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“Este concurso acordou Portugal para a dança de qualidade”

A dois dias do fim de 'Achas que Sabes Dançar?', SIC, o presidente do júri elogia a qualidade dos concorrentes. E diz que uma segunda edição seria "mais intensa" porque "não faltam talentos"
23 de Julho de 2010 às 00:00
César Moniz
César Moniz FOTO: Natália Ferraz

- Que balanço faz do ‘Achas que Sabes Dançar?’, que termina este domingo?

Muito positivo. O produtor americano do formato veio a Portugal e ficou muito surpreendido com o nível dos concorrentes. Ou seja, nós em Portugal temos talentos.

- O formato tem sido um estímulo para a dança?

O programa acordou Portugal para a dança – de diferentes estilos – de qualidade. É isso que buscamos no formato e daí escolhermos os bailarinos mais completos.

- A dança de qualidade não deve ser elitista?

O programa esbate a ideia de que a dança é elitista. De uma minoria. É preciso abrir mais academias de dança, estimular culturalmente a dança de qualidade e a boa formação.

- Que corrigiria no formato?

O formato está bem concebido, daí o sucesso no Mundo inteiro. Claro que, enquanto bailarino, coreógrafo, director artístico e presidente do júri, dar-me-ia mais poder a mim próprio para evitar, às vezes, alguma tensão sobre os concorrentes que devem ou não sair.

- Os jurados nem sempre estão de acordo?

Isso é normal, mas damo-nos todos muito bem.

- O Marco é o mais sério candidato à vitória?

É o meu favorito. E a Mariana também. Quando o vi na primeira audição, pensei logo que se tivesse lugar na minha companhia o convidaria. Ele daria muita cor ao meu grupo de bailarinos.

- Qual será o futuro dos bailarinos deste programa?

Muitos fazem pequenos trabalhos e dão aulas em academias espalhadas pelo País. Estou a tentar com a Câmara Municipal de Odivelas angariar fundos para um projecto que dê oportunidade a bailarinos que não tiveram apoio na formação. O objectivo é criar uma escola, onde os bailarinos possam desenvolver plenamente o seu talento.

- Há talentos em Portugal que justifiquem outra edição?

Mais do que suficientes. E este programa mostra tudo o que eles ganham com a sua participação: o trabalho com coreógrafos estrangeiros e nacionais, a pressão que, semana a semana, os ajuda a fazer crescer o talento e a capacidade que têm. Penso até que uma segunda edição seria mais intensa.

- O programa é sucesso de audiências na SIC. Como interpreta este facto?

Prova que Portugal se interessa pela dança e por um programa de qualidade. A SIC e a Endemol fizeram um bom trabalho ao aproximar-se do formato original. A qualidade da produção, da realização e dos concorrentes é muito boa. Portugal está empenhado em conhecer a qualidade dos nossos bailarinos, que é extraordinária.

- Está a ser bem pago por este trabalho?

Não, mas tudo é relativo até porque eu tenho uma reforma acima da média por ter sido primeiro bailarino do Ballet Gulbenkian. Por isso aceitei este cachet, e porque tenho outros projectos. Mas está a valer a pena pela experiência e pelo que está a acontecer no mundo da dança. E o dinheiro não é tudo. É compensador a felicidade que me dá ver a dança a este nível.

- Tem algum projecto para televisão?

Tenho dois. Um para a RTP 2 e outro para um canal privado.

- O que está previsto para a RTP 2?

Ontem, no Teatro Camões, eu e minha companhia, a Kamu Suna Ballet, realizámos o espectáculo ‘Amar a Terra’, das Nações Unidas, com apoio da UNESCO, que foi o arranque de um programa que vai mostrar os bastidores das melhores companhias de dança em Portugal. Pela primeira vez no País será feito um registo histórico da dança no século XXI. Eu farei a sua condução, a ligação entre coreógrafos, directores de companhias, bailarinos e público.

- Pode falar-nos sobre o projecto para o canal privado?

É um projecto sobre as artes, que apresentei e cuja proposta está a ser desenhada. Vamos mostrar artistas portugueses, de forma mais urbana, menos institucional e mais dinâmica. Queremos promover a arte e revelar talentos nacionais.

- Sentiu o preconceito, quando, aos 17 anos, foi para a dança?

Apesar de ter uns pais extraordinários, eles tinham o estigma do bailarino, do rapaz que vai para a dança, isso era uma coisa afeminada, para homossexuais... Mas, com o apoio do Jorge Salavisa, lá acabei por entrar no Ballet Gulbenkian.

- Hoje ainda existe estigma?

Está mais esbatido, mas existe. O preconceito com base no sexo, dinheiro, cor da pele, religião... Tudo isto nos limita.

PERFIL: VIDA NA DANÇA

César Moniz, bailarino, coreógrafo e director artístico, tem 48 anos. Filho de uma analista química e de um técnico de electromedicina, trocou a engenharia pelo bailado. Foi primeiro bailarino do Ballet Gulbenkian. Dirige a companhia Kamu Suna, sediada no Mega Craque, em Telheiras. Tem um filho com sete anos.

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