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Correio da Manhã

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“Em Portugal matam muitos programas à nascença”

O humorista regressa aos ecrãs com ‘Lado B’, um talk show que estreia domingo na RTP1. “Por muito fracasso que seja será inteiramente da minha responsabilidade”, diz.
16 de Abril de 2010 às 00:00
Bruno Nogueira
Bruno Nogueira FOTO: Bruno Colaço

- Domingo estreia o ‘Lado B’. Em que consiste este programa?

É um ‘talk show’. O alinhamento, os convidados e o conteúdo vai variando consoante a semana. Não é estanque, sendo que a base é o ‘talk show’ já conhecido.

- Com essa base, qual a mais valia do ‘Lado B’?

É complicado responder. Não me lembro de nos útlimos anos ter aparecido um formato orginal, são sempre iguais. Os formatos de programas de sketches, de telejornais são sempre iguais, o que muda é o conteúdo e a pessoa que está a apresentar. É isso que dá identidade ao programa. No meu caso o que fiz foi socorrer-me das pessoas com quem me sinto confortável a trabalhar. Juntei-me com o João Quadros e o Frederico Pombares com quem me identifico muito a nível de escrita. Chamei o Nuno Rafael, que trabalha com o Sérgio Godinho e esteve envolvido no projecto dos Humanos, que criou uma banda residente. Rodiei-me das pessoas que me deixam mais confortável.

- E que tipo de humor será?

É aquilo que eu sei fazer. Jamais me iria meter a fazer coisas que achasse que não estava à vontade. O tipo de humor que faço já me está colado à pele.

- Porquê ‘Lado B’?

‘Lado B’ era um programa da MTV brasileira, é o lado b dos vinis...é uma expressão completamente corriqueira. Nasceu poque aproveitei o b de Bruno e porque o lado b é sempre um lado mais alternativo das coisas. E surgiu em esforço, com a pressa de criar um nome.

- Satisfeito com o dia e horário de emissão?

Muito. O domingo é sempre um dia muito concorrido por todas as estações, mas o facto de ser às 23h deixa-me muito confortável, desde já em termos de conteúdos, porque dá mais liberdade do que um programa às 21h00. E também porque é um horário de fim de dia, com as pessoas mais relaxadas a assistir a conversas supostamente interessantes...

- Está pronto para concorrer com as telenovelas?

À partida é complicado cruzar esses públicos. Quem tiver a ver uma telenovela estará sempre a ver uma telenovela e é sempre dificil concorrer com programas, como as telenovelas e o futebol, que têm um público fixo. O ‘Lado B’ não é concorrência, é uma alternativa, como tudo que a RTP pretende apresentar.

- Quais as expectativas?

Não tenho a menor expectativa de audiência, sendo que pretendo que seja visto pelo maior número de pessoas possível. Mas não consigo pensar nas coisas por esse prisma. Sei que hoje em dia, infelizmente, se tem de dar primazia às audiências, mas queremos fazer aquilo em que acreditamos e que achamos que é um bom produto. O público dirá.

- Mas a RTP não traçou nenhuma meta para o programa?

Não. O José Fragoso [director de programas da RTP] tem uma qualidade extraordinária, que já teve com os ‘Contemporâneos’. A primeira série não teve o impacto que se estava à espera, foi mais um período de rodagem que se consolidou na segunda série. E o Fragoso teve a inteligência de perceber que o formato precisava de se instalar para as pessoas aderirem àquele conceito. Muito provavelmente, noutro canal qualquer, também por força de serem canais comerciais, teria mudado de horário ou teria acabado ao terceiro episódio...e mataria o projecto. Todos os projectos precisam de tempo para se desenvolverem e não serem mortos à nascença. As pessoas têm de perceber o que é, porque é óbvio que o programa não está afinado nem perfeito no primeiro programa, o público também tem de se ir adaptando e perceber se gosta ou não e isso demora algum tempo.

- Como será a concorrência e convivência com o talk show de Herman José?

Concorrência não faz o menor sentido. Ainda que a fazer o mesmo tipo de programa temos linhas completamente diferentes. O Herman já faz talk shows há imenso tempo, tem uma enorme experiência. É desapropriado pôr a ideia de uma corrida...

- Mas como vão fazer para não repetir convidados?

Essa coordenação é feita pela RTP, que sabe as intenções dos convidados dos dois programas e encarrega-se de fazer essa gestão. Se bem que não há problema de eu levar um convidado no terceiro programa e de o Herman o levar no décimo. São abordagens certamente diferentes.

- Quem vai ser o primeiro convidado?

Já está definido, mas só se vai saber no domingo...

- É convidado surpresa?

Para quem vai ver sim, para mim não (risos).

- Já alguém rejeitou o convite?

Tem corrido muito bem, ainda que estejamos a fazer as coisas lentamente porque estamos a convidar as pessoas para uma coisa que ainda não existe e é muito complicado convidar para um programa que não conhecem, não sabem o que se vai passar, eu próprio não sei se arriscava aceitar. É complicado estar a decidir no vazio.

- Mas ninguém disse que não?

Ainda estamos na fase em que somos nós que nos retraímos antes que isso aconteça.

- Como surgiu a colaboração com o prof. Marcelo para a promoção do programa?

Lembrei-me que o programa ia para o ar no domingo, dia em que o prof. Marcelo tinha saído do ar e achei que se podia fazer qualquer coisa, como se fosse uma passagem de testemunho que nunca na vida pode ser feita porque são dois conceitos completamente diferentes.

- Quantos programas estão previstos?

Treze.

- E no final de ‘Lado B’ pode voltar com os ‘Contemporâneos’?

Os ‘Contemporâneos’ é um projecto que faz sentido enquanto grupo, enquanto um todo. E esse todo, tenho a perfeita noção, é muito complicado de assegurar o compromisso de estarem todos juntos, porque todos têm variadissimos projectos. Quando, e se se justificar... mas agora é estranho estar a falar disso no arranque de outro projecto.

- É um talk show à medida do Bruno Nogueira?

Sim. Por muito fracasso que seja será inteiramente da minha responsabilidade. Para não me queixar depois faço questão de estar presente em todas as etapas, desde cenário, argumento, convidados... a certa altura é quase alucinante querer participar em tudo, mas é a única maneira de, no fim, aquilo que vai para o ar ser o que quero.

- Estar sozinho no ecrã, em directo, é um desafio?

É sempre. Optei pelo directo, porque surgem coisas que não são controladas. O directo mantém a perspicácia muito mais alerta, porque não há maneira de voltar atrás... Ou corre muito bem ou pode ser uma catástrofe. Mas tenho um certo fascínio por esse abismo e acho que provoca reacções mais espontanêas.

- É um projecto em que vai estar sozinho no ecrã. Vai sentir falta da companhia de Nuno Lopes, Maria Rueff e Eduardo Madeira?

Sim. Felizmente tenho estado com eles, mas o bom dos ‘Contemporâneos’ é ser  um projecto de um grupo em que dois podem estar mais em baixo mas os outros quatro estão no nível máximo de adrenalina e acabam por contagiar. Aqui é uma caminhada mais solitária, que tem o seu fascínio, mas são coisas que não dão para comparar. O ‘talk show’ será sempre um espectáculo a solo...

- Qual a sua opinião sobre o humor que se faz na televisão portuguesa?

Temos e vamos continuar a ter sempre alguma escolha. O problema é que nunca se deixa respirar os formatos até chegarem a transformar-se em alguma coisa. Matam muitos formatos à nascença com mudança de horários, de dias, de tudo e, às tantas, o público perde a paciência para seguir uma coisa quando o estão sempre a baralhar. Se se apostar num projecto e se acreditar nele enquanto director de um canal pelo menos um bom tempo, pelo menos, vai perceber-se ao certo se é um projecto vencedor ou não. Agora estar sempre a mudá-lo para a frente a para trás como fazem com a maior parte dos projectos é muito complicado perceber se a culpa é do projecto, se é das audiências. Mas, para mim, o melhor programa de todos é um programa de humor involuntário mas que é extraordinário. É o ‘Clube dos Cozinheiros’, que dá no Porto Canal todos os dias às 03h00, e que é uma coisa...tem um cozinheiro que...nem consigo explicar, nem verbalizar, é algo como nunca vi...

- É um momento de inspiração...

É um momento de inspiração maravilhoso...

- Com essa perspectiva de falta de aposta nos programas, a RTP é a melhor casa para se fazer humor em televisão?

Todos os canais apostam...

- Mas a manutenção?

Tão importante como ter a ideia de ter um programa em antena é conservá-lo e tratar dele como se trata de uma horta. Tem de se cuidar, não é só ter o programa e acreditar que ele sobreviverá em qualquer circunstância, porque isso é mentira. É preciso cuidar dele até ao fim. Na RTP, pela minha experiência, o José Fragoso sempre teve esse cuidado. E isso dá para perceber a reacção do público. Claro que se for uma coisa que nunca funciona aí faz sentido mudar, mas não logo nos primeiros episódios...

- Acaba por ser mais seguro fazer um programa destes na RTP?

Para mim fazia todo o sentido fazer este programa na RTP e com o José Fragoso que é onde me sinto mais confortável para fazer isto. Foram-me dadas condições criativas, que é muito raro encontrar. A liberdade e a segurança de saber que se está a olhar por este projecto.

- Era capaz de fazer estes projectos na SIC ou na TVI?

Neste momento, a arrancar um projecto na RTP, é muito complicado falar nisso. Mas os canais são feitos pelas pessoas que estão à frente deles, é como nos partidos. Portanto, acho que qualquer director de um canal que esteja disposto a apostar num conceito e a tratar dele para mim é ponto de honra.

- Viu o Notícias em 2ª Mão? Que avaliação faz?

Gosto imenso do Horácio e do Eduardo Madeira. Conseguem fazer personagens muito boas, mas, mais uma vez, é difícil seguir, porque de repente está noutro horário.. no princípio ainda consegui ver alguns, mas é complicado de seguir.

- Mas gosta do formato?

É um formato de ‘sketches’ de actualidade, que faz falta. É o tipo de programa
que vale sempre a pena experimentar porque não há muitos...

- E vai continuar com o programa na TSF?

Sim. Vou continuar o ‘Tubo de Ensaio’. Continua a ser o sítio onde eu o João Quadros às vezes pagamos a factura, não temos filtro absolutamente nenhum. Mas a premissa também é essa. Fazer tal e qual imaginamos. Tem o lado bom de não haver filtro e, às vezes, o lado mais desconfortável, porque nem toda gente se sente à vontade com determinado tipo de humor. Mas há tipos de humor para todos e ninguém é obrigado a ficar a sofrer a ouvir o que não quer. Eu não fico, certamente, por isso também não peço isso.

- É frequente receberem queixas?

No princípio, quando estreou, cada vez que passava pela telefonista ela estava nervosa porque sabia que a crónica ia dar e que recebia dezenas de chamadas mal a crónica acabava, de pessoas indignadas e a insultar a pobre da senhora que não tinha nada a ver com o programa. Depois as pessoas perceberam que ou sofriam em silêncio, ou passaram a gostar, ou deixaram de ouvir. Mas o ‘Tubo de Ensaio’ revelou-se um sucesso de que não estavámos à espera. Não fazemos nada propositadamente para chocar ou para ser diferente. Até porque o humor, quanto mais forte é mais inteligente tem de ser a maneira de o fazer. Não é nada fácil conseguir equilibrar. Nós fazemos porque é o tipo de humor que gostamos. Seria incapaz de fazer um tipo de humor mais corriqueiro, ou mais ligeiro porque as pessoas iam aperceber-se que não é o tipo de humor que gosto de fazer.

- Mas há sempre pessoas que reagem mal...como lidam com essas críticas?

É normal. Quem faz humor tem que saber que deixou uma porta aberta para uma fila de público a reclamar. As pessoas que gostam, apoiam e admiram nunca ligam para o dizer. Quem se manifesta é sempre quem não gosta, porque normalmente tem mais tempo e porque estão a ouvir de propósito para não gostar e para poder dizer que não gostam. Mas é normal e não me incomoda minimamente. Incomoda-me quando sei que passei os limites e que não devia ter passado, mas é porque eu ou alguém próximo de mim me faz ver isso. Aí fico desapontado ou triste. É muito complicado fazer humor baseado nos gostos de toda a gente, não há nenhum barómetro para saber o que faz rir toda a gente. Resta fazer aquilo que nos faz rir a nós e acreditar que isso vai fazer rir outras pessoas, claro que nunca será universal. É como a religião, não são todos católicos. Os gostos são diferentes. Faz parte, seria estranho se de repente ninguém dissesse nada e achasse que estava tudo bem. Até porque o humor é visto como uma coisa menor, que toda a gente faz em bares e com os amigos. De facto toda a gente pode ter sentido de humor, mas transformar isso num mecanismo mais elaborado é que é complicado.

- Como está a carreira de ‘stand up’?

O ‘Clube de Comédia’ tem sido uma experiência que superou todas as nossas expectativas. Tivemos alguns meses no Maxime, em Lisboa, que esgotou sempre. Depois começamos uma mini tournée que esgotou sempre, também. Agora fomos 15 dias para o Casino de Lisboa e estava com algum receio. Mas esgotou. Depois tínhamos duas datas no Coliseu do Porto. Achei um bocadinho megalómano, mas esteve completamente cheio com três mil pessoas. Foi uma experiência extraordinária. Começou como uma coisa caseira, para testarmos material e nos divertirmos, e de repente está a transformar-se numa coisa com outra dimensão.

- E agora?

Temos uma tournée de Verão até Agosto/Setembro e temos datas em todos os fins-de-semana. Portanto, não podia estar a correr melhor.

- Também está na publicidade. Já fez anúncios para marcas como a Super Bock e, agora, a Delta. Faz publicidade porque gosta ou é uma questão de dinheiro?

É um alegre casamento entre os dois. A publicidade tem um lado muito engraçado de se concentrar tudo em apenas 30 segundos. Obviamente há um lado financeiro que compensa, mas compensa o que é justo. Os valores de publicidade são muito complicados de quantificar. Porque para fazer uma publicidade à partida outras marcas não nos vão chamar, pelo menos tão cedo. No fundo estamos a assinar uma espécie de exclusividade, exclusividade pscicológica porque nada nos impede...

- Quanto ganhou com o anúncio da Delta?

Não vou dizer...

- Mas vale mais que fazer televisão?

São coisas que não se podem comparar, uma publicidade não se pode comparar com televisão.

- Já rejeitou convites para anúncios?

Claro. Há produtos que acho que não fui talhado e há pessoas que os podem promover muito melhor que eu.

- A que produtos?

Não posso dizer... Não consigo estar a aceitar uma coisa, por muito dinheiro que dê, e publicidade implica algum dinheiro. Podemos ganhar esse dinheiro mas em compensação perde-se muitas coisas e é esse equilibrio que se tem que tentar fazer.

PERFIL

Natural de Lisboa, aos 28 anos tem uma carreira multifacetada, na TV, rádio, teatro e cinema. Vive com Maria Rueff.

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