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Correio da Manhã

Tv Media

CARLOS PINTO COELHO QUER FESTEJAR BODAS DE PRATA

Carlos Pinto Coelho, autor do magazine cultural televisivo com mais sucesso na Europa, o “Acontece”, acaba de editar um livro em que mostra a sua outra paixão: a fotografia. Entrou livremente para a lista de rescisões da RTP, mas espera continuar a fazer o seu programa por mais uns anos. Hoje terá uma emissão especial, em directo.
11 de Novembro de 2002 às 00:09
CM - Como justifica o sucesso do 'Acontece', um caso único de longevidade (nove anos) de um programa diário de cultura na Europa?

CPC - A longevidade explica-se pelo facto de nós em Portugal vivermos numa realidade à superfície, em que se pensa que os portugueses estão muito longe da cultura, o que não é verdade. Principalmente na geração dos 30 anos, que é surpreendente, com muitos talentos no bailado, na literatura, no cinema. É uma geração pujante, muito melhor que a minha. O que é fácil de explicar, porque nós andámos ocupados: primeiro, antes do 25 de Abril, a tentar esbracejar, depois a tentar pôr de pé um País que essa mesma revolução destruiu por completo. E agora nota-se um certo encostar à noite a ver o 'Big Brother'.

- Acaba por ser paradoxal…

- A cultura não pode continuar a ser um 'guetho', o 'Acontece' tem um quarto de milhão de espectadores, o que não é equiparado por nenhum jornal. E a Imprensa portuguesa até tem boas páginas de cultura, agora o que raramente acontece é que um evento cultural chegue à primeira página de um jornal diário ou dos noticários da TV e da rádio.

- Está de saída da RTP… como será o futuro do 'Acontece'?

- Isso já não é notícia. Trata-se de um momento laboral desta empresa, de que sou funcionário, e portanto cumpri as regras do jogo deste momento laboral. A administração da nova empresa decidirá se quer ou não o 'Acontece' e o Carlos…

- Mas tem projectos para continuar o 'Acontece', no formato de noticiário cultural?

- Sim! Conto estar aqui para celebrar as bodas de prata do programa, espero festejar os 25 anos do 'Acontece' no serviço público. O 'Acontece' tem um formato de noticiário, é um programa de jornalismo, pois é isso que eu sou, um jornalista que pega na cultura como se pega na política ou no futebol.

- Como surgiu a ideia para este formato?

- Tive uma experiência muito falhada nesta casa, que foi dirigir o '24 horas', o telejornal de fecho, em que acrescentava no fim da parte noticiosa uma conversa sobre um assunto do dia, o lançamento de um livro, um filme ou assim… Foi um fracasso de audiências e fui para casa pensar se era o País que era completamente estúpido, ou se era eu que não tinha conseguido encontrar uma fórmula certa. E daí surgiu a ideia de fazer um telejornal que é o 'Acontece'. Deram-me cinco a sete semanas e sete minutos diários para avançar, e o programa tem nove anos e 25 minutos diários. Também não quero mais, assim como não quero ir para o primeiro canal. Era um erro… Os produtos têm o seu lugar certo.

- E na eventualidade de o serviço público de televisão ser feito num só canal…

- Não faço a mínima ideia do que isso seja. Eu, que fui director de programas desta casa durante quatro anos, não sei tecnicamente construir uma estação de serviço público como um só canal. O Canal 2 é um canal de nichos, com existe em todas as estações de serviço público que têm um, dois ou até quatro canais. Por isso, confesso a minha incapacidade de pôr sequer a hipótese de haver no meu País essa situação. Tenho filhas e elas têm direito a ter ópera, cinema de vanguarda, bons documentários. Elas têm o direito e penso que o Estado tem o dever de lhes dar essa satisfação… O serviço público não é uma benesse, é uma obrigação feroz do Estado. A antena de uma televisão é um bem público, é do Estado e dos cidadãos e, como tal, tem de ser gerida com critérios muito cuidadosos.

- Está satisfeito com o facto de o 'Acontece' ter sido antecipado para as 21h30?

- É um bom horário. É um horário de que se queixa muita gente que diz 'ainda não estou em casa', e é um horário de que se queixa muita gente que diz 'é tardíssimo, eu a essa hora quero já estar a ver um bom filme, não me dêem mais informação'… Há muitos públicos e qualquer que seja a mexida no horário vai desagradar. Não pode é estar muito longe de um público urbano, que se deita tarde, e de outro, que é também urbano, mas tem de se levantar cedo no dia seguinte. Mas quem não vê nesse horário, pode ver na RTP Internacional, ou na RTP África, ou na Informação Gestual do dia seguinte. O 'Acontece' é emitido cinco vezes por dia…

- Neste momento, é difícil gerir tanta oferta cultural…

- Só para ter uma ideia, editam-se nove livros por dia em Portugal, o País da Europa ocidental que menos livros lê. Penso que é uma política suicida dos editores, que estão a precipitar quantidade numa vertigem que o público e o mercado não absorve. Mas esse problema é deles. O 'Acontece' tem um núcleo duro de consultores, que se reúne todas as quintas-feiras e cada um deles traz na sua agenda o que é imperioso para a semana e recebe de mim sugestões do que recebo. São eles – um especialista em música, um de cinema, um de literatura, um de cyberespaço –, que me fazem o rastreio do que pode ser assunto para uma boa reportagem e a espinha dorsal do programa. O meu despacho diário é de cerca de uma hora, o que dá a noção do que é a oferta cultural em Portugal. Para já não falar da quantidade de agendas culturais que se publicam neste País.

De tanto olhar

De tanto Olhar', edição Campo das Letras, reúne três livros em um. Fotografias e textos de Carlos Pinto Coelho, que mostram "tantas coisas" que o autor viu e fotografou e o "tanto tempo" que as vê.

O livro apresenta imagens antigas e outras mais dedicadas a três temas: ‘As Vidas’ mostra as pessoas, "é o fotojornalismo, a reportagem, o retrato; ‘As Formas’ é "um livro onde não há uma única pessoa, são geometrismos e cromatismos; ‘Ensaio de Nú Feminino’ é algo em que o autor recupera uma ideia que praticou há cinco anos, com uma modelo francesa. Desta vez, as fotos foram registadas no Palácio da Quinta da Piedade, um espaço muito convidativo para a fotografia. O prefácio é de Lídia Jorge.

Perfil

Carlos Pinto Coelho nasceu em Portugal, foi para Moçambique "num cestinho" e regressou com 19 anos, para estudar Direito. Viveu o 25 de Abril intensamente. Passou por vários jornais, rádios e acabou por assentar na RTP, onde chegou
a ser director de programas. Pai, jornalista, dirige o noticiário cultural 'Acontece' há nove anos e pode gabar-se do feito de estar à frente do mais bem sucedido programa do género
na Europa. Pelo 'Acontece', recebeu o Prémio Bordalo e o Prémio do Clube de Jornalismo mas admite que não sabe definir o que é a cultura portuguesa actualmente: "Os homens da cultura sabem, eu, jornalista, não sei".
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