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Correio da Manhã

Tv Media

“Competitividade estragou amizade com Manuela”

Dependente do trabalho, gaba-se de ter sempre os melhores entrevistados e conhecer como ninguém a RTP, onde entrou aos 18 anos. Diz que amizade com casal Moniz se ressentiu de rivalidade entre canais.
19 de Março de 2010 às 00:00
Judite de Sousa
Judite de Sousa FOTO: Jorge Paula

- As audiências são muito importantes para si? Ficou incomodada com a comparação entre a entrevista ao primeiro-ministro José Sócrates na SIC e a de Cavaco Silva na RTP...

As audiências são importantes para quem faz televisão pois estamos sujeitos a um escrutínio diário. Fazemos um programa à noite e no dia seguinte já temos as audiências. E as audiências reflectem o nosso trabalho, são, de facto, uma expressão de agrado ou desagrado do público. E desse ponto de vista têm de ser tidas em atenção.

- Mesmo na estação pública?

Claro! O brio profissional não é diferente por se trabalhar numa estação pública ou privada. Uma pessoa ou tem brio ou não tem. E ter brio é perceber se o seu trabalho tem espectadores, se agrada. E isso manifesta-se de duas formas, através das audiências e da crítica. Tem a ver com a natureza da profissão.

- Decidiu voltar à reportagem com ‘Vidas Contadas’, porquê? Há quantos anos não fazia reportagem?

A última vez que estive no terreno foi na Madeira

- E nas eleições americanas...

Aí funcionei como coordenadora em Washington do trabalho que era feito pelos jornalistas que tinhamos nos Estados Unidos e como pivô. Reportagem, a última vez foi nos atentados de Madrid, em Março de 2004.

- O que a motivou a voltar com este programa?

Muito simples. O António Vitorino deixou-nos, o programa ‘Notas Soltas’ acabou e entendi, juntamente com os colegas da direcção de informação, que seria uma pena não encontrarmos um programa que ocupasse aquele espaço. Como não tinhamos solução alternativa na área do comentário político, pensei que um bom formato para aquele segmento horário seria reportagem. Que, neste momento, é o que funciona melhor em termos de informação.

- Mas há grande concorrência, pois ‘Repórter TVI’ lidera, a SIC tem ‘Sinais de Fogo’, com reportagem e entrevista... Não seria melhor exibir um formato diferente, noutro dia?

Eu não coloquei na segunda-feira para aborrecer ninguém...

- Não foi por causa de ‘Sinais de Fogo’?

Não. Coloquei na segunda-feira, porque nesse dia tinha um programa já há cinco anos. E os melhores dias para programas de informação em televisão são a segunda e a quinta-feira, porque há terça e à quarta há normalmente jogos de futebol (da Liga dos Campeões) e a sexta-feira é aquele dia em que grande parte do público não está tão sintonizado com uma televisão, pois é véspera de fim-de-semana. À quinta tenho a ‘Grande Entrevista’ e à segunda tinha o António Vitorino. Portanto, ocupei um espaço que já era meu.

- A RTP pondera regressar ao comentário político?

Estamos a estudar. Esse assunto não está na minha esfera de competência. Mas estamos a estudar obviamente uma solução que nos permita um programa de comentário político, que seja sólido e consistente.

- Há condicionantes da ERC em relação ao que a RTP possa escolher ou não?

Não faço a mínima ideia. Esse assunto não está nas minhas mãos.

- E há comentadores no mercado?

Comentadores no mercado há. O mercado é muito volátil, pois as pessoas um dia estão num sítio e outro estão no outro. Mas isso vai ter de perguntar ao José Alberto Carvalho. Esse target não é meu.

- Gostava de voltar a ter um interlocutor como Vitorino?

Neste momento não. Sinto-me perfeitamente realizada ao nível do jornalismo político com a ‘Grande Entrevista’. E estou muito entusiasmada com este meu novo programa, independentemente dos resultados que possa ter. É um conceito original que reúne algumas componentes muito interessantes daquilo que se faz nos EUA, mistura o jornalismo da CNN, dos repórteres em movimento, com o estilo do ‘20/20’ da Barbara Walters. Não que eu queira comparar-me à Barbara Walters, até porque ela tem muitos mais anos do que eu, biologicamente e profissionalmente. Mas estou muito contente com este novo formato, acho que está a ser muito bem recebido pela imprensa, pela crítica...

- O que a leva a dar a cara em todos os projectos? É directora-adjunta de informação, apresenta um programa, faz reportagem, entrevistas...

Gosto muito de trabalhar. Não imagino a minha vida sem trabalhar.

- Mas aceitou um cargo burocrático e continua a trabalhar no terreno...

Não tenho a culpa se tenho uma capacidade de trabalho superior à das outras pessoas. Acho que isso só me orgulha, acho que se todas as pessoas tivessem a minha capacidade de produção talvez não estivessemos na cauda da Europa.

- Trabalha quantas horas por dia?

Neste momento estou a trabalhar bastante. Porque estou a fazer muitas reportagens e entrevistas. Eu tinha dois programas em antena, não faço tudo. Continuo a ter os mesmos dois.

- Mas continua a acumular entrevistas....

Não, não. Isso é uma coisa importante, tinha a ‘Grande Entrevista’ há 12 anos e tinha ‘Notas Soltas’ há cinco anos. E agora continuo na mesma. Eu não tenho três.

- Este programa de reportagem não lhe dá mais trabalho?

Dá. Mas eu gosto. Gosto de trabalhar e acho que toda a gente devia seguir o meu exemplo.

- É verdade que a RTP tinha programado uma entrevista com José Sócrates para exibir em cima da estreia de ‘Sinais de Fogo’?

Tinhamos uma entrevista apalavrada com o gabinete do primeiro-ministro e tinhamos pensado colocar essa entrevista no ar dia 22 de Fevereiro. Porque não era uma grande entrevista, pois se o fosse seria feita exclusivamente por mim e iria para o ar na quinta-feira. Estava  apalavrada para ser um especial informação. Sendo assim, não seria a grande entrevista da Judite de Sousa.

- Mas isso era contra-programação?

Não vejo assim. A SIC não está em condições de acusar a RTP, porque há quatro anos tinha eu a ‘Grande Entrevista’ em antena com Pedro Santana Lopes, acabadinho de lançar a sua auto-biografia em que fazia aquele ajuste de contas com uma série de pessoas, e a SIC nesse dia exibiu a entrevista de Maria João Avillez com o professor Cavaco Silva. Portanto, se há alguém que tem um historial de contra-programação não somos nós. Sei que isto aconteceu há quatro anos, mas eu recordo. Não estávamos a fazer nada que não tivessem já feito connosco.


“O PRIMEIRO-MINISTRO REAGE MAL À ADVERSIDADE DA PERGUNTA”

- Como encarou este volte-face? Acabou por perder a entrevista para a SIC...

Não tem problema nenhum. Ele tem dado entrevistas de três em três meses. Do ponto de vista jornalístico e do ponto de vista de furo nem sequer atribuo grande importância a isso porque, como todos nós sabemos, nos últimos anos o primeiro-ministro, por força das circunstâncias, e pelos casos em que o seu nome tem estado referido ele tem dado várias entrevistas. E, nessa guerra, até acho que a RTP saiu a ganhar, porque a SIC entrevistou o primeiro-ministro, coisa que nós fizemos por duas vezes no último ano, e a RTP na semana seguinte entrevistou o presidente da República, que não dava uma entrevista há quatro anos.

- É difícil entrevistar o presidente da República?

É muito fácil. Porque o presidente da República é muito previsível, no sentido em que responde a todas as perguntas. Diz o que quer dizer, mas responde às perguntas. Não é aquele tipo de pessoa em que você lhe faz uma pergunta e ele vai ao Alentejo, e ao Algarve antes de chegar a Lisboa.

- O primeiro-ministro é assim?

São pessoas diferentes. O primeiro-ministro, falando na minha experiência como jornalista, reage muito mal à adversidade da pergunta. Do ponto de vista da substância. Curiosamente isso não aconteceu com a entrevista do Miguel Sousa Tavares.

- José Sócrates exige conhecer as perguntas antes?

Não, pelo menos a mim nunca me colocou essa exigência.

- Como reagiu quando fez a entrevista a José Sócrates...

E ele começou a barafustar comigo?

- Sim, e também quando acusou o ‘jornal nacional de 6ª’ de ser um ‘jornal travestido’? Como se lida com uma situação dessas em directo?

Não se lida. Não temos que lidar com as respostas, só temos que lidar com as perguntas que fazemos. Questionámos sobre o mal-estar entre ele e a comunicação social. E a propósito disso ele resolveu falar do ‘Jornal Nacional de 6ª’. Não ficamos surpreendidos nem deixamos de ficar. Registamos a resposta, que acabou por se constituir um importante ‘sound bite’ da entrevista. Só quem fosse tolo é que iria pensar que eu e o José Alberto iriamos entrar numa lógica de argumentação com o primeiro- ministro defendendo quem quer que fosse, porque o contrário também nunca iria acontecer.

- Porque motivo nunca saiu para as privadas?

Porque me sinto muito bem aqui. Tenho aqui oportunidades profissionais que nunca me foram oferecidas pelas televisões privadas. Fui convidada pela TVI e pela SIC

- Não foi uma questão monetária?

Não. Foi uma condição profissional. Fui convidada pelo José Eduardo Moniz para directora-adjunta de informação, quando já tinha a ‘Grande Entrevista’ e estava a obter muito bons resultados. Nunca iria trocar o meu trabalho em antena, que é o que sustenta profissionalmente a existência de uma pessoa, por um trabalho de gabinete.

- Mas na RTP acumula. Na TVI não o poderia fazer?

Não sei, essa questão não me foi colocada, e como entendo que uma pessoa não deve passar de cavalo para burro nunca deixei a RTP pois sempre tive aqui boas oportunidades. Tenho pena que muitas outras pessoas não possam dizer o mesmo, mas a verdade é que eu também não posso mentir. Sempre estive melhor na RTP do que estaria na SIC ou na TVI, de onde nunca me chegaram propostas profissionais tão interessantes quantas aquelas que representam o trabalho que sempre fiz nesta casa.

- E sobrevive a todas as administrações? Foi directora-adjunta com José Rodrigues dos Santos e mantém o cargo com José Alberto Carvalho...

Está-me a atribuir um lugar político que não corresponde ao de director-adjunto de informação.

- A verdade é que esses cargos mudam quando mudam as administrações.

Pois mudam, claro. Então a pergunta é outra! É porque razão o José Rodrigues dos Santos e o José Alberto Carvalho me convidaram para directora-adjunta de informação? Julgo que tem a ver com a minha capacidade de trabalho. Eu não sou convidada pelos meus lindos olhos. As pessoas confiam em mim profissionalmente, reconhecem a minha capacidade de trabalho e sabem que se for preciso estar aqui 72 horas eu estou, sem ir a casa, e que tenho uma experiência de RTP que mais ninguém tem. Trabalho aqui desde os 18 anos.

- Num dos programas com António Vitorino, quando ele lhe devolveu a pergunta sobre a tentativa do Governo de condicionar a comunicação social, a Judite de Sousa disse que ‘de forma tão visível estavamos perante algo novo’.

Pois estamos. Mas isso é público e notório. Julgo que os portugueses na sua generalidade reconhecem, pelos casos mais mediáticos. Basta seguir atentamente o que tem acontecido na Comissão de Ética e ouvir declarações feitas por directores de jornais e jornalistas que não têm muitos pontos em comum uns com os outros. Se comparar o que diz Henrique Monteiro (director do ‘Expresso’), com o que diz José António Saraiva (director do ‘Sol’), com o que diz José Manuel Fernandes (director do ‘Público’), com o que diz Mário Crespo (jornalista da SIC)... Se fizermos uma comparação entre versões de pessoas que não são próximas, que não pensam o mundo de igual forma, todas coincidem num ponto. E concluimos que, efectivamente, estamos confrontados com uma situação em que a relação deste Governo com a comunicação social tem sido uma muito tensa.

- Na RTP também notam isso?

Ao nível do meu trabalho não noto. No outro dia entrevistei o Medina Carreira, que não é uma pessoa amada por este governo, pois acham que ele é um pessimista militante. Segundo Mário Crespo, no célebre almoço no Tivoli, José Sócrates disse que havia dois problemas para resolver: um era ele, outro era o Medina Carreira. Isso impediu a Judite de Sousa de convidar o Medina Carreira para a Grande Entrevista? Zero. Não me impediu.

- Houve uma questão na RTP, pelo facto de não terem exibido a notícia sobre as escutas a Rui Pedro Soares no ‘Jornal da Tarde’. Há de facto, até pela actuação da ERC, mais cuidado na actuação da RTP?

Claro, porque a RTP é um órgão de Comunicação Social que é escrutinado de uma maneira ‘big brotheriana’.

- Como assim?

Porque é um órgão de comunicação social que tem toda a gente e todas as instituições de olhos postos naquilo que faz e naquilo que não faz. Se reparar, 90% do trabalho produzido pela ERC é sobre a RTP, aos sábados 90% dos programas do Provedor são a desancar a RTP. Depois, qualquer pessoas que está insatisfeita queixa-se aos tribunais. Temos a ERC, o Provedor, os Tribunais. De entre o que se escreve sobre media nos jornais, a maior parte é sobre a RTP. Se nós não estamos cercados por todo o lado quem está? Pois nestas circunstâncias todo o cuidado é pouco. Tem apenas a ver com isto. Uma violação do segredo de justiça na RTP não é a mesma coisa que noutra estação. Se nós violamos o segredo de justiça cai o carmo e a trindade. Nós somos presos por ter cão e presos por não ter. O escrutínio público, em relação à RTP, pelo facto de ser uma televisão pública é muito maior. E isso obriga a que a gestão de informação seja feita com muito cuidado e bom senso, mas sempre dentro dos parâmetros e do rigor jornalístico e da ética que se impõe.

- Mas tudo isso soa lá para fora...

É normal que lá fora se comente e é normal que pessoas cá dentro também comentem isso. Porque nunca ninguém está satisfeito. E quem estiver numa direcção de Informação e julgar que pode ser amado por todos os elementos que constituem essa direcção está enganado. Isto acontece na RTP, na Rádio Renascença, em todos os jornais. Só que, no caso da RTP, o nível de exposição pública é maior. Porque nos privados ninguém vai para fora dar conta do mal estar que possa existir nas redacções. Pois no dia seguinte pode perder o emprego. Enquanto numa empresa pública ainda existe aquela mentalidade do funcionário que acha que pode pintar a macaca porque nada lhe vai acontecer. E é isso que explica que muitas coisas saiam para foram porque as pessoas acham que pelo facto de trabalharem na RTP estão blindadas.

“O PCP TEM UMA FORMA EXEMPLAR DE LIDAR COM OS JORNALISTAS”

- O facto de ser casada com um autarca condiciona o seu trabalho?

Nada. Se condicionasse eu já não existia profissionalmente falando no que diz respeito à ‘Grande Entrevista’.

- Mas tem acesso mais fácil a alguns políticos e trava-lhe o acesso a outros? Porque costuma dizer que José Sócrates embirra consigo por ser casada com Fernando Seara.

Disse isso e mantenho. Não sei se é verdade, mas é o meu sentimento. Nunca lhe perguntei e ele também nunca me disse. Agora que é o meu sentimento é. Todos os políticos de Portugal já passaram pelo meu programa dezenas de vezes. Paulo Portas, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa. Não é para me gabar, mas fui a única jornalista a entrar na casa de Álvaro Cunhal. Nem muitos dos camaradas que estiveram com ele presos no Tarrafal alguma vez entraram na casa do Álvaro Cunhal. Que era um homem extraordinário. Eu nunca tive problemas com ninguém. Todos vêm ao meu programa. Já entrevistei mais de 500 pessoas.

- Qual foi a mais interessante e a mais difícil que já entrevistou?

É dificil dizer.

- Álvaro Cunhal era fascinante...

Era um homem muito acessível. O que era inacessível era o pensamento dele, porque é inacessível o pensamento de um marxista-leninista sobretudo com o avanço que o capitalismo teve. A inacessibilidade resultava disso. Mas como pessoa era uma ternura. Nunca recebi qualquer tipo de comentário de nenhum dirigente do PCP. Porque, quando se termina uma entrevista ou quando se faz um contacto para alguém vir ao nosso programa é normal que as pessoas digam quais são os temas de que se vai falar... e quando se trata de entrevista política, muitas vezes percebe-se que a entrevista provocou um certo mal-estar na pessoa. Acredita que eu nunca senti isso da parte de nenhum dirigente do PCP? De nenhum. É uma coisa extraordinária. Convido o Jerónimo de Sousa, telefono ao assessor dele, e basta-me dizer em que dia. A única coisa que ele me diz é: ‘vou falar com ele e depois dou-lhe a resposta’.

- Gosta mais de entrevistar as pessoas do PCP?

Não tem a ver com isso. Tem a ver com esta forma exemplar de trabalhar, de lidar com os jornalistas.

- Se calhar, depois na entrevista não se expõem tanto...

Repare que nos últimos anos, os dirigentes do PCP são os que têm tido mais confronto argumentativo ao nível da entrevista, pelo facto de continuarem a defender o marxismo-leninismo tal como ele foi concebido e executado por Marx e Lenine e os tempos terem contraditado essa ideologia.

- Mas não têm a repercussão que têm as entrevistas de José Sócrates ou de Cavaco Silva...

Mas eu acho que é justo prestar esta homenagem às pessoas do PCP.

- São os únicos?

Não são os únicos, mas se formos fazer o historial às várias lideranças encontramos sempre este denominador comum. Acho que esta homenagem é justa. Porque podem ter muitos defeitos, e podemos achar que estão completamente fora do tempo e fora da história, mas é justo fazer-lhe este reconhecimento.

- Como se lida com a tentativa de condicionar uma entrevista? Certamente já lhe propuseram questões e outras que não queriam que fossem feitas... Já alguma vez um entrevistado lhe disse: não venho se for feita esta pergunta?

Nunca houve ninguém que me disesse ‘não vou se me fizerem esta pergunta’. Obviamente, que já tive convidados que me deram a entender que havia assuntos sobre os quais gostariam de falar e outros sobre os quais não gostariam de falar. Normalmente, ouço, reciclo essa informação e depois faço como quero. E como os programas são sempre em directo...

- Fez parte de um grupo que se desmoronou. Margarida Marante desapareceu, Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz estão afastados, Miguel Sousa Tavares voltou agora à SIC, após dez anos em que só fez comentário. Como sobreviveu?

Pelo facto de nunca ter deixado a RTP. Nunca andei a entrar e a sair. Isto é como nas histórias dos livrinhos, quem sai deixa o lugar em aberto, porque não há pessoas insubstituíveis. Se eu sair da RTP para ir ali ganhar uns dinheiros fora, fazer outro tipo de trabalho e daqui por um mês querer voltar, o meu lugar já está ocupado. Acho que o jornalismo é como a política: ambos têm horror ao vazio. Porque todos os dias tem de se fazer programas de informação. Nunca saí e nunca dei pretexto a ninguém para que dissessem ‘esta senhora não está a dar conta do recado e vamos ter de substituir’. É essa a razão porque tenho sobrevivido.

- A Manuela Moura Guedes tem futuro na TV?

É um assunto que não me diz respeito e sobre o qual não me interesso absolutamente nada.

- Mas tiveram uma relação de amizade.


Tivemos, no passado, uma relação muito grande de amizade, mas que terminou, segundo a minha convicção, em razão desta doentia competividade entre televisões, que no caso deles terá sido vivida de uma forma muito intensa.

- Se por alguma razão deixasse de fazer as grandes entrevistas, quem é que na RTP poderia ocupar o seu lugar?

Não seria difícil.

- E nas outras estações?

Não seria dificil, porque a experiência televisiva dos últimos 30 anos em Portugal mostra-nos que não há pessoas insubstituíveis. Porque todas as pessoas que referiu sairam e todas foram substituídas e, na maioria dos casos, os resultados não caíram. É muito bonito as pessoas andarem a dizer ‘ah eu fazia grandes audiências e saí e aquilo caiu’. Mas isso não corresponde à verdade. Porque vamos ver as audiências e verficamos que não há grandes diferenças. Por exemplo, entre os pivôs do Telejornal não há grandes diferenças, quer os da SIC, quer os da TVI quer os da RTP. Obviamente que há pessoas que têm mais popularidade e mais notoriedade que outras. Mas digamos que em Portugal as pessoas são mais fieís a conteúdos

- Mais do que a caras?

Sim. Essa é uma originalidade portuguesa.

- Nos outros países não é assim?

Na América e em França há uma grande personalização da informação As pessoas dizem que vão para casa ver o Telejornal de fulano. Em Portugal não há uma personalização a esse nível. As pessoas vêem o Telejornal, que é uma marca universal, pois muitas vezes referem-se ao Jornal Nacional, da TVI, e ao Jornal da Noite, da SIC, como o telejornal.

“LEMBRO-ME DE SER PEQUENA E ACHAR O MÁXIMO AS LANTEJOULAS DA ALICE CRUZ”

- Tem um cuidado especial com a imagem e usa umas roupas ousadas, como os sapatos e as botas mais arrojados...

...Isso é por causa das botas que usei na Madeira?

-... E na entrevista a Cavaco Silva...

Não eram botas, eram sapatos. Tenho cuidado com a imagem, claro que sim, mas mal de mim se não tivesse. Não é possível nenhum profissional de televisão que esteja em antena não ter esse cuidado. Portugal é um país onde os telespectadores reparam muito na maneira como as pessoas aparecem.

- Isso surgiu com as privadas?

Não. Lembro-me de ser pequena e achar o máximo aquelas lantejoulas da Alice Cruz, o glamour da Ana Zanatti, o Festival da Canção.... Televisão e imagem são indissociáveis, há um cordão umbilical entre estas duas palavras. Uma pessoa que faça TV e não pense na forma como se vai apresentar perante o público é tontinha. Que digam de mim que tenho mais preocupações com a minha imagem agora é verdade. Por uma razão muito simples: capacidade económica. Quando vim para Lisboa, em 1991, coitadinha de mim...  mal tinha dinheiro para pagar o colégio do meu filho, quanto mais para gastar em botas ou em malas.

- Antigamente havia um grande investimento no entretenimento, que não era tão visível na Informação.

A imagem tem de ser cuidada, mas há sempre uma questão de credibilidade associada à imagem televisiva. Tenho arriscado ao aparecer sem mangas porque sou magra, pois se tivesse uns brações não ia aparecer de ombros à mostra. Se tivesse mais 20 quilos refuigiava-me nuns tailleurs.

- Os códigos têm mudado?

Os códigos têm mudado e a imagem das apresentadoras de informação também. Há um classicismo associado à imagem televisiva no que diz respeito aos profissionais de informação. Tenho procurado mudar a minha imagem a esse nível, torná-la porventura mais jovem. Mas procuro ter bom senso e só arrisco em determinadas peças de vestuário quando sinto que isso não compromete a minha credibilidade. Procuro enxergar-me.

- Como se consegue trabalhar tanto e educar um filho?

Mas ele está criado. Tem 24 anos.

- Quando estava a ser criado também trabalhava muito.

Sim. Sempre consegui conciliar a minha vida profissional com a pessoal. Tive uma grande sorte na minha vida, que foi ter conseguido, sem cunhas, que o meu filho entrasse no Colégio S. João de Brito. Quando vim para Lisboa, em 1991, não conhecia ninguém. Vim ganhar 220 contos por mês. Pagava 150 de renda de casa.

- Era muito na altura?

Não era muito para quem já tinha quase 16 anos de profissão. E não tinha ninguém em Lisboa, nem primos, nem tios, ninguém. Zero de família, zero de apoio. Na altura o meu filho tinha seis anos e a minha preocupação era arranjar uma boa escola para ele, porque sabia que aqui em Lisboa a pressão sobre mim ia ser muito grande. Pois fui escolhida pelo director, na altura o José Eduardo Moniz, para vir apresentar o jornal dele... Eu imagino as conversas que devem ter existido pelo facto de o José Eduardo Moniz ter escolhido a Judite de Sousa do Monte da Virgem para vir apresentar o jornal dele. ‘Então e nós daqui?’. Dito isto, primeiro vivi em casa da Patricia Gallo, que me cedeu gentilmente a sua casa. E depois, quando o meu filho veio, fomos para um apartamento na Óscar Monteiro Torres, onde pagava um balúrdio por um duplex muito pequenino que o meu filho dizia que era um casa de bonecas, dada a dimensão dos quartos. E a minha preocupação era a escola dele. Escrevi uma carta ao director, muito emotiva mas verdadeira, dizendo que era divorciada, que trabalhava da RTP, que tinha uma vida profissional muito exigente, que tinha horários diversificados, e que queria que o meu filho fosse aceite para que tivesse um enquandramento a nível de escola que pudesse obviar as insuficiências que, porventura, ele teria ao nível do espaço familiar. Porque não tinha o pai, não tinha familiares. O certo é que a carta deve ter resultado, porque foi chamado e aceite.

- Ele não é jornalista?

Não, é advogado estagiário. E ele teve uma excelente educação, foi muito bem preparado do ponto de vista da escolaridade e do ponto de vista pessoal. É um excelente ser humano, é uma pessoa muito bem formada.

- E nunca cobrou o facto de a mãe trabalhar tantas horas?

Nunca. Sempre percebeu que nas empresas é assim. Muita vezes as pessoas têm que trabalhar muito para serem reconhecidas. Há diferentes categorias de pessoas nas empresas. Há aquelas que, por obra e graça do Espírito Santo, caem no goto de alguém. E há aquelas que têm de se impor profissionalmente, que têm de agarrar todas as oportunidades.

- Foi o seu caso?

Eu estava sempre disponível. Desde os meus 18 anos. Era preciso ir a Telheiras, ia a Telheiras. Era preciso ir à Covilhã, ia à Covilhã. Nunca tive relacionamentos a outros níveis que não profissional, e portanto sempre fui muito voluntariosa, disponível...  Há duas semanas que devo ser a pessoa que mais caldos verdes come no Sheraton do Porto. Tenho feito muitos trabalhos no Norte, chego ao hotel como um caldo verde, vejo o meu programa, vejo o do Sousa Tavares e deito-me...

“SEMPRE TIVE OS MELHORES ENTREVISTADOS”

- Tem curiosidade em ver a concorrência?

Eu vejo tudo na informação.

- ‘Sinais de Fogo’ está a criar alguma polémica, pelas entrevistas.

Nunca se consegue ser consensual. Ninguém se deve achar o melhor do Mundo, tal como ninguém deve achar que é insubstituível. Isso é inquestionável em televisão. Não há consensos nas figuras televisivas. Há sempre quem goste e quem não goste. A maior parte das pessoas tem de nós um opinião virtual e faz dela uma opinião difinitiva. A TV é perversa deste ponto de vista. Uma coisa é a imagem virtual outra é a real.

- As critícas em relação ao programa de Sousa Tavares têm a ver mais com a pessoa do que com o formato?

Não. Quero dizer que, de quem quer que estejamos a falar, nunca há consensualidade. Nunca. Quem procure a consensualidade está a procurar uma utopia. Ninguém pode ter a pretensão de querer ser amado pelo facto de aparecer em televisão. Da mesma maneira que há pessoas que gostam da ‘Grandre Entrevista’ e outras que não gostam. Felizmente, que são mais as que gostam, considerando os resultados do programa. E um programa que se está a lançar tem de fazer o seu caminho. Eu também fiz o meu - mas nunca dei tiros no pé. Sempre tive a preocupação de todas as semaans ter os melhores convidados. Sou muito persuasiva ao telefone. E arranquei com  a ‘Grande Entrevista’, em 1998, em alta: os meus primeiros convidados foram Sousa Franco, o falecido ex-ministro das Finanças, o patriarca de Lisboa, quando foi nomeado, o dr. Cunha Rodrigues, que não dava entrevistas a ninguém, e Belmiro de Azevedo, que só dá duas entrevistas por ano e a quem quer. Comecei, em 1998, em alta, logo com a ‘crème de la crème’, e procurei sempre ter os melhores, aqueles de quem se falava. E ao fim de 12 anos continua a ser essa a minha preocupação. É o Zeinal Bava, é o Armando Vara, é o Charles Aznavour é o Tony Carreira. Por vezes é dificil, mas é desafiante, pois, antes de mais, estou a competir comigo.

- Agora tem competição na SIC!

Mas já houve dois programas que estiveram em competição comigo e foram retirados de antena. Situação sobre a qual a imprensa em Portugal foi omissa. Se tal facto acontecesse comigo acho que já estava feita em fritinhos pequeninos. Não tenho medo da concorrência, porque antes da Constança (Cunha e Sá) e do Mário Crespo terem os programas de entrevista e terem saído de antena eu já tinha concorrência comigo própria. Gosto muito de me testar. E tenho uma história pessoal de vida em que tive de me fazer a mim própria.

- Isso é importante?

Isso molda as pessoas. Se você nasce numa família em que tudo lhe é dado, em que, sem ter de trabalhar, tem o melhor carro do mundo, isso molda o carácter, a fibra. Eu sempre tive de lutar pela vida, porque nunca tive ninguém atrás a puxar por mim. Sou a jornalista que sou, porque sou a mulher que sou e sou a mulher que sou pela história de vida que eu tive.

- Sempre quis ser uma lutadora?

Tive de ser.

- Licenciou-se em História, porquê?

Já estava a trabalhar e já tinha o meu filho. Comecei a trabalhar aos 18 anos, depois fui para Macau um ano e meio. E quando vim é que retomei os meus estudos, entretanto casei, fiquei grávida. E como era boa aluna a história optei porque era o curso que me permitia estar a estudar em casa a estudar até às três da manhã  sem no dia seguinte ter de ir às aulas. Era o único curso que me permitia conciliar a vida profissional com a pessoal, porque eu fui trabalhadora estudante.
 
PERFIL: O ROSTO DA INFORMAÇÃO DA RTP

Judite de Sousa nasceu no Porto em 1960. Aos 18 anos entrou para a RTP, onde se mantém como directora-adjunta de Informação. Licenciada em História, foi distinguida com a Ordem de Mérito pelo então Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio. Apresenta ‘Grande Entrevista’ e ‘Vidas Contadas’. É casada com o actual presidente da Câmara Municipal de Sintra, Fernando Seara, e tem um filho de 24 anos.

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