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Correio da Manhã

Tv Media
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E DURAM, DURAM…

As novelas portuguesas parecem as pilhas alcalinas: e duram, duram… Porque quanto mais ‘esticam’, mais baratas ficam a quem as produz. Mas os prolongamentos da acção tornam-se um desafio à criatividade dos guionistas e à resistência dos actores…
6 de Novembro de 2004 às 00:00
Ninguém se esquece de Mariana, a maria-rapaz que passava a vida a garantir que não era ‘trinca-espinhas’. Afinal, ‘Anjo Selvagem’, com 365 episódios, encabeça a lista dos folhetins televisivos portugueses com maior duração. Estreou-se na TVI a 3 de Setembro de 2001 e só chegou ao fim a 21 de Fevereiro de 2003.
A história protagonizada por Paula Neves e José Carlos Pereira não é, porém, a única a sofrer o ‘milagre da multiplicação’… de episódios. ‘Saber Amar’ ultrapassou os 120 capítulos previstos e atingiu aos 246. ‘Queridas Feras’, que este mês chega ao fim na TVI, não está longe e deverá chegar aos 235 capítulos, terminando um ano depois da sua estreia.
Por que duram tanto as novelas? E como resistem guionistas e actores às ‘extensões’ da acção, à pressão das produtoras e das estações de televisão?
“Gastar pouco e ter muito público” é, segundo Rui Cádima, professor universitário e profundo conhecedor do fenómeno televisivo, a lógica que sustenta esta realidade. “Porque os operadores televisivos têm muita dificuldade ao nível da gestão e das receitas de publicidade, não há grandes apostas qualitativas em termos de programação”, explica. E adianta: “As apostas são sempre calculadas sobre o menor risco. Pretende-se um produto que não seja muito caro, que tenha uma boa relação qualidade, preço, versus quantidade de audiência”. Por esta e outras razões, Portugal é, na Europa dos 15, o único país a transmitir telenovela em horário nobre.
AS HISTÓRIAS ‘LAMECHAS’
Se uma novela se consolida em termos de audiência média, faz-se render o peixe. “Não é grave que uma novela tenha centenas de episódios! O problema é quando o tom começa a ser lamecha e se cai no melodrama estilo latino-americano”, alerta Rui Cádima.
Pedro Giestas, o actor que em ‘Anjo Selvagem’ interpretou o papel de Zeca e se perdeu de amores pela “menina Marta”, sabe que “quando uma produção se fica pelos 120 capítulos, não tem perdas nem grandes lucros”. Mas se vence essa barreira “tudo o que vier é lucro. Mais lucro ainda”, diz.
E aponta o dedo acusador a quem produz, exibe e consome este tipo de ficção. “Quem produz tem a obrigação de o fazer com qualidade. Mas compreendo que uma televisão privada queira fazer dinheiro. Por que hão-de as estações privadas fazer caridade e exibir produtos iguais aos da 2:, se não lhe trazem audiência? Quem tem poder para acabar com este ciclo vicioso é o telespectador. Ele tem na sua mão os botões que lhe permitem mudar de canal. Face à realidade actual, concluo que o público tem aquilo que quer”, afirma à Correio TV Pedro Giestas em tom crítico.
O actor não esquece o papel dos guionistas e esclarece que deles se espera que “façam um esforço maior para aumentar a qualidade dos textos. Alguém precisa de o fazer. É uma questão de seriedade”, diz.
Pedro Giestas que esteve até ao último episódio no elenco de ‘Anjo Selvagem’, uma adaptação do original argentino ‘Muñeca Brava’, explica porque é que apesar da longa duração da novela, nunca se cansou da representação: “O Zeca não era apenas o rapaz que andava atrás da Marta. Era uma personagem participativa e interventiva. E quando o trabalho nos dá prazer não nos cansamos dele”.
O ENROLAR DA HISTÓRIA
O guionista Manuel Arouca, autor de ‘Jardins Proibidos’, ‘Jóia de África e ‘Amanhecer’, entre outros, diz que ‘Baía das Mulheres’, em exibição na TVI, com 180 episódios, é a sua maior novela. “Acho que este é o número ideal, à semelhança do que acontece com os produtos brasileiros. Porém, se uma novela corre bem pode ir até aos 200 capítulos”, explica à Correio TV.
Consciente de que “os critérios por vezes ultrapassam os autores”, e mesmo sabendo que há novelas que “resistem a grande número de capítulos”, Manuel Arouca diz que a “maior parte ressente-se”. Aponta um exemplo: “Veja-se o ‘Anjo Selvagem’ com o enrolar da história, o desgaste de algumas personagens...”.
“Uma novela tem sempre quatro ou cinco histórias a decorrer ao mesmo tempo. Se todas estiverem a funcionar bem a todos os níveis, a história pode ir até aos 200 capítulos, mas nem sempre isso acontece. Todos gostaríamos de fazer produções mais pequenas, mas é difícil em termos financeiros. Na ficção, a novela é o produto mais barato”, explica Manuel Arouca.
ATÉ AO INFINITO?
José Fanha, autor que adaptou para Portugal a série espanhola ‘Ana e os 7’, entende que uma novela pode durar “infinitamente”. “Desde que o drama e as suas personagens mantenham o público interessado. Não sendo uma novela, veja-se o caso de ‘Os Sopranos’, cuja longevidade vai a par com a sua imensa qualidade a todos os níveis que queiramos analisar”, sublinha.
“Se uma novela tem êxito de audiência e de investimento conexo de publicidade, a tendência é prolongar esse sucesso com a virtude acrescida de rentabilizar o investimento inicial”, diz José Fanha à Correio TV.
E quando a acção se prolonga, o guionista explica que a “escrita entra num processo repetitivo, porque ao prolongamento não corresponde à criação de novos núcleos dramáticos, de novos pólos de interesse, de novos cenários até. É muito difícil fazer acrescentos razoáveis. Às vezes, conseguimos introduzir uma personagem ou um conflito que, por si só, consegue manter o barco a navegar, mas o normal é vermos as histórias a prolongarem-se e o seu interesse a esgotar-se.
E quando o interesse das histórias se esvai, lembra José Fanha, “o telespectador balança entre o cansaço da repetição sem chama e o prazer que lhe dá continuar a encontrar-se com as ‘suas’ personagens”.
Na opinião deste autor, uma das razões que sustentam as telenovelas e os acrescentos a que já nos habituaram são as personagens: “Já não me lembro da trama da maior parte das telenovelas que vi. Mas lembro-me da viúva Porcina, do Sinhôzinho Malta, do Nacib, etc, etc. As melhores personagens acabam por passar a fazer parte da família das nossas memórias”.
AGRADO DO PÚBLICO
Maria Emília Correia, que integrou o elenco de ‘Saber Amar’, é uma actriz rendida ao encanto das novelas. Elogia a “imaginação” dos guionistas que “mantêm a chama acesa durante tanto tempo” e assegura que “a qualidade pode manter-se independentemente do número de episódios”. Diz peremptória: “Se uma produção se mantém meses no ar é porque é do interesse da estação e do agrado do público”.
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