Em quatro meses e meio, o caso Maddie tornou-se num dos maiores fenómenos de sempre da televisão portuguesa e, no mínimo, um assunto com uma longevidade espantosa nas TV europeias, nomeadamente as britânicas.
Na semana que se seguiu ao regresso da família McCann a casa, equipas de reportagem de todo o Mundo deslocaram-se à outrora pacata vila de Rothley, para que os públicos internacionais não perdessem pitada dos últimos desenvolvimentos do folhetim no qual se tornou esta história verídica. E se nas televisões nacionais a semana que passou foi marcada por uma acalmia relativa, as britânicas Skynews e BBC continuam a acompanhar o caso com uma regularidade excepcional, mesmo para um país onde casos semelhantes já mereceram no passado destaques comparáveis.
“O que é invulgar”, explica o repórter da BBC Ben Ando, “é o tempo que esta história tem durado”, uma duração que o jornalista, especialista na área do crime, atribui ao grau de incerteza que caracteriza o caso. O jornalista realça ainda o papel que a internet veio a desempenhar no alastramento das imagens do caso à escala planetária, com o pai de Madeleine a manter um blog que recebe diariamente milhões de visitas em todo o Mundo. Ben Ando não nega, porém, que a beleza física da família McCann tem o seu peso, qualificando mesmo a pequenina Maddie como “tragicamente bonita”.
A BOA IMAGEM DA FAMÍLIA MCCANN
Na opinião de diversos investigadores e especialistas no campo dos ‘media’, estão reunidos os ingredientes para que o interesse do público se mantenha elevado durante um tempo indeterminado. Um caso que, apesar de à partida se tratar do desaparecimento de uma criança entre tantas outras, “acaba por ser único no cruzamento de dados”, opina o publicitário Edson Athayde. “Uma menina inglesa, bonita, de olhos azuis, que desaparece num aldeamento turístico inglês, no Algarve, destino de férias tido por seguro pelos seus conterrâneos, é uma janela de oportunidade mediática”.
Para o especialista, o facto de a família McCann se distinguir pela sua boa imagem na televisão tem, obviamente, o seu papel na dimensão que tem sido dada ao caso no seu tratamento pelas televisões. “É claro que se fosse uma família pobre, feia e de cor, num país do terceiro mundo, já teria sido esquecido.”
Para mais, afirma Athayde, trata-se de “uma estória de novela, sem fim à vista: há sempre um dado novo. Os bons se calhar são maus, os maus se calhar são vítimas... são ingredientes folhetinescos”, remata.
Miguel Sousa Tavares analisa a questão pelo mesmo prisma, frisando que, “a partir do momento em que as TV deram a este caso uma lógica de folhetim, já não há recuo”. “As pessoas querem saber o desfecho”, afirma o comentador.
Rui Cádima, professor universitário e autor do blog IrrealTV, no qual estuda os fenómenos televisivos, vai mais longe e fala de “enlouquecimento colectivo” para classificar a abordagem que tem sido feita pelas televisões nacionais e britânicas. Com excepção do 11 de Setembro e, “nos casos individuais, da princesa Diana e de O.J. Simpson”, o professor confessa não estar “a ver nenhum caso com um impacto global tão tremendo”.
Cádima salienta as características que fazem da família McCann um objecto televisivo apetecível: “Uma família-padrão, de classe alta, todos extremamente telegénicos e que desenvolveram, devidamente assessorados, uma grande habilidade em relacionar-se com os ‘media’”. Para o professor, esta família preenche no imaginário colectivo o espaço de um “ideal maravilhoso” e os McCann, ao tornarem-se “os melhores assessores de imprensa de si próprios, ultrapassaram a barreira dos pais que perderam o rasto da filha para se tornarem nos assessores dos pais que perdem o rasto dos filhos”.
FÓRMULA DE SUCESSO
Atribua-se o “sucesso” da “novela Maddie” à estratégia mediática adoptada ou às próprias qualidades telegénicas do casal, numa coisa todos parecem concordar: nunca se viu dar tamanho tempo de antena a um caso que começou por ser um desaparecimento como tantos outros.
O jornalista Paulo Moura chegou mesmo a falar, num texto publicado um mês depois do desaparecimento da menina, de um SMBD: “Síndroma da Menina Branca Desaparecida”. O jornalista desenvolvia o conceito, aludindo a uma “escala de noticiabilidade tacitamente adoptada”, que colocaria de um lado as meninas loiras e do outro os homens negros ou latinos.
“No meio estão os rapazes loiros, as raparigas morenas, etc. Um pouco como a escala em vigor para o número de mortos nas catástrofes: um cidadão americano vale o mesmo que cem árabes, mil chineses, dez mil africanos.” Afirma Paulo Moura que “nunca ninguém admitirá que esta escala existe, embora ela seja aplicada todos os dias”.
OPINIÃO DE SANDRA FELGUEIRAS
A jornalista da RTP Sandra Felgueiras, responsável pela cobertura do caso pela estação pública desde o início, não tem dúvidas de que este fenómeno se tornará num ‘case study’ analisado por especialistas nas universidades.
“Da minha experiência, não tenho memória de qualquer caso que possa ser comparado a este”, afirma. “Sempre que se fala de ‘Maddie’, quer se dê cinco, dez ou 20 minutos, as audiências são impressionantes.” Para Sandra Felgueiras, estamos perante “um triângulo nos vértices do qual se encontram, de um lado, os McCann, de outro a Polícia Judiciária e no terceiro a imprensa britânica. No meio estamos nós. E, no fundo, somos obrigados a continuar a alimentar este círculo vicioso, sob pena de sermos engolidos pela máquina jornalística britânica”.
Apesar dos quatro meses e meio já decorridos sobre o início “deste filme”, a repórter da RTP continua a espantar-se com as dimensões que o caso atinge diariamente. “Quando cheguei a Rothley”, conta, “a minha cara já era conhecida, porque tinham corrido rumores de que os McCann tencionavam processar-me. E, apesar de esta intenção já ter sido amplamente desmentida pelos próprios, fui solicitada para dar entrevistas aos mais diversos canais, das espanholas Antena 3 e Cadena 4 ao francês Canal Plus. Cheguei a ser entrevistada por um jornalista do canal japonês TBS, que me disse que no Japão aquela era uma top story”.
Questionada sobre por quanto mais tempo esta história poderá manter-se no cume das audiências, Sandra Felgueiras admite não fazer “a mais pequena ideia”. “Se tivéssemos feito essa pergunta há quatro meses nunca poderíamos esperar o que aconteceu entretanto. Quatro meses depois, tendo sido espalhada a cara de Madeleine McCann em todo o Mundo da forma como foi, as coisas tomaram dimensões que nos ultrapassam a todos.”
CASO NO PROGRAMA 'PRÓS E CONTRAS'
Foi exactamente por esta razão que o caso Maddie foi escolhido pela equipa de Fátima Campos Ferreira, da RTP, para a ‘rentrée’ do programa de debate ‘Prós e Contras’. “Duas semanas antes já tínhamos percebido que a história ia sofrer uma reviravolta”, explica a jornalista. Este e o ‘Prós e Contras’ dedicado ao caso em Maio foram os mais vistos da história do programa, com audiências de 8,8 e 31,7% de share. A responsável salienta que as imagens da edição de 10 de Setembro tiveram projecção mundial.
A ACTUAÇÃO DOS PAIS
Um dos aspectos mais realçados na tentativa de explicar por que motivo o desaparecimento de uma criança tomou proporções nunca antes vistas nas televisões de todo o Planeta é a própria actuação dos pais na orquestração de uma campanha mediática de dimensões globais na qual moveram céus e Terra, lançando mão das suas ligações ao próprio governo britânico. O surgimento, desde a primeira hora, do nome do ex-jornalista da BBC e responsável do gabinete do primeiro-ministro, Gordon Brown, pelas relações com a imprensa, Clarence Mitchell, a dar a cara pelos McCann tem feito correr muita tinta, sobretudo numa altura em que, após um tempo de afastamento, o ex-repórter volta às suas funções como assessor dos pais de Maddie. Hugo Matias, da TVI, um dos poucos jornalistas portugueses a permanecer em Inglaterra, opina que “agora é que estamos a assistir a uma verdadeira gestão de imagem dos McCann”, com as informações a serem libertadas “a conta-gotas”, declarações diárias à imprensa e a mãe da menina a aparecer “mais arranjada, tentando mostrar-se mais descontraída e sorridente”.
Sobre a reentrada em cena de Clarence Mitchell, o jornalista da TVI é lacónico. “Parece ser mais gratificante trabalhar com os McCann do que no governo britânico”, comenta.
UMA NOVA CAMPANHA MEDIÁTICA
Os dados estão lançados para a anunciada nova campanha mediática, que deverá iniciar-se em breve, com incidência nas televisões portuguesa e espanhola. O assunto promete não morrer e, na opinião do jornalista destacado pela SkyNews, Martin Brunt, continuará, “provavelmente durante vários meses ainda”, a merecer a atenção do público. Mesmo que nunca venha a descobrir-se o que aconteceu à pequena Maddie, Brunt prevê que, sempre que surjam novos dados ou se completarem aniversários sobre o desaparecimento da menina, voltará a ser dado destaque à história que tem apaixonado o Mundo inteiro.
SKY NEWS E BBC: DIRECTOS DA PRAIA DA LUZ
As televisões britânicas têm estado em peso na cobertura do caso, tanto na Praia da Luz como em Portimão, e ainda em Rothley (Reino Unido). A SkyNews é a estação que tem dado mais cobertura ao caso, com o jornalista especializado Martin Brunt destacado a tempo inteiro.
Brunt tem dedicado numerosos posts do seu blog na internet, Life of Crime, à história. Chegou a ter centenas de comentários, sobretudo nas últimas semanas.
RTP1, SIC E TVI: PORTUGUESES NA RIBALTA
Os jornalistas Sandra Felgueiras, da RTP, Hugo Matias, da TVI, e Luís Costa Ribas, da SIC, têm sido por estes dias das caras mais presentes nos ecrãs nacionais.
À chegada a Rothley, Sandra Felgueiras – que entretanto mudou o visual – foi solicitada por diversas TV para ser entrevistada, já que o seu rosto se tornara conhecido devido ao rumor de que iria ser processada pelos McCann. Rumor que o próprio casal desmentiu.
OS NÚMEROS: NO TOPO DAS AUDIÊNCIAS
Desde a primeira hora, o casal McCann moveu uma complexa teia de influências para conseguir manter-se no centro das atenções. Utilizaram sabiamente os meios ao seu dispor, com particular destaque para televisão e internet. Futebolistas, grupos de rock, políticos e o próprio Papa foram chamados a dar o seu contributo na campanha Find Maddie e responderam positivamente. Há quatro meses e meio que o assunto se mantém no topo das audiências.
30 POR CENTO do tempo dos noticiários de TV foi dedicado ao caso na semana em que o casal foi constituído arguido.
5 MILHÕES de visitas foram recebidas pelo FindMadeleine nas 24 horas que se seguiram ao lançamento do site.
Além dos quatro assessores de imprensa dos McCann, também o tio de Kate, Brian Kennedy, tem tido um papel preponderante como porta-voz do casal.
CRONOLOGIA DOS ACONTECIMENTOS
DESAPARECIMENTO MEDIÁTICO
Na noite de 3 de Maio, Madeleine McCann, quase a fazer quatro anos, desaparece do aldeamento turístico Ocean Club, na Praia da Luz. Os pais dão imediatamente o alarme. Terão avisado a SkyNews antes da GNR.
317 NOTÍCIAS RTP, SIC e TVI 7 a 13 de Maio
450 MILHÕES DE TELESPECTADORES em 160 países, seguiram a Final da Taça inglesa, no renovado Estádio de Wembley. No intervalo, assistiram à transmissão em ecrã gigante do vídeo dedicado a Maddie, com a música dos Simple Minds ‘Don’t you forget about me’. Dias antes, a 11 de Maio, o futebolista David Beckham apela ao Mundo por Madeleine McCann.
A 30 de Maio, os McCann são recebidos pelo Papa Bento XVI no Vaticano. Ao passarem 100 dias do desaparecimento da filha, o casal lança igual número de balões verdes e amarelos, para que ninguém esqueça a menina.
200 RÁDIOS emitiram alerta do rapto
O REGRESSO
A 17 de Setembro, Clarence Mitchell anuncia formalmente o seu afastamento do governo britânico, a fim de voltar às funções de assessor do casal McCann, que já assumira quando o caso eclodiu, em Maio.
"HISTÓRIA MONTADA", Cristina Ponte (Professora e Investigadora)
- Como explica a dimensão deste caso?
- Esta é uma história montada com todos os ingredientes do melodrama: uma criança bonita, vítima, um casal com uma boa imagem. Há também aspectos que mexem com o inconsciente, como a figura do ‘homem do saco’ (o homem alegadamente visto por uma testemunha carregando uma criança num cobertor).
- Como analisa a campanha feita pelos pais?
- Tem um peso inegável, foi muito bem montada, com a intervenção de futebolistas, o ir à rua com o ursinho...
- E o papel das TV?
- Também ajudaram a criar o ‘folhetim’, ao usarem rodapés mencionando o número de horas e depois de dias passados sobre o desaparecimento.
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