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Correio da Manhã

Tv Media
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ATEAR FOGOS

Morais Sarmento, que já tinha passado de pirómano a bombeiro da RTP, voltou a deitar umas acendalhas para a fogueira mediática em que o Governo vai ardendo
23 de Outubro de 2004 às 00:00
Nuno Morais Sarmento voltou esta semana a vestir a pele de pirómano, uma vestimenta que envergou no início da actual legislatura, quando anunciou uma nova RTP com a habilidade do elefante que se passeia pela loja de cristais. Depois, emendou a mão, acalmou as suas afirmações explosivas e deixou a administração da RTP trabalhar. Este ano, enfim, pôde recolher os louros desse silêncio, vendo, justamente, serem-lhe creditados os méritos da reorganização da empresa pública de televisão. Ou seja, de pirómano passou a bombeiro e hoje ninguém minimamente justo e independente (mesmo que partidário de outras ideias políticas…) pode alhear-se do essencial: foi o Governo de Durão Barroso que estancou o regabofe na RTP, que ousou decidir, travando a lenta agonia do operador público e limpando as águas pantanosas onde se afundava a empresa.
Esta semana, porém, Morais Sarmento voltou ao passado, às tiradas grandes e eloquentes, revelando uma vez mais total ausência de sentido de Estado,
ignorando os sinais que vêm da opinião pública (não só da opinião publicada) e não percebendo como, num cenário de tensão mediática como o criado depois do caso Marcelo, seria importante deitar água na fogueira e não mais umas acendalhas de petróleo…
Ao defender que “deve haver uma definição por parte do poder político acerca do modelo de programação do operador de serviço público”, ao afirmar que é necessário “haver limites à independência” dos operadores públicos, o ministro da tutela não só comprou nova guerra, como potenciou ainda mais a ideia, hoje generalizada em Portugal, de que o Governo é um enorme polvo que, com os seus tentáculos, quer controlar os conteúdos da televisão.
Que Rui Gomes da Silva, animado com a chegada, enfim, ao Poder ao lado do seu ‘Pedro’ não perceba a gravidade das suas afirmações, já é sintomático do desnorte a que este Governo de ‘iniciativa presidencial’ chegou. Mais grave, porém, é que o ministro da Presidência, que tutela a área sensível dos media, pense (e, pior, tenha coragem de dizê-lo…) que o Estado deve controlar a independência dos órgãos de comunicação públicos. Cá para mim, Morais Sarmento acaba de dar mais um murro no estômago da coligação. O que, afinal, vindo de um ex-boxeur não admira…
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