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MARIA JOÃO: É PRECISO MERECER SER CANTOR

A directora da ‘Operação Triunfo’ não acredita no sucesso fácil. Defende que para se ser artista é preciso muito trabalho e empenho, mas admite que os alunos do concurso da RTP participam cheios de “sonhos cor-de-rosa”. Após a primeira nomeação, na noite de ontem, diz que o empenho dos alunos é fantástico. Maria João, cantora:
24 de Fevereiro de 2003 às 00:04
Maria João acha que os alunos são como peças prontas a moldar
Maria João acha que os alunos são como peças prontas a moldar FOTO: Direitos Reservados
Correio da Manhã – Que balanço faz destes dias como directora da ‘Operação Triunfo’?
Maria João – Estou a adorar. Estou ainda mais entusiasmada do que pensava quando aceitei. É maravilhoso ver pessoas que têm talento e vontade de fazer coisas diferentes. .. Eu sabia que ia ser um projecto muito interessante, mas a história real nem sempre é como parece. Neste caso, a minha participação está a ser muito emocionante. Para além de aparecer, que mesmo para alguém com uma carreira como a minha é sempre importante, é precisamente o facto de ser uma academia que o torna mais aliciante. O que distingue a ‘Operação Triunfo’ de outros programas, como o ‘Chuva de Estrelas’, é que aqui eles têm formação, aprendem. Isso é que é fascinante.

– Acha que este género de programas ajuda a criar estrelas?
– Muitos programas anteriores, como os ‘Big Brothers’, passavam a ideia errada de que é muito fácil ser cantor. Isso não é verdade. Para ser artista, quer seja cantor, dançarino, etc, é preciso talento e muito trabalho. Sobretudo é preciso merecer ser cantor. E o que as pessoas vêem na televisão é apenas a pontinha da pirâmide. Não acredito nos cantores que aparecem de repente, porque isto exige um trabalho intenso e árduo. Há que aprender a mexer-se em palco, a colocar a voz... As ideias que passam para o público são muitas vezes erradas e, nesse aspecto, sou completamente fundamentalista. Não se é músico ou cantor sem um imenso trabalho.

– Os alunos acreditam no sucesso, ou têm consciência de que a fama é efémera?
– Têm sempre o sonho cor-rosa de que isto vai ser uma rampa de lançamento. É, de facto, uma coisa muito importante e eles vão aprender a cantar melhor, a defenderem-se melhor em palco. Depois acontece e não acontece. Não acredito no sucesso fácil, imediato...

– É cansativa esta “Operação“?
– É. Por exemplo, na sexta-feira, estive doente, não pude ir lá, mas telefonei cinco vezes a saber se estavam bem. E quando soube que os alunos tinham chorado ainda fiquei mais ansiosa. Do ponto de vista emocional, é muito marcante mesmo. Mas há aquele encanto de estar lá e vê-los transformarem-se. Sabe, eu para além de cantar, sempre dei aulas, para compor o meu orçamento (risos). Dou aulas na Escola Superior de Música do Porto e vários workshops pela Europa. Ainda agora, durante a ‘Operação’vou dar um pulinho a Sevilha para um workshop de um dia. Estes alunos estão verdinhos em tudo, mas isso é que torna este trabalho fascinante. Para um professor, pegar assim em alunos sem vícios, cheios de vontade de aprender, é maravilhoso. São como peças prontas a moldar...

– Acha que esta escola pode colmatar as falhas do ensino da música em Portugal?
– Há falhas claro. Muitas vezes as pessoas começam tarde porque a profissão de cantor não é muito bem aceite pelos pais. Nenhuma família dá pulos de alegria quando o filho diz que quer ser artista, e isto vale para a música, como para o teatro. Claro que depois ficam orgulhosos quando vêem os filhos na televisão, mas à partida não é aceite com entusiasmo. Por isso talvez seja uma maneira airosa de tornear essas falhas.

– Com a sua experiência, e a sua careira, que conselho dá a estes concorrentes?
-- Ser-se músico exige muita casmurrice, muita teimosia... Eu acreditei e nunca fiz concessões. Para mais, a cantar jazz, que é uma música pouco comercial entre nós. Se calhar, se cantasse ‘standards’, ou se estivesse fixa num local, ganhava mais dinheiro. Mas a felicidade que eu tenho é imensa, e não há dinheiro que pague. Eu às vezes penso que sou muito feliz: pois canto o que gosto e ainda me pagam por isso.

PERFIL

Maria João nasceu em Lisboa em 1956. Iniciou a sua vida musical aos 26 anos na Escola de Jazz do Hot Club de Lisboa. Nos dois anos seguintes formou o Quinteto de Maria João e trabalhou na televisão. Desde então, aposta numa carreira internacional e é uma das vozes portuguesas mais conceituadas. Com o pianista Mario Laginha forma um dos duos mais emblemáticos e irreverentes da actualidade. O filme da sua vida é ‘Do Fundo do Coração’.
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