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Correio da Manhã

Tv Media
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‘Low cost’ chega à produção

MBTV termina contrato com a SIC. Teresa Guilherme Produções já não factura. Actores sem trabalho passam dificuldades e têm de procurar outra forma para pagar as suas contas
11 de Março de 2011 às 00:00
Foi a produção mais cara de sempre. Em 2008 custou cerca de 5,7 milhões de euros. Feita pela Plano 6 (TVI)
Foi a produção mais cara de sempre. Em 2008 custou cerca de 5,7 milhões de euros. Feita pela Plano 6 (TVI) FOTO: DR

Num mercado cada vez mais competitivo e a viver uma forte crise económica, é na criatividade que as pequenas e médias empresas de audiovisuais procuram investir para sobreviver às dificuldades e atrair clientes. Produzir bom e barato (conteúdos low cost) parece ser a regra de ouro para quem quer manter a actividade. Será, por isso, difícil voltar a ver produções como ‘Equador’, que custou 5,7 milhões de euros à TVI. Os canais generalistas também já não são a única fonte de rendimento. O cabo tem-se revelado um importante nicho e aposta, cada vez mais, na produção nacional. São os casos do SIC Mulher (‘Chakall & Pulga’ e ‘Boarding Pass’, da CBV), do SIC K (‘Pronto-a-Vestir’ e ‘Leite Night’, da Produções Fictícias) e até do Panda (‘Panda Família’, também da CBV). Para outros, a internet e a publicidade são mercados a explorar.

“O cabo já representa 20% do mercado televisivo, apesar do investimento publicitário ainda não ser proporcional a este crescimento. Contudo, creio que nos próximos anos tudo será acertado”, adianta à Correio TV Piet-Hein Bakker, fundador da CBV. Nuno Bernardo, director-geral da beActive, diz que os produtos ‘baratos’ são uma tendência global. “Os canais, devido à fragmentação das audiências provocada pela internet e cabo, têm sofrido com a redução do investimento publicitário (que é cada vez mais disperso) pelo que este corte nas receitas tem uma relação directa nos cortes à produção”, revela o responsável, que partiu à conquista do mercado estrangeiro. “Dois terços da facturação da beActive são obtidos fora de Portugal, por isso a empresa não está tão dependente do mercado nacional”. Outro dos problemas apontados por Nuno Bernardo é a aposta na produção própria.

“O mercado da produção independente em Portugal ainda não ganhou a dimensão e maturidade de outros países ou mercados. A produção própria ainda ocupa muito espaço da grelha dos canais generalistas e, salvo raras excepções, o cabo não compra produções independentes ou compra muito pouco”.

Para Mafalda Mendes de Almeida, directora-geral da Mandala, hoje em dia “é quase impossível uma produtora fazer dinheiro quando os orçamentos são discutidos ao milímetro”. A sua empresa, que sofreu recentemente um duro golpe financeiro com o cancelamento do ‘Contra-Informação’, tem como principal cliente a RTP, mas aposta cada vez mais em áreas como a publicidade. “Em chinês, crise quer dizer perigo e oportunidade. Nós, por aqui, vamos escolher a oportunidade”, adianta a produtora, que se mostra aberta a todo o tipo de alternativas.

“Com a evolução tecnológica que enfrentamos neste momento, qualquer área pode ser explorada em várias plataformas e ter uma utilização que pode ir muito para além da TV”. E numa altura em que o cabo pode ser uma boa aposta, Mafalda Mendes de Almeida alerta para a falta de legislação para estes canais: “Não há e era importante que houvesse porque abre um mundo de novas oportunidades para todos produtores de TV”.

RTP e SIC são os canais que mais procuram empresas independentes, já que a TVI tem a sua própria produtora, a Plural. Contudo, as recentes transferências de profissionais entre estações já fizeram a primeira baixa. O conhecido produtor Manolo Bello (MBTV) ficou sem a cliente SIC com a entrada de Júlia Pinheiro em Carnaxide. A apresentadora escolheu a Endemol para produzir o novo programa das manhãs, ‘Querida Júlia’, que estreia segunda-feira. A MBTV era a produtora responsável por ‘Companhia das Manhãs’. À Correio TV o produtor, actualmente responsável pelo fornecimento de meios técnicos à SIC, preferiu não comentar o impacto que esta mudança terá na equipa da MBTV, mas os despedimentos serão, provavelmente, inevitáveis.

Questionado sobre eventuais rescisões, Manolo Bello remeteu-se ao silêncio, pois a situação pode levá-lo a fechar portas, uma vez que só tinha a SIC como cliente. Também a produtora e apresentadora Teresa Guilherme está fora do mercado há alguns anos. “É uma opção. Neste momento estou a fazer teatro. Não penso reactivar a produtora, para já, apesar dela existir e de continuar a pagar os meus impostos”, explica à Correio TV. “As últimas produções que fiz foi uma minissérie de humor e uma novela para a SIC, mas nunca foram para o ar. Mas pagaram--me tudo”, conta.

Ainda assim, e apesar da crise, 2010 não foi um ano negativo para as cerca de 20 empresas presentes na Associação Portuguesa de Produtores Independentes de Televisão (APIT). Em 2009, estas tiveram um volume de negócios de 65 milhões de euros, sendo que ainda não são conhecidos os números de 2010. Contudo, Susana Gato, secretária-geral da APIT, calcula que deverão baixar ligeiramente.

“Todas as nossas associadas, melhor ou pior, estão a trabalhar. É claro que a crise obriga, sobretudo, à redução de preços, o que implica fazer o mesmo por menos dinheiro, mas esta tendência não é nova”, explica. E a boa notícia é que não houve empresas a fechar. Ainda assim, de 2000 a 2010, os produtores independentes registaram uma perda de 90 milhões de euros. “No ano 2000 a APIT representava 32 empresas com um volume de negócios na ordem dos 150 milhões de euros”, observa Susana Gato. “O que notamos, e que se tem acentuado ultimamente, é uma diminuição da procura de produção independente por parte das televisões, que aumentaram a sua produção interna”, sublinha.

Com  menos dinheiro, as produtoras dão menos trabalho aos actores. Em 2008, Licínio França, ex-marido da actriz Noémia Costa, foi notícia por causa da situação de pobreza em que vivia. Desempregado há dois anos, o actor, compositor e intérprete de 57 anos foi, na altura, socorrido por colegas que organizaram um jantar de solidariedade. A falta de convites de trabalho levou também Joana Anes, de 27 anos, protagonista de ‘Rebelde Way, série juvenil da SIC, a ir viver para o Alentejo e a arregaçar as mangas para criar o seu próprio projecto. “Em Reguengos de Monsaraz, onde costumava passar parte das férias, a sede da Sociedade Artística Reguenguense estava quase ao abandono. Com o apoio do presidente desta sociedade recuperámos dois espaços do edifício. Convertemos o bar num espaço moderno e recuperámos outra sala para workshops. Fundámos a Academia de Dança e Artes Performativas.

No bar, organizamos noites de jazz e festas temáticas”, conta a actriz e cantora à Correio TV. Manuel Lourenço, de 45 anos, outra cara conhecida, também se queixa da falta de trabalho. Há dois anos fez ‘Morangos com Açúcar’ e, depois disso, nunca mais apareceu trabalho na ficção nacional. “Tem-me valido alguma publicidade que tenho feito. As produções reduziram o número de actores nos elencos fixos e nos elencos adicionais. Por outro lado, as produtoras têm de alimentar os actores com quem têm contratos mais longos ou de exclusividade”, conta o actor, que se queixa dos dois últimos anos, período onde mais se tem sentido a “falta de trabalho”.

CANAL Q: CRIATIVIDADE A PREÇO DE SALDO

Uma das produtoras mais conhecidas em Portugal, graças a programas como ‘Gato Fedorento’ e ‘Herman 2010’, é a Produções Fictícias. Segundo Gonçalo Félix, director executivo, a empresa não tem sentido a crise. “O lançamento do Canal Q permitiu-nos ensaiar um conjunto de programas originais onde a nossa criatividade pode ser ensaiada, sem restrições. Produzir desta forma sempre foi um sonho para a PF”.

RTP DIVERSIFICADA: “MERCADO É RESTRITO”

Em Junho de 2010, dos três canais em sinal aberto a RTP era o que tinha maior diversidade e que apostava mais em produção independente, segundo a APIT. Na altura, José Fragoso, director de Programas, disse à Correio TV que o canal “entende as preocupações da APIT porque o mercado é restrito e o perfil da programação generalista tende para o foco da produção em linha. Na TVI são as novelas, por exemplo”.

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