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Correio da Manhã

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COMUNICAÇÃO EM CRISE

Televisões, jornais e rádios vivem tempos conturbados. Ameaças de despedimento colectivo, rescisões amigáveis, contenção de custos são palavras que entraram em definitivo no vocabulário das empresas.
8 de Novembro de 2002 às 00:00
A SIC e a Agência Lusa são apenas os exemplos mais recentes de uma tendência que não escolhe ‘vítimas’ e que teve o grande caudal na RTP, de onde vão sair mais de 700 funcionários. A quebra nas receitas de publicidade é apontada como a principal causa para o emagrecimento das estruturas. Mas há quem discorde.

Como Alfredo Maria, presidente do Sindicato dos Jornalistas, para quem a culpa não é da publicidade. Nem da falta dela. “Parece é que as empresas já estão a aplicar o novo Pacote Laboral, que ainda não foi aprovado. Julgam que podem adoptar as decisões que entendem, pelas razões que entendem, de forma rápida e em força”, afirma o presidente do SJ (ver caixa).

Ontem, a propósito do clima de ‘guerra’ que se vive na estação de televisão SIC, Alfredo Maia lembrou que os “trabalhadores estão a tentar contrariar esta tendência do patronato através dos delegados sindicais”. Fonte sindical da SIC confirmou ao CM que, “face à actual situação [propósito anunciado da administração de despedir trabalhadores para reduzir os custos operacionais em cinco milhões de euros], é o sindicato que tem competência para agir”.

A intervenção dos delegados sindicais, que na SIC existem há cerca de um ano, ‘rompe’ com o tradicional diálogo entre a redacção e a administração da TV de Carnaxide, missão desde há muito desempenhada pela Comissão de Representantes. Esta estrutura, composta por jornalistas, é eleita pela redacção de dois em dois anos por voto uninominal. E, desde a última eleição, os delegados sindicais são também membros da Comissão de Representantes.

“Até ao momento, e pelo que sabemos, ninguém foi contactado, nem ninguém se voluntariou para rescindir”, afirmou a mesma fonte.

Tal como o CM noticiou, de acordo com a direcção da SIC existe a necessidade de reduzir o número de trabalhadores, “não só da redacção”, no sentido de ‘cortar’ cinco milhões de euros na parcela de custos operacionais para o orçamento de 2003. Segundo afirmou Alcides Vieira, director de informação, “o que se está a passar na SIC é que o que se está a passar em todo o sector da comunicação”. “A empresa tem de ser racionalizada em função do mercado”, adiantou o director de informação da SIC, esclarecendo que, em 2002, “o mercado publicitário não reagiu como se previa”.

De acordo com dados da empresa Sabatina, especializada no estudo da informação noticiosa e publicitária difundida na comunicação social, o investimento total do mercado publicitário registou um crescimento de um por cento quando comparados os primeiros oito meses deste ano com igual período de 2001.

No entanto, os cálculos são feitos com base nos valores de referência e não contemplam eventuais negociações comerciais (como descontos). Assim, a televisão e a publicidade exterior foram os únicos suportes que registaram crescimento: 5 e 3 por cento respectivamente.

A descer esteve o investimento publicitário na rádio (menos 11 por cento), no cinema ( menos 14 por cento) e na imprensa (menos 8 por cento). embora neste caso as maiores quebras tenham ocorrido a nível dos jornais não diários (menos 16 por cento) e das revistas (menos 10 por cento).

Com mais ou menos anúncios, a agitação parece ter chegado para ficar. Na Agência Lusa, os trabalhadores vão discutir em plenário, no dia 20, a realização de uma greve. Há cerca de um mês, vários jornalistas do diário desportivo ‘O Jogo’ foram contactados para rescindirem com a empresa. E também no mês passado a administração da Rádio Capital anunciou a intenção de reduzir a sua redacção a um terço dos profissionais.
Também no grupo Lusomundo Media se fala de algumas saídas, mas a administração garantiu ao CM que o que existe é apenas “uma renovação no sector”. O ‘Diário de Notícias’ vai surgir com um novo grafismo no início de Janeiro, o que originará também mudança de conteúdos.

POSTURA ARROGANTE
“Julgo que não há memória de um ano tão mau como este em matéria de ameaças de despedimento ”, afirmou ao CM o presidente do Sindicato dos Jornalistas (SJ), Alfredo Maia. Da televisão à rádio, passando pelos jornais, os boatos são mais do que muitos e os contactos multiplicam-se. “As empresas têm uma postura arrogante”, acusou.

“O que se passa é que as empresas julgam poder adoptar as decisões que entendem, de forma rápida e em força”, considerou Alfredo Maia. “Quase parece um sinal para o Governo de que pode avançar com o novo Pacote Laboral, porque as empresas já o estão a aplicar”, afirmou o presidente do SJ.

“Em vez de discutir as questões, o patronato está a ir pelo caminho mais fácil – o despedimento, ainda que disfarçado de rescisão amigável”, disse Alfredo Maia. “Nós não podemos apresentar soluções quando não conhecemos os problemas. É preciso discutir.”
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