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Correio da Manhã

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Cunhal era um sedutor

Odete Santos, antecipa, no CM, a ‘defesa’ que vai fazer de Álvaro Cunhal no programa ‘Os Grandes Portugueses’, da RTP. A deputada comunista e advogada diz que o antigo líder do seu partido, ao contrário do que muito boa gente pensa, não era reservado e sublinha o facto de ter sido um sedutor.
19 de Janeiro de 2007 às 00:00
'Era rigoroso, mas muito aberto. Gostava de se divertir', confessa a deputada, lembrando que o histórico secretário-geral comunista não era autoritário
'Era rigoroso, mas muito aberto. Gostava de se divertir', confessa a deputada, lembrando que o histórico secretário-geral comunista não era autoritário FOTO: Rui Pando Gomes
Álvaro Cunhal “foi apresentado como uma pessoa fechada, mas não era”, explica Odete Santos, disposta a defender “as qualidades humanas” do antigo secretário-geral do PCP, as quais, enfatiza, “tentaram denegrir”. A deputada diz que houve pessoas “a atribuir-lhe certos defeitos que não correspondem à verdade. Dizem que era autoritário, mas era um defensor do colectivo. Há certas acusações que lhe fazem”, reforça, que só têm uma explicação: “Má-fé.”
Defendendo o modelo de debates traçado pela TV pública – a dois, na sua óptica, não traria vantagens –, a advogada confessa que Álvaro Cunhal “era rigoroso, mas muito aberto. Gostava de se divertir e contactar com a juventude”, sublinhando que “era considerado um sedutor, mesmo por pessoas fora do partido. Era uma pessoa muito solidária para com os camaradas”.
Nas ‘alegações’, Odete Santos dirá, igualmente, que todo o pensamento de Cunhal “é para o século XXI, não é do passado”. Já em 1941, lembra, o histórico líder do PCP “defendeu uma tese, muito avançada para a época, sobre o direito legal ao aborto”. A deputada falará também no facto de Cunhal ter sido “uma referência obrigatória na luta contra o fascismo, contra a opressão das liberdades”, tendo contribuído para que houvesse “uma revolução democrática e a restauração das liberdades”.
Odete Santos abordará, ainda, a multifacetada personalidade do antigo líder do PCP, que abrange várias áreas, “a cultural, porque foi pintor e escritor, a política e, também, a pessoal”, ao passo que outros candidatos ao título de ‘grandes portugueses’ são, apenas, “figuras da área cultural”.
Odete Santos, pouco interessada em falar de Salazar, sempre disse que “o fascista que era” não deveria ter figurado na lista de ‘Os Grandes Portugueses’. Tal facto, afirma, constituiu “uma vingança contra o 25 de Abril” e, refere, “se pensarmos na tortura que houve, só podemos pensar que se trata de uma vingança dos que confundem o marasmo de Salazar com estabilidade”.
"'NATURALIZAÇÃO' DE SALAZAR"
Francisco Rui Cádima, professor de Ciências da Comunicação, na Universidade Nova de Lisboa, questiona as obrigações do serviço público de televisão por causa do programa ‘Os Grandes Portugueses’, da RTP 1.
O essencial das declarações do especialista em televisão, ontem, ao nosso jornal, foi “omitido”, particularmente na matéria que respeita ao “enquadramento e critérios do concurso da RTP, as obrigações do serviço público de televisão, e, em consequência, a ‘naturalização’ de Salazar enquanto ‘grande português’, com um ruidoso silêncio à volta, vindo em particular da ‘inteligentsia’ portuguesa e dos habituais ‘opinion makers’”, diz o professor Francisco Rui Cádima.
Este crítico de televisão, que já foi director do Obercom (Observatório da Comunicação), acusa o canal estatal de entrar pelo caminho da “banalização”, porquanto, explica, permite que “um ditador responsável por assassinatos políticos passe por um grande português”, o que, refere a concluir, “numa televisão pública deve fazer pensar”.
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