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Correio da Manhã

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Eles são os mestres do humor

As Produções Fictícias são a força criativa que moldou o humor em Portugal ao longo da última década. Desde ‘Herman Enciclopédia’ até ‘Contra-Informação’, passando por ‘Manobras de Diversão’ e ‘Gato Fedorento’, raro é o humor de referência sem a chancela desta agência criativa...
7 de Janeiro de 2005 às 00:00
No início era o caos. Quem o garante é Nuno Artur Silva, director das Produções Fictícias, que deu arranque ao projecto no início dos anos 90, com o apoio de Miguel Viterbo, ex-colega de liceu, José de Pina, amigo de infância, e Rui Cardoso Martins, que conheceu na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova. “Na altura éramos apenas um grupo de amigos a trabalhar em casa uns dos outros. Por isso é que escolhemos o nome Produções Fictícias, era um grupo não existente. Éramos sobretudo o grupo de escrita do Herman, fazíamos textos para os momentos de ‘stand-up comedy’ do ‘Parabéns’ e para a ‘Herman Zap’. A maneira como trabalhávamos, a organização, era caótica”, afirma.
Em 1994, com o volume de trabalho em crescimento constante, Nuno Artur Silva decidiu contratar um quinto elemento, Nuno Markl. “Depois juntaram-se a nós a Maria João Cruz, o Miguel Vital e, mais tarde, o João Quadros. Já era muita gente, não dava para trabalharmos nas nossas casas. Em 1996 alugámos um escritório e profissionalizámo-nos”, acrescenta. A profissionalização não impediu que as Produções Fictícias permanecessem um projecto constituído por argumentistas criativos, com uma forma muito peculiar de trabalhar. “Chegámos a ter aqui uma mesa de bilhar e passávamos horas a jogar e a beber whisky, o que até ajudava a ter ideias, mas quando íamos trabalhar já estávamos de rastos”, recorda Rui Cardoso Martins, que assina os textos do ‘Contra-Informação’ (RTP1), a par de José de Pina e Filipe Homem Fonseca.
ESCRITA EM EQUIPA
O facto de os colaboradores Produções Fictícias trabalharem maioritariamente em equipa é um dos principais ingredientes para uma receita de sucesso. “O segredo das Produções Fictícias passa pela capacidade de resposta que temos em relação ao mercado e pelo facto das equipas serem escolhidas de acordo com o perfil dos projectos”, defende Nuno Artur Silva à Correio TV. Em cada equipa é normal encontrar autores mais virados para a política, outros inclinados para temas desportivos, outros ainda conhecedores do mundo das artes. Não obstante as diferentes especializações, programas como ‘Contra-Informação’ implicam a versatilidade dos autores. “Eu não percebo nada de futebol. Detesto. E foi doloroso, nos primeiros tempos do ‘Contra’, ter de perceber quem era quem. Estava completamente a leste”, lembra Filipe Homem Fonseca.
Os bons resultados do trabalho em equipa não impedem que alguns projectos sejam executados a solo. “Há projectos com um cunho mais pessoal, como escrever um livro, em que é preferível trabalhar sozinho. Mas para televisão é sempre melhor escrever a dois, a três, ou mesmo a quatro”, sublinha José de Pina, autor de textos para ‘Parabéns’ (RTP1), ‘Herman Enciclopédia’ (RTP1), ‘Major Alvega’ (RTP1) e do livro ‘Nascido Para Mandar – Guia Prático Para Chegar ao Poder em Portugal’.
HUMOR ALTERNATIVO
Num país onde a sátira política é pouco explorada, as Produções Fictícias vieram trazer algo de novo, com programas como ‘Contra-Informação’ e ‘O Eixo do Mal’ (SIC Notícias). “São exemplos muito diferentes de humor político, mas que têm a imagem de marca de desmontagem do real, da crítica, da sátira”, defende Nuno Artur Silva. No mesmo âmbito surgirá a versão televisiva de ‘O Inimigo Público’ – cujo original, o suplemento satírico do jornal Público, é também um projecto das Produções Fictícias, encabeçado por Luís Pedro Nunes –, um noticiário humorístico com algumas semelhanças com o ‘Daily Show’ (SIC Radical).
O humor alternativo que caracteriza a maioria dos produtos assinados pelas Produções Fictícias constitui uma imagem de marca da empresa. “Nunca fazemos nada de popularucho. A piada fácil, o trocadilho barato não fazem parte do nosso trabalho. Isso é ponto de honra”, defende Rui Cardoso Martins. “É a nossa forma de trabalhar e, ao longo dos anos, tem sido recompensada. O sucesso do ‘Contra-Informação’ é a prova de que não é preciso fazer humor de torta na cara para as audiências serem boas”, acrescenta Filipe Homem Fonseca.
“FANTÁSTICO MELGA!”
As Produções Fictícias obtiveram o reconhecimento público em 1997 com o lançamento de ‘Herman Enciclopédia’ e ‘Contra-Informação’, duas produções míticas, com textos assinados por colaboradores da agência. “Estamos a falar do ano em que as pessoas na rua diziam ‘este homem não é do Norte’, ‘não havia necessidade’, ‘fantástico Melga!’, ‘onde é que tu estavas no 25 de Abril?’ ou ‘penso eu de que’”, recorda Nuno Artur Silva.
Rui Cardoso Martins, um dos argumentistas de ‘Contra-Informação’, defende que o noticiário humorístico continua a ser “a grande referência das Produções Fictícias”. “Quando começou, vinha com muito má fama, depois de uma experiência que tinha havido na SIC. Depois nós pegámos nisto, mudámos os nomes dos bonecos e criámos este mundo paralelo. Mesmo assim, muitas pessoas acharam que o programa não ia ter graça e pensavam que ia haver pressões. A verdade é que o programa se tem mantido…”, acrescenta
o argumentista, que assinou textos para ‘Herman Zap’, ‘Herman Enciclopédia’, ‘Bar da Liga’, entre outros.
CRIATIVIDADE SEM BARREIRAS
Inicialmente constituída por um grupo de argumentistas especializados no humor, ao longo de doze anos de existência, as Produções Fictícias expandiram a sua actividade a outros campos, da imprensa à ficção televisiva, passando por traduções de obras humorísticas. “Somos uma agência criativa, o que significa que não fazemos só humor e temos parcerias para entrar em territórios que não a televisão”, explica Nuno Artur Silva.
Profissionais como Filipe Homem Fonseca, cujo percurso atravessa principalmente o território do humor – escreveu textos para ‘Herman Enciclopédia’, ‘Conversa da Treta’ (RTP1) e ‘Contra-Informação’ – têm, assim, oportunidade de experimentar outras temáticas. “Talvez por excesso, por estar há tantos anos a trabalhar em humor neste momento estou interessado em aprofundar a ficção”, diz. Entre os diversos produtos não televisivos que saíram das Produções Fictícias contam-se a versão teatral das ‘Manobras de Diversão’, a tradução de uma colecção de obras de humor, de autores como Woody Allen, Steve Martin, Jon Stewart e Eric Idle, e ainda o suplemento ‘O Inimigo Público’, que acompanha o jornal Público à sexta-feira.
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