaram muito connosco para que ela não se deixasse deslumbrar e não criasse demasiadas expectativas”. Assim, os pais de Beatriz conversam muito com a filha e insistem constantemente sobre a importância da escola. “Ela sabe que tem de ter um curso na mão, até porque hoje há coisas para ela fazer na televisão, mas amanhã pode não haver”, afirma Sofia Figueira, que costuma dar a Beatriz exemplos de outros actores que “têm sempre as suas profissões para além da televisão”. Mesmo assim, a jovem actriz pretende ser “actriz, manequim, ou cantora”.
Ana Vasconcelos alerta para o facto de que pode ser muito difícil para uma criança, sobretudo antes dos 12 anos, lidar com o esquecimento caso, de um momento para o outro, deixem de aparecer: “Até para um adulto é duro ser amado e de repente deixar de ser, quanto mais para uma criança.” A pedopsiquiatra salienta ainda o momento fulcral que constitui a entrada na pré-adolescência, fase em que “eles podem começar a desgostar de si próprios, do seu corpo”. O importante é manter o diálogo e estar atento aos sinais. Alexandra Maló, que além de mãe de dois jovens actores, é também produtora de televisão, considera primordial a “triangulação constante entre a equipa de produção, a criança e a família.” E lembra constantemente aos seus filhos que a TV é apenas um “hobbie”.
Também Luís sonha prosseguir a sua carreira como actor. Isto, apesar de os pais lhe terem feito ver que “a fama tem duas vertentes”, como explicou à Correio TV Elizabete Costa. “Até lhe falei numa entrevista que li com um jovem cujo nome agora não recordo, que um dia é actor e noutro está a servir às mesas.” Mas, por enquanto, o Luís não pensa muito neste tipo de dificuldades. “Está a adorar a experiência”, afirma a mãe, “mas também depressa se esquece e quer é andar de baloiço e jogar à bola como todos os miúdos da idade dele”.
AFONSO MALÓ: RÂGUEBI É TRADIÇÃO - JOGADOR NO BENFICA
Afonso herdou do pai, que chegou a integrar a selecção nacional, o gosto pelo râguebi. Desportista nato, pratica surf e natação. Para desempenhar o papel de Matias, teve aulas de esgrima no Paredes Futebol Clube, experiência que “adorou” e para a qual revelou ter “imenso jeito”, conta a mãe. Afonso prefere Matias a Tiago (personagem que fez em ‘Inspector Max’), já que o primeiro tem uma vida mais complicada e “é um desafio fazer coisas difíceis.” Apesar de se considerar diferente do filho de Laura, “gostava de poder ajudá-lo. Mas não posso, é só um personagem!”, lamenta.
BEATRIZ FIGUEIRA: A PEQUENA SEREIA - NATAÇÃO NO SOLINCA
Beatriz pratica natação todos os sábados de manhã, na piscina do Solinca, em Lisboa. E não perde uma oportunidade para “cair na água.” Acha-se parecida com Belinha, a personagem que desempenha na telenovela ‘Doce Fugitiva’. “Ela é muito gira, engraçada... e reguila, como eu!”, afirma. E garante que todos a tratam muito bem, tanto na novela como na escola.
LUÍS GANITO: PAIXÃO PELO JOGO - BASQUETEBOL NO QUELUZ
Um dia mais tarde, quer ser “actor, mas também basquetebolista”. Como Afonso, o Luís também escolheu a modalidade praticada pelo pai. O jovem actor identifica-se com Carlitos, a personagem de “Conta-me como Foi”, sobretudo “nas traquinices” e aproveita os intervalos para brincar com os novos amigos de trabalho.
JOVENS E FAMOSOS
DREW BARRIMORE
Conheceu a fama quando aos três anos actuou em ‘E.T.’ Aos 12 fez uma cura de desintoxicação e só em adulta ressurgiu das cinzas.
MACAULAY CULKIN
Foi a estrela de ‘Sozinho em Casa’. Mas mais tarde foi vetado por todos os produtores ao ser apanhado na posse de drogas.
MAFALDA LUÍS DE CASTRO
Aos 11 anos ganhou notoriedade como Margarida em ‘Olhos de Água’ e entrou em ‘Ana e os Sete’. Hoje, perto dos 18, mantém a aposta na carreira artística e estuda teatro na escola de Carlos Avillez.
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