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Correio da Manhã

Tv Media
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Amo tudo o que fiz

Luís Andrade foi, até há dois dias, director de Programas da RTP 1, mas continua na estação até à reforma ou até quando a administração entender. Quando for para casa, quer continuar a trabalhar, pois, segundo diz, se parar morre...
2 de Fevereiro de 2005 às 00:00
Correio da Manhã – Cessar funções como director de Programas da RTP 1 foi uma surpresa, inclusive para os seus próprios colegas. Por que tomou esta decisão?
Luís Andrade – Tenho 69 anos. Quando, há dois anos e meio, me convidaram para este cargo, assumi um compromisso. Quando, há cerca de três semanas, verifiquei que tudo o que me tinha sido pedido estava cumprido, decidi sair. Chegou a hora de dar sangue novo à RTP. Ao informar o conselho de administração da minha saída, foi-me pedido para ficar como consultor. Tudo foi mantudo em segredo para evitar especulações.
– Mas, a menos de 20 dias das legislativas, a sua saída gerou, isso mesmo, especulações...
– É muito importante que se saiba que fui director de Programas com o PS, em 1983 – e saí por razões de saúde – e agora com o PSD. Sentado neste lugar, não tenho partidos políticos. Só o tenho quando voto. Hoje [ontem] já recebi telefonemas de todos os quadrantes políticos.
– Disse anteontem que ficará na RTP até chegar à reforma. Quando isso acontecer, o que irá fazer?
– Penso que está guardada uma surpresa do conselho de administração para uma nova missão. É óbvio que, se a RTP precisar de mim, pode contar comigo para sempre, e mesmo gratuitamente. Quando deixar efectivamente a estação, vou continuar a trabalhar em tudo o que estiver ligado à televisão.
– Consegue imaginar a sua vida depois de 41 anos de dedicação total à RTP?
– É difícil. Não sou homem para parar. Nunca serei. Morro dois dias depois.
– Nuno Santos, até agora director-adjunto de Programas, será um seguidor do seu trabalho?
– Sem dúvida. É um profissional de quem sinto um grande orgulho.
– Que balanço faz do canal público nestes últimos dois anos e meio?
– É o canal com programação, ainda não na totalidade, de serviço público. No próximo dia 21 arrancam os magazines diários, vamos gravar dez peças de teatro – temos obrigação de apoiar o teatro em Portugal –, está aprovado até ao final do ano a transmissão de musicais em horário nobre. Tudo está a ser feito. O serviço público vai continuar e finalmente a RTP é uma casa em que as pessoas acreditam. É mais importante o serviço público do que as audiências. No entanto, é óbvio que, sem audiências, não há serviço público. Até nisso os telespectadores nos reconhece. Estamos com 24,7% de ‘share’ mensal.
– Foi mais fácil ser director de programas em 1983 ou agora?
– Muito mais difícil agora. Na outra época, tinha dinheiro para fazer um canal. Nos últimos dois anos e meio trabalhámos com pouco orçamento.
– Com uma famosa carreira na ópera, nas décadas de 50 e 60, a verdade é que deixou a música para se dedicar à TV. Foi uma boa troca?
– Sem dúvida. Realizar um musical deu-me a facilidade de saber o que estava à frente e atrás das câmaras. Devo dizer que a Amália Rodrigues quando queria gravar queria fazê-lo sempre comigo.
– Tem saudades da realização?
– Tenho saudades do futuro. Amo tudo o que fiz.
– O que gostava de ter feito que não fez?
– Uma longa-metragem mas em moldes completamente diferentes.
PERFIL
Com 41 anos da sua vida dedicados à estação pública, Luís Andrade ‘fecha’ a pasta da Progra-mação para encetar um novo desafio. De cantor de ópera a realiza-dor, o seu nome faz parte do canal. O progra-ma ‘Zip Zip’ é um dos marcos na sua carreira.
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