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Correio da Manhã

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“Enquanto tiver oportunidades cá, não me vou embora”

Dívidida entre vários projetos: 'Agora' (RTP2) e 'Cá Estamos' (Globo) são os mais recentes. Critica a política cultural adotada em Portugal mas garante que não desiste.

20 de Julho de 2013 às 15:06
Filomena Cautela, Agora, Cá Estamos
Filomena Cautela, Agora, Cá Estamos

- Conduz o magazine cultural ‘Agora' (RTP 2) desde maio. Como têm sido estes primeiros meses?

- Estamos muito contentes com o resultado. A grande mais-valia do programa é ter grande respeito pela arte e homenagear a produção cultural portuguesa. Tudo é muito bem filmado e os textos são escritos com uma poesia muito bonita. Estou viciada no programa.

- Era ambição sua apresentar um formato destes?

- Sim. Nunca expressei essa vontade mas, como atriz, é juntar o útil ao agradável: poder apresentar um programa em que falo daquilo que mais gosto e mais me interessa. Foi uma junção de interesses que me agradou. É perfeito...

- O facto de estar na RTP 2 é benéfico ou prejudica?

- Numa realidade ideal, a RTP 1 faria divulgação cultural e a RTP 2 reflexão. Mas estamos numa altura muito complicada do País e é muito difícil fazer-se o que quer que seja na TV pública. No ‘Agora' queremos mostrar que não há só três ou quatro agentes culturais. Há gente de muita qualidade em todo o País.

- Além da apresentação tem alguma outra função?

- Gosto de estar envolvida nos conteúdos...

- Faz isso em todos os programas em que participa?

- Faço nos que posso. Mas naqueles em que não devo, faço-o também. Neste existe uma abertura para que possa dar algumas sugestões. É bom saber que tenho uma palavra a dizer.

- Porque é que os programas culturais têm uma audiência tão reduzida?

- Porque as pessoas fartam-se de dizer isso e, quanto mais o dizem, mais acontece. Há demasiadas pessoas a acreditar nisso. Quando houver pessoas que mandem nos meios de comunicação a perceber que falar de cultura não é para uma audiência reduzida nem para uma elite, talvez as coisas mudem.

- Mas as audiências mostram que os programas culturais não vingam.

- Isso não me entristece. É um desafio. O importante é falar de cultura para todos. As audiências são muito polémicas e discutíveis. O facto de um programa ter menos audiência faz dele menor? Não. Faz com que seja ainda mais necessário para que mais pessoas o vejam.

- Atualmente, as artes são um exclusivo da RTP 2...

- Não, os outros canais também apoiam projetos culturais e divulgam...

- O suficiente?

- Não sei, não me cabe a mim dizer. Acho que se devia dar mais tempo de antena a tudo o que se faz culturalmente. Mas não são só os meios de comunicação, também o Governo... há uma ideia preconcebida de que a cultura é só para alguns. Não me parece bem. As pessoas deviam olhar para a cultura como algo que nos pode tirar da crise, como um investimento, como uma solução e não como algo chato ou elitista. No Brasil, por exemplo, veem a cultura não só como um passaporte mas também como um investimento que gera riqueza e mudanças de mentalidade.

- Porque é que em Portugal temos essa mentalidade?

- É uma questão de educação. As pessoas não são educadas a ir ao teatro, a ler livros... pelo contrário, o sistema educativo que temos é focado em haver um grande afastamento das crianças em relação à cultura. Não existe formação em condições para fazer com que as crianças se sintam estimuladas para conhecer aquilo que os artistas do País fazem.

- Que interpretação faz da realidade cultural do País?

- A cultura sempre foi um meio subestimado. É o primeiro setor a ser sacrificado sempre que há algum corte a fazer. Estamos habituados, mas não conformados. Enquanto, a classe dirigente não perceber que a cultura pode ser uma solução para uma data de problemas...

- Olha à sua volta e vê muitos colegas com dificuldades?

- Sim. É muito triste. Vejo demasiados até. Mas não é só nesta área, é em todo o lado. Sempre cresci com isso, a conhecer amigos meus que tinham investido o dinheiro todo a estudar e a desenvolver o seu trabalho e depois tiveram de desistir. O problema agora é que já não são só atores mas companhias inteiras, com um projeto sólido, que não têm forma de continuar.

- É possível fazer mais sem o apoio do Estado?

- É. As pessoas que têm a mania de dizer que a cultura é subsídio dependente deviam informar-se melhor para quem são os subsídios, para que servem realmente e... calar a boca. É desesperante ver pessoas que lutaram uma vida inteira para construir uma companhia, sacrificaram tudo, e de repente olham à sua volta e está tudo a cair. Mas em Portugal temos uma produção cultural muito mais forte do que aquilo que achamos e temos agentes culturais muito destemidos... e não se vai parar, vai-se é por outro caminho.

- Continua a apresentar o ‘Cá Estamos' (TV Globo Portugal). Tem sido uma parceria proveitosa?

- É muito boa. Gosto muito de fazer parte da Globo. Sinto-me muito lisonjeada e privilegiada. A TV Globo é uma referência mundial e, portanto, aprender a fazer coisas com eles é muito gratificante.

- A ligação à Globo poderá trazer novos projetos, nomeadamente no Brasil?

- A Globo está a crescer cada vez mais em Portugal. Temos muito a aprender com o Brasil e eles têm muito a descobrir do nosso país. É um intercâmbio que ainda tem muitos frutos para dar. Quanto a projetos no Brasil, não penso muito nisso. Mas sou uma grande admiradora do que eles fazem lá, são os maiores produtores de ficção do Mundo. Para qualquer ator seria uma experiência gratificante trabalhar com eles.

- Tem como objetivo fazer projetos fora do País?

- Enquanto tiver oportunidades aqui, não me vou embora. Não tenho medo de sair de Portugal nem acho que enfraqueça ou faça mal a ninguém. Mas enquanto não esgotar todas as possibilidades não penso em sair.

- O objetivo é continuar a conjugar apresentação e representação?

- Neste momento, fazer TV como apresentadora é um trabalho que gosto, que me faz muito feliz, e me dá liberdade para escolher os projetos que faço como atriz. Não são duas coisas que sejam conflituosas, pelo contrário. Dá-me muita tranquilidade poder trabalhar como atriz, com descanso e com uma liberdade financeira que muitos atores não têm.

- Gosta das duas coisas de forma igual?

- Não consigo colocar as coisas dessa forma. Na situação em que estou os dois trabalhos não entram em conflito e é muito bom fazê-los aos dois.

- Teve muitas desilusões ao longo destes anos?

- Algumas. Mas fizeram-me crescer como profissional, ver o que quero e o que não quero.

- Há algum projeto que queira muito fazer?

- Parei uma data de projetos porque quero estar muito concentrada no ‘Agora'. É importante que o programa cresça e conquiste novos públicos. É isso que me move. Espero que nos deem tempo para crescer.  

PERFIL

Atriz e apresentadora Nasceu a 16 de dezembro de 1984 (28 anos). Começou a carreira no teatro, em 2000. Estreou-se em TV na série ‘Ana e os Sete' (2003). No ano seguinte integrou a primeira temporada de ‘Morangos com Açúcar' e, desde então, participou em várias séries e novelas. Apresenta os magazines ‘Agora' (RTP 2) e ‘Cá Estamos' (TV Globo). É também presença regular no cinema.

Filomena Cautela Agora Cá Estamos
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