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Correio da Manhã

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NÃO SOU UM MISSIONÁRIO DO JORNALISMO!

Aos 45 anos, já passou por alguns dos mais difíceis cenários de guerra, mas continua a sentir medo de sismos. Não gosta do trabalho de secretária e defende que o terreno faz falta a um pivô. Critica a informação de ‘faca e alguidar’, mas percebe que as televisões privadas tenham de o fazer. Adepto do todo-o-terreno, adora desafiar os limites, mas detesta as “festas do social, as conversas de salão e o croquete”…
28 de Agosto de 2004 às 00:00
Você é provavelmente um dos jornalistas mais ecléticos da SIC. Já esteve na imprensa escrita, é pivô de televisão, repórter e editor. Onde se sente mais realizado como jornalista?
Eu sou um repórter. O que eu mais gosto de fazer é reportagem internacional. Tudo o resto na minha vida aparece como uma imposição, não como um prazer. Embora lhe deva dizer que hoje gosto mais de apresentar noticiários do que gostava. Gosto muito de entrevistar, que é uma coisa que hoje em dia se faz pouco nos telejornais, e de estar no estúdio quando as coisas são imprevisíveis. A rotina cansa-me muito.
Imagino que no 11 de Setembro, a hora dos atentados às Twin Towers tenha sido, profissionalmente, muito estimulante para si…
Eu estava em estúdio nesse momento, o ‘Primeiro Jornal’ estava quase no fim quando o ataque aconteceu e eu acabei por ficar lá sentado à frente das câmaras até às 19h00. São essas situações de que gosto.
E o que é pensou naquela altura?
Eu estava em directo no momento do segundo embate nas torres. E eu pensei que era uma repetição da primeira. Mas, afinal, já era o segundo choque.
E como é que, naquele momento, em que a informação é muito escassa, um pivô mantém ‘acesa’ a emissão?
Não havia informação nenhuma naquele momento. É muito instintivo. Além disso, a experiência de vida é muito importante. Pensei imediatamente que aquela não era uma rota de aproximação a nenhum dos aeroportos de Nova Iorque e que não estava nevoeiro; portanto, comecei a dizer estas coisas que ajudam a enquadrar aquelas imagens.
O seu registo é sempre muito seguro, muito calmo...
Esse registo é normal em mim, não é nada que imponha a mim próprio. Eu sou assim, calmo por natureza.
RAÍZES
Essa serenidade herdou-a do passado familiar? Que peso teve o facto de vir de uma família de jornalistas?
Essa retaguarda deu-me uma base de rigor, de princípios deontológicos. Acho que os alicerces do jornalismo foram um bocado esquecidos nos últimos anos. Acho que o advento das escolas de jornalismo foi a destruição dos princípios básicos.
Tem alguma referência?
Lembro-me do Adelino Gomes, um homem que conseguiu manter a sua escrita actualizada, do Óscar Mascarenhas, muito discutido na classe, mas com quem aprendi muito, e do Carlos Pinto Coelho, que também me ensinou bastante.
O jornalismo de hoje é diferente?
Sim, completamente. E em muitos casos, pior.
E de quem é a culpa?
É do posicionamento do mercado, é do número crescente de jornalistas existente em Portugal… É uma inevitabilidade, mas que poderia ser emendada se a formação fosse diferente. Ainda recentemente falava com uma professora universitária que dá aulas a finalistas do Curso de Comunicação Social e ela diz-me que eles não lêem jornais. Isso é uma coisa que me faz rir. É impensável um jornalista não ler jornais. Como é que uma pessoa quer ser jornalista se não tem fome de informação?
OS CENÁRIOS DE GUERRA
Disse que se definia como repórter. O terreno faz falta a um pivô?
O terreno é imprescindível para um pivô. Aliás, se virmos, os apresentadores norte-americanos ou ingleses chegam a esse estatuto depois de uma longa carreira como repórteres.
Não há bom pivô sem terreno?
Julgo que não. Ou melhor, se há bons pivôs sem terreno… seriam muito melhores se passassem pela experiência da reportagem.
Já esteve em vários cenários de conflito. E em alguns provavelmente mais desgastantes, até do ponto de vista emocional, do que no Iraque. Estou a pensar no Sudão, África do Sul ou em Angola. O facto de esta ter sido uma guerra que ‘falava’ português tocou-o de uma forma diferente?
Há uma coisa que é fundamental: quando se está num país onde se consegue perceber a língua sem intermediação de um tradutor, tudo é diferente. Porque estamos mais próximas das pessoas, do seu sofrimento. E Angola foi um caso desses. A guerra não me tocou mais por ser num país emocionalmente mais próximo de Portugal, mas sim porque não havia barreiras linguísticas.
Angola, Sudão, Moçambique, Israel, Iraque… Alguma vez pensou “nunca mais volto a fazer isto?”
Não (risos). Várias vezes pensei “o que é eu estou aqui a fazer?”.
“O JORNALISMO NÃO É UMA MISSÃO!”
Portanto, a ideia romântica do repórter que, ainda na redacção, durante o processo de escolha do profissional que vai cobrir um conflito, levanta o braço e diz “eu vou!”, não o seduz particularmente?
Eu não ponho o braço no ar, mas levanto o dedo, ou seja, digo “eu vou!”, mas não por impulso. Faço-o com calma e tranquilidade. Não me considero um aventureiro. Ao longo de todos estes anos, encontrei alguns e são perigosos.
Em que momentos é que pensou “o que é que eu estou aqui a fazer”?
Em situações óbvias, quando corremos perigo de vida. E, um bocado na brincadeira, mas em última análise, “não me pagam para isso!”. Gosto de fazer, gosto de lá estar, mas a minha vida está primeiro.
Portanto, não se revê nessa ideia romântica do jornalista, cheio de espírito de missão…
Não, não me revejo. Não sou um missionário, não tenho causas. O jornalismo é algo que eu gosto muito de fazer, mas não é uma causa. Para mim, o que vale é a vida, que é uma coisa tão boa. Não sou um obcecado pela profissão.
Mas já sentiu medo...
Em duas ou três ocasiões, por razões completamente estúpidas, porque eu tenho pânico de tremores de terra (risos). No Iraque, o nosso quarto ficava no último andar do Hotel Palestina e, quando as bombas caíam perto do hotel, sentia-se um enorme abanão. Parecia uma folha de papel. E era nessas alturas que eu pensava “mas o que é eu estou aqui a fazer?”
A GUERRA DO IRAQUE
No ano passado, durante o conflito no Iraque, o Paulo foi rendido na véspera da vitória aliada em Bagdade. Não sentiu um gostinho amargo de se vir embora antes da ‘notícia’ acontecer? Não foi uma espécie de… morrer à beira da praia?
Não, isso para mim não é particularmente importante. O meu compromisso com a SIC era ficar até chegar alguém para me render. Quando eu saí de Bagdade, os americanos já lá estavam.
Mas só dois dias depois é que se dá a deposição do regime de Saddam Hussein, o momento mais simbólico…
Mas isso foi apenas uma formalidade. É claro que quando cá cheguei e vi a imagem, tive pena, é evidente, mas não foi uma coisa que me tirasse o sono.
Nos cenários de guerra criam-se cumplicidades com os colegas, com companheiros da concorrência. Partilham quartos, medos, material. Essas cumplicidades diluem-se no dia-a-dia, depois do regresso ou nem por isso?
Criam-se laços muito fortes. Por exemplo, eu e o Renato Freitas vivemos momentos muito fortes e hoje ele é um dos meus melhores amigos. Por outro lado, às vezes este tipo de reportagens no terreno dá para conhecermos o lado oculto de alguns companheiros. Já tive grandes desilusões com pessoas que julgava conhecer.
A TELEVISÃO, ESSE GÉNERO MENOR…
Qual foi a notícia que mais lhe custou dar?
Não sei qual foi a que mais me custou, mas sei a que mais me marcou como pessoa. Foi na BBC, quando morava em Londres: o primeiro alerta sobre a grande fome no Sudão. Lembro-me que foi um murro no estômago e nunca mais me esqueci. No dia seguinte à sua exibição, quando cheguei lá ao serviço português da BBC, onde trabalhava, tive curiosidade de ir ao computador para ler o texto. Não tinha mais de dez linhas, mas tinha tanta força e uma tão grande elegância… Além disso, as imagens eram muito bem escolhidas, que me fizeram mudar a imagem que eu tinha da televisão.
Como assim?
Eu, nessa altura, tinha a ideia, que muitos jornalistas da imprensa escrita partilham, de que a televisão era um género menor. A partir desse momento percebi que a televisão tem uma força que mais ninguém tem.
A propósito, como é que vê o actual estado da informação televisiva em Portugal?
Deplorável é uma expressão muito forte, mas o estado da informação televisiva em Portugal está muito longe do que eu gostaria que fosse. Nós damos o que o público quer consumir, e tem de ser assim numa sociedade concorrencial, mas julgo que é possível fazer exercícios de educação do público e alterar ligeiramente os alinhamentos dos jornais televisivos. A grande responsabilidade disso cabia à RTP e ela não o faz!
E as privadas?
As privadas vivem num regime concorrencial, a RTP não. Ainda no início do mês, a ONU chegou a acordo com o governo do Sudão para conseguir dar apoio humanitário a um milhão de refugiados e o ‘Telejornal’ da RTP abriu com a notícia de três feridos numa explosão…
Mas há jornalismo de serviço público e jornalismo de iniciativa privada?
Há jornalismo com responsabilidades formativas e há o outro que tem de ser concorrencial.
A INFORMAÇÃO DA RTP
Deixe lá ver se percebo: o que está a querer dizer é que, para si, não fazia sentido que a SIC tivesse aberto o ‘Jornal da Noite’ com a notícia do Sudão, mas que a RTP deveria tê-lo feito. É isso?
O que lhe estou a dizer é que, para mim, é compreensível que a SIC e a TVI abram o seu jornal com a notícia da explosão de uma botija de gás. Acho menos compreensível que a RTP tivesse ido por aí...
E por que razão isso se passa?
Há aqui uma questão importante, que advém do facto dos jornais serem enormes. Em nenhuma parte do mundo há jornais tão grandes como em Portugal. A notícia em televisão tem de ter uma dignidade própria. Em Portugal não tem, porque é preciso encher um jornal de uma hora e meia.
Não seria desejável uma plataforma de entendimento editorial entre as três estações?
Chegou a haver um acordo de auto-regulação, em que se conseguiu, por exemplo, que os jornais começassem todos às 20h00. Mas até nisso, a RTP, que é quem devia dar o exemplo, furou, porque começa o jornal um minuto antes das oito.
Bem, mas o público tem vindo a reconhecer a melhoria da informação da RTP. Pelo menos, as audiências têm vindo a crescer. Não reconhece esse mérito?
Reconheço, claro que sim. A RTP está a melhorar muito nesse aspecto. É um facto que há hoje muito mais cuidado com os alinhamentos. Nalguns dias, o jornal da RTP é o menos sensacionalista. Aliás, regista-se já um certo cansaço do público em relação aos noticiários cheios de facadas, de sangue e de acidentes. Deve ser a RTP, que depende menos das audiências, a assumir esse papel de orientador.
COMO SOBREVIVER?
E a SIC, que em 1992 reivindicou para si um estatuto de referência informativa, não podia assumir essa função de regulador de mercado?
Não, é óbvio que não, porque nesse hiato de tempo quem pagava os ordenados? Tem de ser alguém que não dependa das receitas publicitárias, não pode ser uma estação privada.
Isso é uma visão um pouco pró-patronato…
Não é nada, é uma visão de quem quer ter o seu ordenado ao final do mês. Todos os trabalhadores portugueses querem. Não é uma visão patronato, é uma visão realística das coisas de quem está a trabalhar numa televisão comercial.
Está na SIC desde o início, em 1992. Esta casa é mais do que um local de trabalho?
Para mim, é. E para muita gente que está aqui desde sempre, julgo que também. Ter participado num projecto destes é uma coisa que marca não só a carreira como a vida de cada um. Crescer aqui, amadurecer aqui é uma coisa importante. Para mim é difícil pensar na ideia de abandonar a SIC.
Em que condições é que trocava de camisola e abandonava a SIC ?
É difícil. Estou bem na SIC, gosto de estar aqui, gosto da liberdade que se respira nesta empresa. Não planeio sair. Olhando para a concorrência directa, consigo identificar na RTP nichos onde poderia sentir-me profissionalmente realizado. O mesmo não posso dizer da TVI — ou, pelo menos, do que conheço da TVI. Mas enquanto a SIC me quiser, cá estarei. E enquanto cá estiver o dr. Balsemão, que é uma garantia importante.
“TODO-O-TERRENO FAZ-ME SENTIR VIVO”
Uma das suas paixões são os automóveis, aliás, já participou como concorrente no Paris -Dakar. Gostava de ter sido piloto de automóveis?
Não, mas não me importava nada de viver um ano ou dois só a fazer provas de todo-o-
-terreno.
Quem o conhece, caracteriza-o como uma pessoa muito calma. Essa adrenalina do jornalismo e das corridas de todo-o-terreno servem como catarse?
Não sei. Eu sou calmo, porque tenho uma boa capacidade de auto-controlo. Não quer dizer que não sinta as coisas. Sei é relativizá-las. O que me atrai é a noção de estar perto do limite. E só as pessoas calmas podem ter essa noção. É uma coisa agradável e que me faz sentir vivo. É por isso que gosto tanto do todo-o-terreno.
“NÃO TENHO PACIÊNCIA PARA O SOCIAL”
O Paulo é o exemplo do ‘low profile’. Dá poucas entrevistas, percebe-se que não se sente muito à vontade no papel de entrevistado, não aparece nas revistas sociais. Essa timidez é aparente ou é inata?
Não gosto. Eu faço as coisas por prazer. Gosto de andar mal vestido, chegar ao fim-de-semana e vestir uma ‘t-shirt’ e uns calções, e se os calções estiverem rotos, estão. Não tenho paciência para o social, para a conversa de salão, para o croquete e para as festas.
Sendo uma figura pública, há coisas difíceis de evitar…
Mas eu não sou uma figura pública, sou um profissional que tenho exposição pública. Quando saio da SIC, sou o cidadão Paulo Camacho e faço o que me dá na real gana e não tenho obrigação de ir a festas…
Portanto, desliga a ‘função jornalista’ quando sai de Carnaxide?
Absolutamente. Desligo completamente. Eu adoro a minha profissão, mas ela é apenas uma parte da minha vida. Não é minha vida.
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