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Correio da Manhã

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ERC arrasa TVI por notícias sobre o Banif

Regulador aponta "displicência" e "falta de responsabilidade".
J.C.M. e Diana Ramos 20 de Maio de 2016 às 18:02
Sérgio Figueiredo, Diretor de Informação da TVI, é criticado por noticiar "uma coisa e o seu contrário"
Sérgio Figueiredo, Diretor de Informação da TVI, é criticado por noticiar 'uma coisa e o seu contrário' FOTO: Mário Cruz / Lusa

"O tratamento noticioso de certas matérias não pode ser abordado com a displicência e falta de sentido de responsabilidade patenteados pela TVI, especialmente ao longo da emissão do programa 'Campeonato Nacional', emitida na noite de 13 de Dezembro de 2015 (domingo), sobretudo quando as respetivas decisões editoriais assentam no trabalho de jornalistas responsáveis e experimentados". A frase lê-se na deliberação, a que o CM teve acesso, que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) em relação às participações que recebeu sobre o tratamento noticioso que o canal deu ao fecho do Banif.

 

O caso diz respeito ao que a TVI 24 divulgou na noite de 13 de dezembro. Num rodapé que acompanhava o programa de debate desportivo "Campeonato Nacional", a estação foi divulgando sucessivos alertas, contraditórios entre si. A ERC descreve pormenorizadamente as frases que apareceram no fundo do ecrã ( e também nas contas de Twitter e Facebook e no site da TVI24:

 

22h18: "Banif: A TVI apurou que está tudo preparado para o fecho do banco" 
"- A parte boa vai para a Caixa Geral de Depósitos" 
"- Vai haver perdas para os acionistas e depositantes acima dos cem mil euros e muitos despedimentos"

 

Depois, as notícias de rodapé forma sendo suavizadas ao longo da emissão:

 

22h35: "Vai haver perdas para os acionistas"

 

22h36: "Depositantes salvaguardados mesmo acima dos 100 mil euros"

 

22h48: "Banif: A TVI apurou que está tudo preparado para a resolução do banco

 

23h07: "Está em estudo recorrer à Caixa Geral de Depósitos"

 

23h34: "Poderá haver perdas para os acionistas"

 

No noticiário da meia-noite, o Banif foi a peça de abertura, já num tom bastante mais moderado em relação aos alertas iniciais. Diz-se que o Governo vai intervir no banco "caso não seja encontrado um novo acionista". Acrescenta-se que os depósitos estão garantidos "incluindo os de montante superior a 100 mil euros". O canal adianta que "a TVI sabe que neste momento ainda decorrem negociações para a venda da participação de 60% que o Estado português detém no banco". No rodapé que acompanhava o noticiário podia ler-se "Caso Banif: Depósitos todos garantidos" ou "Acionistas do Banif perdem todo o dinheiro investido"

 

A ERC diz ter recebido participações do Banif e de seis particulares - que chegam a acusar a TVI de ter divulgado estas notícias para favorecer o banco Santander (acionista de referência do Grupo Prisa, que é dono da TVI) na compra do banco português. O que veio a acontecer após a resolução. Acusam a estação de Queluz de ter lançado o pânico, que resultou numa corrida aos depósitos, na queda abrupta do valor das ações e, consequentemente, na perda do rácio de sustentabilidade do banco.

 

Na sustentação da decisão,  a ERC considera inaceitável a forma como a TVI tratou o caso. "As sucessivas variações imprimidas à suposta assertividade das afirmações veiculadas sobre o Banif (...) permitem concluir que o responsável pelo serviço de programas TVI24 não estava inteiramente seguro da fiabilidade dos elementos que tinha na sua posse, os quais, não obstante, entendeu ainda assim divulgar, assumindo desta forma uma decisão editorial criticável à luz das mais elementares boas práticas jornalísticas (...)"

 

Diretor de Informação na mira da ERC

A ERC critica especialmente Sérgio Figueiredo, Diretor de Informação do canal, que esteve esta semana no Parlamento a prestar declarações sobre o caso na Comissão que investiga o colapso do Banif. A ERC refere o comunicado em que a TVI defende a sua prática jornalística, embora lamentando as "imprecisões iniciais" que levaram a estação a pedir desculpa "aos espectadores, mas também aos acionistas, trabalhadores e clientes do Banif, pela difusão de um conjunto de informações que, embora cabalmente esclarecidas no jornal ‘25ª Hora’, emitido à meia-noite, poderão ter induzido conclusões errada e precipitadas sobre os destinos daquela instituição financeira".

 

Argumentação que a ERC não aceita: "Contrariamente ao alegado pelo operador TVI, as "imprecisões iniciais" por este veiculadas na emissão do programa 'Campeonato Nacional' não foram, pois "ultrapassadas" por "desenvolvimentos" em "peça autónoma; na verdade, essas imprecisões foram, consoante os casos, sucessivamente modificadas, desmentidas e retificadas, desde logo ao longo da emissão do programa 'Campeonato Nacional'(…)", lê-se na deliberação.

 

"O Diretor de Informação da TVI sustenta, pois - como se viu sem qualquer razão -, a legitimidade de noticiar uma coisa e o seu contrário, a respeito de uma série de tópicos relevantes abordados numa mesma peça jornalística, e mais tarde prevalecer-se apenas daqueles aspetos que vieram a mostrar-se rigorosos e verdadeiros".

 

TVI condenada a mostrar texto muito crítico

A ERC decidiu condenar a TVI a multa (no valor de 459 euros, equivalente a 4,5 unidades de conta, relativas a custos processuais) e ordenou ao canal que lesse um texto em que a estação é criticada por não ter ouvido o Banif, por ter sustentado a notícia em fontes que foram sempre omitidas e por, entre outras faltas, ter "assumido uma decisão editorial criticável à luz das mais elementares boas práticas jornalísticas, dado ser manifesto não existir inteira segurança quanto à fiabilidade dos elementos então sucessivamente divulgados e retificados".

 

 

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