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Correio da Manhã

Tv Media
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"Fazer televisão é como respirar"

Em Brasília, onde se popularizou como conselheiro de Imprensa, o jornalista é um homem rendido à actividade diplomática e à envolvência das gentes e da História do Brasil
23 de Abril de 2010 às 15:01
Carlos Fino
Carlos Fino FOTO: Mariline Alves

Que importância tem para si ter feito o programa ‘Cá e Lá' na TV Cultura, televisão pública brasileira, e que a RTP 2 estreia no dia 25 de Abril?
‘Cá e Lá' é uma co-produção luso-brasileira, que vai abordar as relações do presente, passado e futuro entre Portugal e o Brasil. A série, de 13 episódios, é feita de conversas entre mim e Paulo Markun, director da brasileira TV Cultura. É a concretização do sonho de qualquer português que chega ao Brasil e vê o seu país projectado do outro lado do Atlântico. E nós conhecemos muito mal essa história desde que os degradados foram deixados nas praias com os índios. Há uma epopeia que está estudada, mas dispersa. Quando a Europa está em crise é hora de olhar para o Atlântico Sul.

Como foi enfrentar as câmaras após tão longa ausência?
Com muita naturalidade. Fazer televisão é como respirar.

Tinha saudades do jornalismo?
Vontade de fazer as mesmas coisas que fazia, talvez não. Mas saudades da comunicação, sim.

Voltar ao jornalismo puro e duro está fora de questão?
Há um tempo para tudo na vida. Se tiver que voltar, volto, sem problema. Mas esta experiência é muito importante também. Não vivo o dilema de ter deixado uma coisa que gostava muito e estar noutra que é chata.

E como está a ser a experiência diplomática?
Tem o fascínio de se poder ver as coisas do outro lado do espelho.

Esta opção abriu-lhe outras oportunidades?
A oportunidade de conhecer um continente, o Brasil e a projecção da História portuguesa naquele país, que eu desconhecia.

E quando esta experiência terminar?
Volto a Portugal, naturalmente. Dado que entregou a carteira profissional de jornalista, em que qualidade é autor deste novo programa ‘Cá e Lá?

Dado que entregou a carteira profissional de jornalista, em que qualidade é autor deste novo programa ‘Cá e Lá?
Não estou a fazer jornalismo. Fui convidado para ter uma participação especial no programa. Não foi mais do que isso. A minha carteira está entregue desde que entrei na diplomacia. E está bem entregue. Quero recuperá-la quando for a hora disso. Não a quero perder fazendo o que quer que seja contra o estipulado na lei. Fiz questão de pedir que colocassem no final de cada programa a informação de que participo na qualidade de convidado e conselheiro de Imprensa da Embaixada Portuguesa em Brasília.

Ao contrário do que tem escrito alguma imprensa, ainda é quadro da RTP?
Não cortei o vínculo com a RTP, graças a Deus! Estou apenas requisitado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros à RTP por um período de três anos que foi renovado por mais três. Ainda há pouco conversava com o presidente do canal sobre o que eventualmente poderei fazer quando voltar a Portugal.

E se a sua comissão de serviço for renovada por mais três anos?
Por razões profissionais e pessoais gostaria de estar um pouco mais de tempo no Brasil, porque acho que ainda posso dar mais alguma coisa nesta área da comunicação.

Que contributo pode dar?
Portugal não tem expressão mediática no Brasil. E o desafio é que ele venha a tê-la. Temos de encontrar maneira de nos projectarmos mais no Brasil.

Já fala português com sotaque brasileiro?
Tenho de ir ao encontro deles para ser entendido. Se falar à maneira portuguesa eles têm dificuldade em compreender--me e vão questionar-me com um ‘Oi?'.

Sente-se como muitos o consideram, um repórter de guerra?
Não me considero um repórter de guerra. Se alguma coisa eu fui na vida, foi repórter. Sou repórter, ponto final! Que também foi à guerra, porque quando caiu o muro de Berlim e o comunismo na União Soviética começaram a ‘pipocar' - como dizem os brasileiros - o conflito na periferia do ex-império. Eu não sou um ‘Indiana Jones', nem ando com casaco de couro, embora algumas vezes me tenha vestido de acordo com o cenário. Nunca mais me esquecerei de uma noite, na Roménia, tinha caído o governo do Ceausescu, e eu regressava ao hotel. Nevava, não se via ninguém na rua, até que oiço, vindo do escuro, o aperrar de uma metralhadora e uma voz a perguntar-me uma coisa qualquer que não entendi. Eu, que levava um caderninho debaixo do braço, pus as mãos ao alto e, virado para a escuridão, gritei: ‘Repórter, repórter'. Esse foi o meu autobaptismo.

Pensa editar mais algum livro?
Tenho um compromisso com a Editora Verbo de escrever um livro, mas está a ser difícil.

Que irá escrever?
A história de um percurso dado que atravessei várias épocas: O salazarismo, o comunismo puro e duro, o fim do comunismo e, agora, a minha missão nos trópicos.

'CÁ E LÁ': QUINZE DIAS DE GRAVAÇÕES

Após um afastamento de seis anos, Carlos Fino regressa à estação pública, desta vez à RTP 2, com o programa ‘Cá e Lá'. A série, de 13 episódios, é uma co-produção luso-brasileira e fruto da colaboração com o antigo pivô e director da estação brasileira TV Cultura, Paulo Markun. ‘Cá e Lá', que foi pensado há cinco anos, levou apenas 15 dias a ser gravado, uma semana no Brasil e outra em Portugal. As conversas cruzadas entre os dois jornalistas decorreram em Florianópolis, em casa de Markun, e em Fronteira (Alto Alentejo), em casa de Carlos Fino. ‘Cá e Lá' pretende ser um olhar dos dois jornalistas sobre a relação de Portugal e Brasil. Um olhar português 'mais inflamado' e um olhar brasileiro 'mais devagar', como diz Markun.

PERFIL

Carlos Fino (61 anos) foi correspondente na ex-União Soviética (1976-1982). Em 1985, com Gorbachev, voltou a Moscovo. Foi correspondente da RTP em Bruxelas e Washington. Foi subdirector de Informação. Destacou-se como repórter de guerra na Chechénia (1994), Kosovo, (1999), Afeganistão (2001) e Iraque (2003).

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