CARA OU COROA?

Sofia Alves, em ‘Olhos de Água’, protagonizou os gémeos mais conhecidos da televisão portuguesa. Já antes, porém, Lúcia Moniz tinha sido pioneira na RTP. Agora, em ‘Queridas Feras’, na TVI, Marco Delgado mostra talento… a dobrar.
30.10.04
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A profissão deles é representar, vestir a pele de personagens, viver outras vidas. Mas o desafio maior, dizem, é quando têm de interpretar duplas personalidades, desdobrando-se nas duas faces da mesma moeda. “As cenas realmente difíceis foram as que contracenava comigo mesma. A concentração tinha de ser total, pois além da dificuldade dos diálogos sem contracena, tinha de estudar os movimentos para que, depois na montagem, coincidissem com os olhares da Leonor e os da Luísa”, recorda à Correio TV Sofia Alves. A actriz protagonizou há três anos, na TVI, um dos papéis mais marcantes da sua vida em ‘Olhos de Água’, uma novela que a tornou uma das mais apreciadas e cotadas actrizes portuguesas.
Em ‘A Grande Aposta’ (RTP, 1997), Lúcia Moniz foi pioneira a interpretar a duplicidade de papéis numa telenovela, dando vida a Susana, uma jovem cega que tocava violino, e Bárbara, uma artista de circo. A actriz e música ainda hoje recorda a dificuldade da tarefa: “Dado que era a minha estreia na representação, desde o enfrentar as câmaras até à representação das gémeas, tudo me pareceu difícil nos primeiros tempos”.
António Pedro Cerdeira também passou pela inesquecível experiência no ano seguinte, em 1998, com a telenovela ‘Os Lobos’ (RTP). “Foi um trabalho muito cansativo, esgotante. Havia trocas de roupa, mudanças de penteado, e fazer uma cena implicava ter muito bem presente outra cena que tinha sido interpretada e gravada horas antes na pele do outro gémeo. Era preciso saber recuperar o tom de voz, o olhar... Se assim não fosse, a cena perdia credibilidade”, explica o actor.
Em 2002, Sofia Duarte Silva, em ‘Tudo por Amor’ (TVI) vestiu também a pele das gémeas Alice e Margarida. A maior dificuldade que a actriz aponta neste trabalho foi, não a interpretação, mas o “trabalho de modificação” a que era sujeita para fazer duas personagens fisicamente tão distintas.
“A Alice tinha o cabelo com um determinado corte, tinha algumas particularidades nas sobrancelhas, papada debaixo do queixo. A Margarida usava peruca com cabelo comprido, andava mais produzida... A caracterização foi o que mais me custou. O trabalho começava às oito da manhã e terminava às 20 horas”, conta a actriz.
GÉMEO A SÉRIO
Ao contrário dos colegas, Marco Delgado, que interpreta o duplo papel de André e Tiago em ‘Queridas Feras’, em exibição na TVI, teve o trabalho de interpretação um pouco facilitado pelo facto de poder contar com a presença do irmão gémeo na contracena. António Pedro Cerdeira diz que a presença dos gémeos em ‘Queridas Feras’ foi “uma boa jogada” e tornou “o trabalho de Marco Delgado menos solitário”. Explica Cerdeira: “Em termos técnicos, este recurso facilita a realização. E a interpretação é uma tarefa menos solitária. Quando não se tem contracena há um grande isolamento, porque todo o trabalho se passa dentro da nossa cabeça”.
Marco Delgado confessa que o seu trabalho de “dez meses” em ‘Queridas Feras’ foi muito “cansativo”, mas “gratificante”. E reconhece que ter trabalhado com o irmão Sérgio foi “um privilégio” para ele e “uma sorte” para a produtora. “Imagino como deve ser trabalhar sozinho durante tanto tempo, sem ter ninguém que nos dê uma contracena, uma reacção... O meu irmão auxiliou-me na interpretação e ajudou até a enriquecer a parte criativa da realização. Foi um privilégio poder contar com ele”, afirma Marco Delgado.
A IMPORTÂNCIA DA DIRECÇÃO
A realização e a direcção de actores (quando existe esta última) têm um papel decisivo na composição deste tipo de personagens. Lúcia Moniz, por exemplo, elogia o trabalho da actriz Manuela Maria, que dirigiu os actores em ‘A Grande Aposta’: “Estarei eternamente grata aos actores que mais perto contracenaram comigo, e à Manuela Maria que me ajudou muito”. No ano seguinte, em ‘Os Lobos’, António Pedro Cerdeira recorda o papel de Virgílio Castelo, director de actores: “Ele foi o primeiro a mostrar-me que aquele papel duplo era um desafio. Depois, e também por sugestão dele, decidimos fugir aos clichés. O gémeo vilão era simpático e delicado, o bom era um homem mais formal, mais sisudo”. Três anos depois, Sofia Alves contava com a preciosa colaboração do falecido realizador brasileiro Álvaro Fugulim: “Ele exigia silêncio total em estúdio e, apesar da pressão dos ‘timings’, nunca gravava sem eu estar preparada. Aprendi com ele que a tranquilidade é o grande segredo da interpretação. Na edição, o Enio Mota fazia milagres com a montagem e os efeitos”, concluiu.
“JÁ CHEGA DE GÉMEOS!”
Depois de ‘A Grande Aposta’, ‘Os Lobos’, ‘Olhos de Água’, ‘Tudo por Amor’ e ‘Queridas Feras’, os actores que protagonizaram estes papéis são unânimes em afirmar que a temática dos gémeos está esgotada”. “Há mil e um temas a abordar”, diz Marco Delgado, enquanto António Pedro Cerdeira exclama: “Já chega de gémeos! Espero que os guionistas tenham mais assunto sobre o qual escrever”. Apenas Sofia Alves é menos peremptória: “Só o público pode responder a essa questão”, garante.
“ADORO SER GÉMEO
Um é mais alto e mais largo de ombros do que o outro. Apesar das diferenças existirem entre os dois irmãos gémeos, quase ninguém dá por elas. Por isso,
a vida de Marco e Sérgio Delgado está repleta de pequenas confusões. Algumas das quais, os gémeos nem se dão ao trabalho de esclarecer. “Na rua, o meu irmão tem dado muito autógrafo por mim”, conta Marco Delgado, depois de contar já se terem já sucedido situações “bem engraçadas”. Mas se umas vezes os dois irmãos são vítimas de um engano, outras vezes, eles mesmos engendram o equívoco: “Quando nos dá jeito, trocamos de identidade junto de algumas instituições”. Para lá dos equívocos, a relação entre gémeos é especial e única. Marco Delgado explica porquê: “O meu irmão é a pessoa que mais amo na vida. Há outras na minha vida que amo igualmente, mas nenhuma relação é igual à que tenho com o Sérgio. A comunicação entre nós passa por sentimentos, reacções, olhares, tudo menos pela simples verbalização. Posso dizer que adoro ser gémeo”.

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