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Morreu a jornalista Oriana Fallaci

Oriana Fallaci morreu ontem, durante a madrugada, num hospital de Florença, onde se encontrava hospitalizada há alguns dias. A polémica jornalista italiana, de 77 anos, sofria de cancro da mama. Célebre pela frontalidade com que entrevistava alguns dos nomes mais importantes da história política do século XX, Oriana destacou-se nos últimos anos pelo ataque cerrado à cultura islâmica.
16 de Setembro de 2006 às 00:00
“A jornalista a quem nenhuma figura mundial consegue dizer não”, escrevia, há uma década, Elizabeth Meheren, jornalista do ‘LA Times’, a propósito de Oriana Fallaci. No decurso da sua carreira, a italiana, nascida em Florença a 29 de Junho de 1929, entrevistou figuras como Deng Xiaoping, Yasser Arafat, Lech Walesa, Golda Meier ou o Ayatollah Khomeini.
Para a história fica a célebre frase que dirigiu a Henry Kissinger. “Vamos falar de guerra”, disse. Corria o ano de 1972. Mais tarde, o norte-americano viria a afirmar que aquela foi a entrevista mais desastrosa que concedeu.
Em Portugal, Mário Soares e Álvaro Cunhal, os grandes protagonistas da cena política no período pós-revolução de Abril, foram entrevistados por Oriana Fallaci. A conversa com o comunista, publicada em Portugal pelo ‘Jornal do Caso República’, causou grande polémica, forçando o PCP a desmentir que o seu líder tivesse afirmado não aceitar “o jogo das eleições”.
O CM contactou Carlos Brito, mas o antigo militante comunista optou por não comentar, justificando-se com “o respeito pela memória de Álvaro Cunhal”. Mário Soares, por compromissos pessoais, não pôde falar ao nosso jornal.
ANOS POLÉMICOS
Oriana Fallaci sempre foi uma figura polémica. Contudo, os últimos anos acentuaram essa faceta. A jornalista italiana, através de livros e artigos em jornais, criticou duramente o Islão, o que motivou o repúdio de parte da sociedade italiana. E ao mesmo tempo que era criticada por elementos da comunidade artística, cartoonistas e políticos de esquerda, ganhou força junto da direita, que não hesitou saltar em sua defesa.
Em 2002, o conteúdo do livro ‘Raiva e Orgulho’ valeu-lhe uma acusação de racismo na Suíça.
A queixa foi colocada por um cidadão individual, mas prontamente apoiada pelo Centro Islâmico de Geneva e pelo escritório de Lausagne da Associação S.O.S. Racismo. O juiz que analisou o caso deu razão ao queixoso e pediu ao governo italiano que procedesse ao seu julgamento ou, em alternativa, a extraditasse. Itália alegou que a sua Constituição protege a liberdade de expressão e recusou o pedido. O caso é descrito pela própria jornalista no livro ‘Força da Razão’.
A jornalista enfrentou outros processo, em França e Itália, essencialmente para impedirem a publicação dos seus livros, mas saiu sempre vencedora.
MULHER CORAJOSA
“Foi uma jornalista de referência, uma mulher de coragem, que marcou uma época onde as mulheres jornalistas ainda eram muito raras”, declarou à agência Lusa Eugénio Alves, presidente do Clube dos Jornalistas, acrescentando tratar-se de “uma mulher de paixões, perante a vida e o trabalho”. O jornalista salienta o conunto de “entrevistas e reportagens notáveis” efectuadas ao longo da carreira.
PERFIL
Oriana Fallaci nasceu e cresceu em Florença a 29 de Junho de 1929, dividindo os últimos anos de vida entre a cidade natal e Nova Iorque. Ainda jovem, integrou um movimento de resistência ao fascismo italiano e, na última década, regressou ao activismo político, criticando o que apelidou de “fascismo islâmico”. Jornalista desde os 21 anos, esteve em diversos conflitos bélicos. Defende o ateísmo, mas é adepta confessa do Papa Bento XVI.
A OBRA LITERÁRIA
Oriana Fallaci lançou-se nos livros em 1956, com ‘Sette Peccati di Hollywood’. Cinco anos depois, lançou o primeiro de três livros em três anos, ‘Il Sesso Inutile’, seguindo-se ‘Penelope alla Guerra’ e ‘Gli Antipatici’. ‘Nada, e assim seja’, a primeira obra traduzida para português, foi publicada em 1969, um ano antes de ‘Quel Giorno sulla Luna’. Na década seguinte, editou ‘Entrevistas com a História’, ‘Carta a um Menino que não Chegou a Nascer’ e ‘Um Homem’. Seguiu-se um interregno de 11 anos, quebrado em 1990 com ‘Inchallah’, a primeira incursão pelo mundo islâmico. Outros 11 anos passaram até chegar ‘Raiva e Orgulho’, escrito em plena ressaca dos atentados terroristas nos Estados Unidos. Seguir-se-iam ‘A Força da Razão’, ‘Oriana Fallaci entrevista Oriana Fallaci’, onde aborda a sua doença, um cancro na mama, e ‘L’Apocalisse’.
DAS ARMAS PARA O BLOCO E CANETA
A frontalidade utilizada na sua actividade jornalística foi uma imagem de marca ao longo da sua carreira. Mas Oriana não era uma mulher de armas apenas nas palavras.
Ainda adolescente, fortemente influenciada pelo activismo político do seu pai, um humilde carpinteiro, juntou-se ao grupo de resistência armada Giustizia e Libertà, que combatia o regime fascista de Benito Mussolini. O jornalismo chegou aos 21 anos, quando começou a escrever para o jornal ‘Il Mattino dell’Italia Centrale’.
Dezassete anos depois, começou a trabalhar como correspondente de guerra, acompanhando os conflitos no Vietname e Caxemira, os movimentos de guerrilha latino-americanos e as incidências no Médio Oriente. Foi, durante muito tempo, correspondente da revista política ‘L’Europeo’ e escreveu para os mais conceituados jornais europeus.
Em 1968, foi baleada durante o massacre de Tlatelolco, no México onde fazia a cobertura dos protestos estudantis. Por duas ocasiões, venceu o St. Vincent Prize para jornalismo, coleccionando também vários prémios literários, nomeadamente o Bancarella, o Viareggio e o Prix Antibess.
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