Na pele do perturbador Luís, em ‘Vingança’, Nuno Melo desperta emoções no público.
Que balanço faz de ‘Vingança’, agora na recta final?
Estou a gravar algumas cenas dos últimos dez capítulos. E o balanço é positivo, porque o que apaixona um actor é um bom papel e esta personagem é uma base de trabalho óptima.
A forma de filmar a novela também faz a diferença?
Na ‘Vingança’ optou-se pela realidade, ou seja, muita câmara à mão, o que dá quase um sentido de reportagem e de realidade. A montagem é outra etapa importante.
Acompanha as audiências?
Diariamente! Temos um share óptimo para a novela que mais tarde começa na televisão portuguesa. Há 800 mil pessoas que acompanham a nossa história e que discutem a evolução das personagens. Eu sou do tempo em que fazia teatro para duas pessoas...
Que mais o aliciou nesta personagem?
Quando me convidaram para este papel disseram-me que era uma personagem aberta, que tinha espaço de criatividade, espaço para improviso.
E como nasce o Luís?
No original argentino, a violência da personagem não é visível. Mas eu entendia que quanto mais mostrássemos a violência da personagem, mais ela podia tornar-se animalesca. A violência choca. Mas essa não foi a intenção. Pretendemos apenas mostrar a realidade e levar as pessoas a questionarem-se.
Mas o Luís não é apenas um homem cruel...
Eu queria também que as pessoas se pudessem rir deste ser tão desprezível. E este era um desafio fantástico. Como seria possível fazer rir de um assassino, de um ser tão patético e execrável?
A ideia de tirar aliança e beijá-la antes de cometer um crime é sua. Como surgiu?
Esse gesto simboliza a ligação à família, porque o Luís é um conservador. E é em nome da família que mata. Mas não tem consciência do mal que faz. O único vilão é o Alberto que é frio, premeditado, um homem cheio de esquemas.
O Luís eliminou cinco personagens. Vai matar mais alguma?
Vai matar mais uma e falhar outra...
Por que grava de pijama?
O Luís vai sofrer um AVC...
É desgastante ser vilão durante nove meses?
O Luís é um homem muito racista como se vai ver, é politicamente incorrecto, só diz baboseiras... isto que poderia suscitar o riso e torná-lo mais patético aligeirou-me o desgaste que esta personagem me poderia causar. Convivo bem com esta personagem maquiavélica, mas ao fim de nove meses começo a ansiar chegar ao fim.
Fale-nos do Brasil e de ‘Senhora do Destino’?
A Globo proporcionou-me condições magníficas. Obviamente que me dão mais crédito em Portugal onde conhecem a minha forma de trabalhar e o meu percurso. Mas cá ou lá, o meu problema continua a ser o mesmo: o papel que me atribuem.
E o papel satisfê-lo?
Obviamente que gostava de ter tido um papel maior, mas isso todos queremos.
A Globo deu-lhe liberdade para compor o taxista Constantino?
Em quase tudo o que fiz sempre me deram possibilidades de criar, à excepção da Globo. Já na Manchete foi diferente.
Prós e contras da produção portuguesa e brasileira?
Não se pode comparar as abordagens. São formas diferentes de pensar e de estar perante as coisas e até as personagens. E se não houver uma história forte, um texto bem estruturado, é sempre difícil convencer as pessoas, seja no Brasil seja em Portugal, seja interpretando de forma mais contida e europeia, seja de forma mais expansiva.
Que mais o surpreendeu no Brasil?
Aquilo a que nunca me consegui habituar foi ao ‘mainstream’. Nunca fui uma pessoa de festas. Não sou pessoa de ir a eventos, de me andar a mostrar, a visibilidade não é para mim uma rampa de lançamento. Os brasileiros vivem muito disso e eu nunca me adaptei a essa forma de estar.
Mas cumpriu a agenda imposta pela Globo?
Cumpri aquilo que tinha de cumprir por contrato, e que tinha a ver com a promoção do produto, mas depois era muito difícil apanharem-me na vida social.
Para muitos de nós continua a ser o ‘Caniço’, de ‘Chuva na Areia’. Como reage a esta colagem?
É incrível, porque isso passou-se há quase 25 anos. Interrogo-me de como é que há pessoas que ainda se lembram. Este fim-de-semana encontrei um rapaz com 30 anos que me falou do Caniço. E eu achava que essa pessoa não tinha idade para me ter visto, muito menos lembrar-se de mim. Certo é que ele tinha visto uma reposição da novela e já o pai lhe falara do Caniço.
Mas houve outros trabalhos marcantes?
A TV é muito marcante, porque repete a exibição de produções e chega a mais público. Mas há gente que ainda me fala muito de uma personagem que fiz no Brasil, na TV Manchete, na série ‘Cupido Electrónico’, com a Tônia Carrero. E também recordam o ‘Camilo e Filho’, na RTP e a série ‘Os Campeões’, na SIC.
Integrou o elenco de ‘Vila Faia’?
Fiz apenas uma figuração especial.
Qual é o seu próximo filme?
Em Setembro vou fazer o filme ‘Requiem por um D. Quixote’ realizado pelo meu amigo Nicolau Breyner, por quem tenho grande admiração pessoal e profissional. É um projecto muito importante para o Nico.
Foi convidado para integrar o elenco do filme ‘Corrupção’?
Fui contactado, mas recusei o convite.
Entre marido e mulher não se mete a colher...
O 'PRÉMIO PRESTÍGIO'
Nuno Melo, de 47 anos, foi distinguido com o ‘Prémio Prestígio’ atribuído pela RTP no decorrer da última edição do Lisbon Village Festival, um certame de cinema digital. Apesar dos seus 26 anos de carreira, o galardão colheu o actor de surpresa: “Já fui alvo de uma ou outra homenagem, mas um Prémio Prestígio! Será que quer dizer que já estou velho? É que ainda tenho muitos projectos para fazer...” Nuno Melo, que fez ‘O Crime do Padre Amaro’ participou em mais três películas que ainda não estrearam.
O CANIÇO DE 'CHUVA NA AREIA'
“NEM PODIA SAIR DE CASA”
“Interpretar o ‘Caniço’ em 1984 foi um escândalo. Lembro-me de que nem podia sair de casa. Eu era um miúdo. Tinha apenas um ano de profissão e já achava que ia trabalhar para Hollywood. Enfim, foi uma pequena ilusão, porque rapidamente percebi que não ia ser assim. O Caniço foi uma personagem muito marcante.” É assim que o actor Nuno Melo recorda hoje o sucesso que foi a sua personagem em ‘Chuva na Areia’, novela adaptada do romance de Luís Sttau Monteiro ‘Agarra o Verão, Guida, Agarra o Verão’. Realizada por Nuno Teixeira e gravada em Tróia, a estória passava-se em Vila Nova da Galé, uma vila piscatória dos anos 60. Henrique Viana, Mariana Rey Monteiro, Armando Cortez, Rogério Paulo e Rui Mendes integravam o elenco.
'SENHORA DO DESTINO’
“O MEU PAPEL FOI CRESCENDO”
“No estrangeiro seria difícil ter um papel com mais protagonismo. Estamos a falar de uma novela de horário nobre da Globo. ‘Senhora do Destino’ era a novela que tinha mais vedetas por metro quadrado. E mesmo assim, o meu papel, que era muito pequenino, foi crescendo”, diz Nuno Melo que nesta novela contracenou com a actriz brasileira Adriana Lessa.
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