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Correio da Manhã

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“É pena que as novelas não promovam a nossa cultura”

Na pele de Artur, o novo galã de ‘Dancin’ Days’ (SIC), o actor não poupa elogios à novela, mas confessa que o seu coração permanece na Confluência, projecto que mudou a sua vida
21 de Setembro de 2012 às 15:00
Ricardo Carriço irá aparecer brevemente em ‘Dancin’ Days’ na pele de Artur, um galã que se vai apaixonar por Júlia (Joana Santos)
Ricardo Carriço irá aparecer brevemente em ‘Dancin’ Days’ na pele de Artur, um galã que se vai apaixonar por Júlia (Joana Santos) FOTO: Tiago Sousa Dias

Como está a ser o seu regresso à televisão na pele de Artur, em ‘Dancin’ Days’?

Está a ser muito bom. É sempre agradável trabalhar em equipas em que todas as pessoas se entendem. Faz-nos acreditar, imediatamente, que o sucesso é garantido.

Prefere as participações especiais a um papel de protagonista?

O Artur, apesar de não ser protagonista, tem-me obrigado a um ritmo de gravações intenso. Não me assusta nada ter um papel principal numa novela. O que acontece é que ao integrar a associação cultural Confluência [em Cascais] senti necessidade de dedicar algum do meu tempo a este projecto. Por este motivo é possível que me tenha afastado mais.

Então é uma opção sua?

Sim, claro.

Dancin’ Days’ roubou a liderança à TVI. Como é que isso é vivido nos bastidores?

As guerras das audiências acontecem para tomarmos consciência de que devemos fazer mais e melhor e que devemos aprender com os nossos erros e com os dos outros. Não encaro isso como um ‘levantar a bandeira’, que diz que nós é que somos bons e os outros maus. De uma vez por todas, tem de haver a consciencialização de que o público percebe o que está a ver. Por isso, se existem estas guerras, prefiro não entrar nelas, mas aprender com elas.

E o que é que aprendeu?

Que as pessoas gostam de uma boa história e ‘Dancin’ Days’ tem uma boa história, assim como um excelente elenco, uma produção muito bem cuidada e com um nível de qualidade francamente bom. Aliás, já tinha notado isso em ‘Laços de Sangue’. As coisas deram um salto em termos de qualidade e as pessoas percebem isso.

Para si, qual o aspecto mais significativo?

São vários, desde a iluminação aos décors. Mas o mais importante é que temos a consciência de que estamos a trabalhar com pessoas. Para mim, essa é a grande diferença.

Como assim?

Os actores não são máquinas, os técnicos não são máquinas. É importante motivarmo-nos uns aos outros. E esse tem sido um cuidado da SP que, obviamente, se reflecte no trabalho final. Além disso, houve uma preparação prévia, com várias experiências e ensaios, que fez com que os actores tivessem uma aproximação francamente maior e que se criasse uma química especial.

De que forma?

Não são apenas as pessoas que cumprimentamos antes de um longo dia de trabalho. Todo o elenco se disponibilizou a sentir coisas, a viver emoções. A novela vive disso e se os actores não tiverem essa verdade dentro deles e não conseguirem passar as emoções no ecrã, a história não resulta.

Isso tem a ver com a influência da TV Globo?

Sem dúvida. Houve uma formação especial, que eu não tive, porque entrei mais tarde...

É semelhante ao que ensina na Confluência?

Aqui defendemos que as pessoas têm de trabalhar com a verdade delas. Não podemos dizer nada se não acreditarmos. Passam por aqui muitos miúdos que sentem a necessidade de descobrir o que é o teatro e acabam por partilhar experiências pessoais. Por isso costumo dizer que aqui é um mundo que é nosso, um ponto de partilha em que podemos confiar uns nos outros. Não é uma escola de vida, de todo, apenas um espaço de partilha. No fundo, conseguimos com que eles criem objectivos.

 


Aparecem muitas pessoas?

Sim. Pela curiosidade pelo teatro ou por necessidade, seja de partilhar experiências ou combater a solidão. Também tivemos um caso de toxicodependência... Através deste convívio eles acabam por se orientar. Estou ligado a este projecto há mais de uma década e, durante esse tempo todo, apenas três pessoas seguiram a representação. Todos os outros seguiram carreiras diferentes, da gestão ao direito. A verdade é que, graças o teatro, eles aprenderam a comunicar.

É quase uma terapia...

O teatro é muito terapêutico. Acredito plenamente nisso. Ensina-nos a compreender os outros e a aceitá-los, o que nos leva a encontrar a disponibilidade para nos aceitarmos a nós próprios. O que se faz aqui é muito mais do que teatro. É viver.

O que sente quando vê um jovem de talento ser ultrapassado por alguém que encontrou a fama num reality show, por exemplo?

Acho excessivamente gratuito. Curiosamente, há uma cena em ‘Dancin’ Days’ que o Artur diz: "Não devemos ser famosos a qualquer custo. Se queremos ser conhecidos que seja por coisas boas". E concordo perfeitamente. Se as pessoas querem ser famosas que seja por terem feito algo de útil pela sociedade. A popularidade fácil é demasiado efémera. Mas sinto que os miúdos hoje vão mais à luta do que nós. São mais determinados.

A Confluência e o teatro em geral têm sido muito afectados pela crise?

Temos aprendido a viver sem grandes apoios, à excepção da Câmara de Cascais. Por isso, optamos por arregaçar as mangas e fazermos as coisas nós próprios. Costumo dizer que trabalhamos com o alto patrocínio do "se me dão". Ainda assim, o trabalho é muito profissional e reconhecido pelo público. Mesmo em tempos de crise as coisas podem ser feitas, se houver força de vontade. O problema é se as pessoas ficarem sem dinheiro para comprar bilhetes...

Trabalha em regime voluntário. Se fosse remunerado deixava de vez a televisão?

Não sei. Se calhar limitava-me a cumprir horário...

A televisão tem ajudado a levar público ao teatro?

Ambos se complementam. As pessoas vêm ao teatro para ver os actores da televisão, assim como ouvem mais música portuguesa graças às bandas sonoras das novelas da TVI. É a prova de que as novelas são um meio de divulgação incrível.

Mas há ainda muitos actores com preconceitos relativamente às novelas…

Não tenho nada disso. Acima de tudo temos de dar as graças a Deus por nesta altura do campeonato estarmos todos com trabalho. Por isso, venham mais 20 ou 30 novelas! Além disso, todo o trabalho deve ser reconhecido como de qualidade. Quem me dera que, daqui a muitos anos, a SP Televisão e a Plural estejam a fazer muitas novelas, sejam elas remakes ou o que for. Só tenho pena que as novelas não promovam a nossa identidade cultural, como fazem as brasileiras. Raramente nas novelas portuguesas se ouve falar dos nossos autores, na nossa cultura ou tradição. Damos a conhecer as várias regiões do País, mas não se fomenta a sua cultura. Acho que as pessoas iam gostar disso.

PERFIL

Ricardo Jorge Carriço de Carvalho nasceu em Cascais a 20 de Agosto de 1964. Foi manequim e apresentador de televisão, até enveredar pela carreira de actor. Participou em séries como ‘Claxon’ e ‘Major Alvega’, e em novelas como ‘Cinzas’ (RTP), ‘Flor do Mar’ (TVI) e ‘Laços de Sangue’ (SIC). Há cerca de dez anos foi convidado por Maria Helena Torrado para integrar a associação cultural Confluência, onde exerce várias funções, entre elas a de formador e encenador, em regime de voluntariado.

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