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Correio da Manhã

Tv Media
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NÃO QUERO AUDIÊNCIAS A QUALQUER PREÇO!

A quinze dias do início da ‘Quinta das Celebridades’, o director-geral da TVI acredita que o programa vai voltar a fazer história. Numa grande entrevista à Correio TV, a primeira da ‘rentrée’, José Eduardo Moniz fala das novelas brasileiras da SIC e afirma que na RTP “só mudaram as moscas”. Diz que o ministro Morais Sarmento “gosta muito de um certo protagonismo”, desmente problemas com Paes do Amaral e diz que enquanto “estiver bem” na TVI ficará em Queluz de Baixo.
18 de Setembro de 2004 às 00:00
Vem aí a ‘Quinta das Celebridades’. É o programa que vai devolver a liderança à TVI?
Nenhum produto só por si é arranque de coisa nenhuma. É como no futebol: uma estrela sozinha não resolve o jogo, ajuda a resolvê-lo. Nós funcionamos com jogo de equipa. A ‘Quinta’ é apenas um trunfo, mas a nossa grelha, a mais diversificada de todas, vai valer pelo conjunto. No ano passado, o ‘BB4’ acabou por ser não render os frutos esperados.
Receia que possa acontecer o mesmo com a ‘Quinta’?
Você pisa muito a tecla da liderança a todo o custo...Este não é o nosso discurso. Eu não quero ser líder a todo o custo. O que queremos é ser líderes em rentabilidade. Se acima disso pudermos vir a liderar dois meses, quatro meses, um ano... tudo bem. Mas o que é importante é deixarmos os telespectadores e accionistas satisfeitos e garantirmos estabilidade à empresa.
Portanto, não sente a pressão das audiências?
Sinto, mas dentro do patamar que definimos. A pressão das audiências, tal como vocês a vêem, eu não a sinto. Dá mais gozo ser um ‘challenger’ do que um situacionista.
Mas agora com a Media Capital cotada em bolsa não sente mais esse peso de ganhar?
A Media Capital não é só a TVI...
Sim, mas é o seu ‘core business’, o activo mais importante do grupo…
Tanto quanto me é dado perceber no jogo financeiro, aquilo que interessa sobretudo aos accionistas é saber do estado de saúde das empresas financeiras. Se ganham ou perdem dinheiro. Se têm capacidade para dar estabilidade ao investidor ou não. O resto é secundário.
Mas não acha que com investimentos avultados, como o futebol e a ‘Quinta’, os accionistas vão exigir-lhe a liderança em Portugal?
Acho que aquilo que vai ser exigido a todos nós (administração, direcção, chefias e outros profissionais) é que correspondamos às expectativas que os telespectadores estão a depositar em nós. Isso é que é decisivo.
A compra do futebol, por exemplo, pode vir a alterar a estrutura do público da TVI.
A aposta no futebol tem, precisamente, como objectivo central permitir uma maior diversificação do espectro de espectadores da TVI – nomeadamente os masculinos. O nosso auditório era maioritariamente feminino mas, em termos de rentabilidade económica e financeira, é óbvio que importa ter aqui um segmento importante que é o público masculino. E o melhor produto para público masculino é o futebol.
E não corre o risco de, ao tentar penetrar noutros públicos que não os habituais, de puxar de um lado e perder do ouro?
Não, não corro o risco.
Em Agosto a TVI já exibiu mais futebol e, pela primeira vez nos últimos anos, perdeu o controlo das audiências no segmento das donas de casa, que era um reduto da estação…
O que é importante é a diversidade de propostas e o equilíbrio da estação. Não atribuo grande relevância a isso.
Mas não teme que as audiências femininas deixem de estar com a TVI e reforcem a SIC?
Não. Você teria razão se eu fizesse uma mudança radical. Não é isso que está a acontecer. Vamos ter num período de horário programação para homens, mas toda a programação que faz a espinha dorsal da TVI vai manter-se.
Mas vai conseguir fazer com o futebol as audiências que faz com as novelas? Não perde com a troca…
Não. Aliás, até há bem pouco tempo, nos dias e nas horas em que outros tinham futebol, o nosso ‘share’ descia aos 20 por cento. Portanto, é uma mais-valia.
Sim, isso é verdade, mas às 21h00, em muitos casos, se colocar no ar ‘Os Batanetes’ será mais feliz do que com um jogo da SuperLiga portuguesa…
Há dias em que, de facto, é como você diz, outros em que não. Há jogos que terão 40 por cento de ‘share’ e outros 30.
O acordo com a Sport TV, para o intercâmbio de jornalistas, não pode ser analisado internamente como um atestado de incompetência aos profissionais que tem na sua redacção?
Não vejo porquê. Se vai haver um intercâmbio, é válido para ambos os lados.
Sim, mas a TVI é que é a estação de referência, a mais importante…
Sim, pois é. Este acordo significa apenas que ambas as empresas sabem fazer contas e rentabilizar o melhor que têm, quer a nível de meios, quer a nível de recursos. Quem sai beneficiado com isto são os nossos espectadores, a quem estamos a dar acesso a profissionais cuja competência é genericamente reconhecida.
Esta parceria estratégica com a Sport TV pode ser o início de uma relação de natureza diferente?
Ai, isso já não sei, nem é a mim que me deve perguntar.
A RTP alienou a sua participação no canal desportivo e essa quota continua ainda em aberto. Este negócio com a TVI pode abrir caminho à entrada da estação no capital social da Sport TV?
Não sei, esse é um assunto que não sou eu que tenho de responder.
Está bem, eu sei que é uma competência da administração, mas estou a perguntar ao director-geral da TVI, ao jornalista José Eduardo Moniz, se editorialmente via com bons olhos um ‘casamento’ deste tipo.
O director-geral da estação não tem objectivos estratégicos diferentes daqueles que tem o grupo. E quem os define é o engenheiro Paes do Amaral.
AS MANHÃS DA TVI
A TVI iniciou esta semana uma nova aposta na programação matinal, para tornar este horário mais competitivo. Tem sido um ‘parto difícil’ e não foi por falta de apostas. Teresa Guilherme, Sofia Alves, Manuel Luís Goucha, Júlia Pinheiro, Henrique Garcia…
Nada se constrói de um dia para o outro. Não estou à espera de conseguir audiências espectaculares já nesta semana. O que quero é que se vá construindo uma estrutura e factores de habituação nos espectadores, para que eles venham a posicionar--se junto da TVI como se fôssemos a sua casa. Mas esse é um trabalho lento, que demora tempo.
Já rentabilizou o investimento feito em Manuel Luís Goucha?
O investimento no Manuel Luís está mais do que rentabilizado. É preciso ter em conta que a TVI vinha de patamares muitos baixos de manhã. E neste ano crescemos bastante.
Mas tendo ele sido o ‘rei das manhãs’, não seria expectável, um ano depois de ter sido contratado, que ele já fosse ‘o rei’ em, pelo menos, algumas manhãs?
E isso esporadicamente já acontece, mas acho que você está a colocar em cima dele um grau de exigência muito elevado e absurdo. Num clima competitivo, nem tudo depende de quem está a fazer o programa. Há sempre uma conjugação de factores. E é preciso ter muita paciência.
E sente-se com essa paciência?
Sim, claro. Eu sempre tive muita paciência, desde a hora em que vim para cá em 1997. E continuo, até porque as coisas hoje estão mais assimiladas, estão encaminhadas. Criámos uma estrutura e, por isso, as pessoas hoje vêem-me menos irritado, vêem-me menos a esbracejar e a gritar por aí, porque já todos nos conhecemos, já sabemos os pontos fracos e fortes de cada um.
Por falar em pontos fortes, você nunca reconhece os méritos da concorrência?
Reconheço, então não reconheço? Mas não me vai ouvir falar dos outros, porque eu não quero (risos).
UMA TELEVISÃO PORTUGUESA
Por que é que todos os responsáveis televisivos dizem que a estação que dirigem é a que tem a programação mais diversificada?
(risos) Não sei porque é que os outros dizem. Eu digo porque é verdade. Se olharmos para o cômputo da grelha, a TVI tem a grelha mais diversificada. E seguramente a mais portuguesa. Esta é uma estação feita em português, por portugueses e para portugueses.
Acha que a qualidade da ficção portuguesa feita pela TVI é boa?
Acho que é melhor do que a que existia quando começámos esta caminhada, mas está longe ainda da que nós queremos que seja.
E está ao nível da brasileira?
Em algumas situações está, noutras não, há que assumir. Mas é natural, porque o avanço que a TV Globo tem é muito grande. Aliás, eu continuo a insistir na mesma tese: a TVI não concorre em Portugal contra uma televisão portuguesa, mas sim com a Globo, como se vê.
Por que diz isso?
Porque é verdade. Toda a estratégia da SIC assenta nas novelas brasileiras.
Tal como a vossa assentou nas novelas portuguesas…
Sim, é verdade. É o nosso pilar.
Mas não é legítimo cada um apostar nos produtos que entende serem melhores?
Não estou a dizer que é ilegítimo, mas é uma constatação. A dependência da SIC em relação à Globo é brutal.
Quando esteve na RTP, também dependeu das novelas da Globo. E seguramente não rejeitava agora aquele produto se ele não fosse um exclusivo da SIC…
Sim, mas desde os tempos da RTP houve uma evolução. A TVI posicionou-se alternativamente à Globo, tem um comportamento fantástico, discute taco-a-taco as audiências com as novelas da Globo. A única diferença é que eu não posso, não consigo, ter ficção portuguesa em todos os horários onde a SIC tem novelas da Globo. Eu não tenho dinheiro para isso, porque a SIC vai buscar novelas ao Brasil por metade do preço que eu consigo produzi-las em Portugal.
Os portugueses parece que gostam dessa… ‘sucursal portuguesa’ da Globo, porque a SIC lidera as audiências. Como é que justifica isso?
Os portugueses dividem-se entre a ‘sucursal portuguesa’ da Globo (risos) e a TVI. Há uma divisão interessante. O que eu quero é que os portugueses acabem por optar mais por nós.
A FICÇÃO PORTUGUESA
Mas reconhece que a ficção portuguesa tem de dar um salto?
Sim, reconheço. Precisamos de dar alguns saltos. Nós surpreendemos há uns anos atrás e agora está na altura de um novo impulso em questões de realização, de iluminação. E estamos a fazê-lo. Mesmo sem termos dinheiro.
É à TVI que cabe esse papel de impulsionador?
Devia ser à RTP, mas a TVI é que está mais bem posicionada para o fazer, até porque iniciou essa caminhada há cinco anos. Temos feito uma grande progressão e o que queremos é reforçar ainda mais a nossa posição no mercado de produção de ficção em português.
Mas o dinheiro é muito importante, não é? Não é possível fazer omoletas sem ovos?
Essa é a grande questão e é por isso que a Globo continua à frente. Eles resolvem os seus problemas porque têm dinheiro. E depois têm um leque de autores muito variado. E em Portugal nós sabemos que temos um leque de autores menos vasto.
Mas há guionismo de qualidade em Portugal?
Há, claro que há. Não há é na quantidade que todos desejaríamos. E esse é um trabalho que estamos a fazer. Mas, por exemplo, eu acho a nossa ‘Baía das Mulheres’ uma novela de altíssima qualidade. E vai respirar mais a partir de agora. Daqui a umas semanas, provavelmente, já vamos poder falar de uma outra forma sobre ela.
BOA RELAÇÃO COM O ‘PATRÃO’
Como é a sua relação com o presidente da Media Capital?
É boa.
Numa recente entrevista que deu à Correio TV, Paes do Amaral diz que o melhor acto de gestão dele foi mantê-lo como director-geral…
Foi simpático da parte dele.
Ele também é o melhor administrador que já teve?
É um bom administrador, mas eu já passei por muitos. É um administrador muito metódico, muito rigoroso e muito exigente em matéria de contas. É o administrador mais exigente que já tive, no que diz respeito ao cumprimento de objectivos.
Estava habituado à RTP, onde havia mais liberdade nesse ponto de vista…
Não, não. Nós na RTP já fazíamos isso. A metodologia de controlo é que era diferente.
Não é o que dizem os seus sucessores, que estão sempre a falar dos rios de dinheiro que se gastavam dantes, numa alusão à sua gestão…
Mas é porque estão a ser desonestos na análise que fazem. É muito fácil justificar insuficiências próprias com situações que outros terão vivido. Situações que eles próprios não conhecem. Eu não me quero alongar muito mais sobre isso, porque ainda serei acusado de dizer coisas que não devia ter dito.
Portanto, a ideia que hoje se tem de si na gestão da RTP é injusta?
Disso não tenho a mínima dúvida. Aliás, quem veio depois de mim deu-me razão. A situação vivida na RTP a seguir a mim, com o desbaratamento dos recursos que tinham e com as opções erradas, sem olhar a dinheiro, dão-me razão.
RTP? MUDARAM AS MOSCAS
Está a querer dizer que se tivesse continuado na RTP…
… muitas das opções que foram tomadas naquela empresa não teriam sido. Atrevo--me mesmo a dizer que a RTP não estaria hoje na situação em que está.
Acha que mudou alguma coisa nos últimos dois anos?
Houve uma tentativa para mudar alguma coisa, mas, como se diz na gíria, mudaram apenas as moscas para tudo o resto ficar na mesma. Houve algumas mudanças de cosmética, mas não houve alterações substanciais para o que devia ser, em minha opinião, o verdadeiro espírito de serviço público.
Como assim?
O que eu vejo na RTP é uma estação com os mesmos programas que tinha há não sei quantos anos durante a manhã e durante a tarde, ou seja, ‘talk-shows’ como sempre existira, ainda que os nomes possam mudar. Depois, vejo concursos e filmes, não vejo programação portuguesa.
Manuela Moura Guedes disse recentemente que Morais Sarmento era o director da RTP. Concorda?
Acho que o ministro Morais Sarmento gosta muito da RTP e gosta de ter um certo protagonismo na gestão da RTP. E tem a propensão para agir perante a RTP como um accionista interveniente. Já o vi em cerimónias nas quais, eu se fosse ministro, não estaria presente. A informação da RTP é um pouco oficialista, acomodada.
É uma tradição antiga, essa dos ministros estarem próximos da RTP. O próprio José Eduardo já sentiu isso na pele. Ou não?
Os contactos que eu tive com ministros eram iguais aos que toda a gente tem. Se eles são mais ou menos interventivos depende da nossa capacidade de resistência. É um jogo de relações de bom senso.
A INFORMAÇÃO DA TVI
Anunciou para breve alterações na informação da TVI. Sente algum cansaço no modelo editorial criado a 4 de Setembro de 2000, quando relançou a estação e estreou o ‘Jornal Nacional’?
Não me apercebo que haja cansaço. O que temos de fazer é um acompanhamento progressivo das situações. Há coisas que podem ser corrigidas. Não temos de rectificar muita coisa. É apenas cosmética. A grande demarcação editorial da TVI é a sua independência e irreverência. E essa nota nunca será substituída.
O impacto do ‘Jornal Nacional’ caiu…
Sim, mas foi um reflexo da flutuação de audiências da estação e, sobretudo, no período imediatamente anterior à sua exibição, o chamado acesso ao ‘prime-time’, onde a TVI tem vindo a apostar em repetições.
Sempre que Manuela Moura Guedes apresenta, o jornal sobe; quando ela se afasta, as audiências descem. Como director, como analisa?
Isso é bom sinal, significa que a estação tem uma cara de referência. E isso é válido para todas as estações de televisão.
É difícil ser director da própria mulher?
Não, nada. É uma pessoa como outra qualquer , com quem tenho concordâncias e descordâncias. Quando os consensos não existem, e como qualquer trabalhador, tem de acatar as ordens do director.
“ENTENDO-ME BEM COM PAES DO AMARAL”
No meio televisivo diz-se recorrentemente que as suas relações com Paes do Amaral não são o que parecem…
Não é verdade. Não há qualquer divergência com o engenheiro Paes do Amaral. Temos as nossas concepções do que é fazer televisão, mas temos um bom entendimento desde o arranque. Não nos viram assumir qualquer divergência pública, portanto, não percebo de onde vêm esses rumores.
E percebe por que aparecem de vez em quando?
Já quando eu estava na RTP era alvo deste tipo de boatos. É normal. As pessoas gostam muito de introduzir alguns grãos na engrenagem, quando vêem que as coisas estão a correr bem. Há pessoas muito ambiciosas que gostariam de ver-me pelas costas para assumir outras funções.
Assim de repente, está a ver alguém que gostaria de se sentar no seu lugar?
Não sei, mas se existem, não devem ser importantes, porque nunca dei por elas.
MONIZ PATRÃO?
Quem o conhece garante que o seu sonho não é ser director de uma televisão, mas sim, proprietário de uma estação. É verdade?
(risos) Nós devemos estar nas empresas sempre prontos para dar o máximo, mas também para aceitar que o nosso tempo passou e que está na hora de pegar nos tamancos e ir embora. Na RTP, eu saí, não porque me tenham convidado para sair, mas porque me apeteceu. Eu não queria mais viver naquele ambiente.
Ainda não sentiu isso na TVI?
Não, ainda não. Senão, já tinha ido. Enquanto me apetecer estar aqui, ficarei. Quanto a ter uma estação de televisão, qualquer profissional que trabalhe numa rádio, num jornal ou numa televisão, gostaria sempre de as ter na mão. Mas isso são quimeras, essas coisas não existem. E hoje em dia é preciso ter noção que ninguém é dono de nada. É muito fácil controlar empresas com apenas cinco por cento da sua quota.
Por isso mesmo, se tornou mais fácil a alguém que reúna certos apoios adquirir parte de uma empresa deste tipo…
Eu acho que hoje, dadas as circunstâncias do mercado, não seria completamente impossível eu reunir meios financeiros para isso. Em tese, isso é possível, lá isso é. Mas para si também é possível.
Só que a mim, isso nunca me passou pela cabeça. A si já…
(risos). Não me terá passado propriamente pela cabeça, até porque me sinto bem a fazer o que estou a fazer na TVI.
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