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Correio da Manhã

Tv Media
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O CABO QUE MUDOU O MUNDO

Numa década, a televisão por cabo ganhou maturidade, multiplicou apostas e conquistou espectadores. Da informação da SIC Notícias, ao cinema do Hollywood, passando pelo desporto da Sport TV e pelos desenhos animados do Panda, há muito por onde escolher...
4 de Setembro de 2004 às 00:00
Há dez anos foi um verdadeiro Cabo da Boa Esperança na televisão portuguesa. Hoje é uma realidade implantada e para muitos portugueses é já difícil pensar na televisão com apenas quatro canais. Do entretenimento à informação são muitas as propostas, que em dez anos conquistaram 1,5 milhões de clientes.
Os números são, aliás, bastante significativos. No ano de arranque (1994), a TV Cabo conseguiu apenas 18 mil clientes, mas logo no ano seguinte, esse número triplicou. Em 2001, a TV Cabo consegue ultrapassar a barreira de um milhão de clientes.
Segundo os dados da empresa fornecidos à Correio TV, no primeiro trimestre deste ano havia um milhão e 466 mil clientes ligados ao cabo, o que corresponde a um aumento de 8,9 por cento relativamente a igual período de 2003. Este número é acompanhado ainda de uma importante subida na quota de mercado do cabo no panorama audiovisual português. Em 1999, o ‘share’ não ultrapassava os 2,9 por cento, mas no final do primeiro trimestre deste ano em cada 100 portugueses 11 preferiam os canais temáticos (11,4 por cento de média). Um aumento que deverá crescer com o anunciado reforço do pacote básico. A TV Cabo, o maior operador do serviço de televisão por cabo, promete “valorizar a oferta, com a introdução de canais de reconhecida qualidade e uma aposta crescente nos conteúdos portugueses e de produção nacional”.
São os casos do novo SIC Comédia, que substituirá o SIC Gold, a estreia do RTP Memória, com o aproveitamento do acervo ímpar da televisão pública, e a entrada na plataforma da TVI, com os seus dois canais temáticos, um de notícias de cariz económico e um de música.
Em entrevista recente à Correio TV, o presidente da Media Capital, Miguel Paes do Amaral, disse que a TVI estava “na parte final de acertos contratuais” para que tudo esteja pronto no início do próximo ano. A grande aposta será, sem dúvida, o projecto de informação económica. “Não será uma nova SIC Notícias. A diferença entre a SIC Notícias e o nosso canal será idêntica à diferença entre o ‘Público’ e o ‘Diário Económico’”, disse.
LÍDERES NO CABO
Para o crescimento do fenómeno muito contribuiu a entrada em cena da SIC, no final de 1999. Hoje, ninguém duvida da importância do canal de Carnaxide como catalizador de audiências e receitas da TV Cabo.
No topo das preferências surge a SIC Notícias. Contrariando os receios iniciais dos que sempre auguraram futuros pouco risonhos, o canal dirigido por Ricardo Costa tem conseguido sempre manter a sua liderança no cabo. “O mais difícil já foi feito, agora é manter. A aposta SIC Notícias está completamente ganha, aliás num patamar acima do que era expectável. Uma das coisas mais surpreendentes foi estarmos no primeiro lugar dos canais mais vistos do cabo desde o primeiro dia e nunca mais termos saímos de lá”, afirma à Correio TV o seu director.
Se inicialmente se temia a sustentabilidade financeira do projecto e a sua capacidade para ter notícias 24 horas por dia, actualmente essas dúvidas estão “totalmente dissipadas”. Para Ricardo Costa, a SIC Notícias transformou não apenas o público, mas também a própria TV Cabo. “Julgo que sem a SIC Notícias, a TV Cabo teria tido um crescimento mais lento. A SIC Notícias e a Sport TV são os canais que mais fazem puxar o cabo. Até porque o aparecimento da SIC Notícias tornou mais indiscutível que se tenha TV Cabo”, comenta.
Em relação ao público, o jornalista considera que os espectadores se tornaram mais exigentes com a informação: “Passou a ser mais exigente, porque passou a ter mais oferta. As pessoas sabem que podem ver notícias a qualquer hora e muitas vezes em tempo real. Além disso, se querem aprofundar um determinado tema sabem que o podem fazer na SIC Notícias”, afirma o jornalista, crítico da perspectiva de novos canais no segmento informativo. “Portugal é um país muito pequeno para ter três estações informativos. Não há mercado para tanto”, assegura.
O AVAL DA CRÍTICA
Uma coisa é certa: quem ganha com a maior variedade são os espectadores. Os dez anos de televisão por cabo em Portugal são aplaudidos pelo crítico de televisão Eduardo Cintra Torres, que sublinha os benefícios para o público e para os produtores de programas.
Na sua opinião, “a única desvantagem da TV por cabo é que não é universal, como a televisão terrestre, que é supostamente acessível em todo o País”. “É indiscutível que há uma maior escolha dos espectadores e isso significa mais liberdade, mais panóplia de pontos de vista, políticos, sociais e até religiosos. O advento do cabo também trouxe a possibilidade de haver mais programas portugueses e mais televisão estrangeira, muita dela de qualidade”, comenta à Correio TV. Cintra Torres vinca, aliás, que actualmente a variedade de programas se tornou “um facto da vida das pessoas”. De tal forma que “ter TV por cabo é quase o mesmo que ter um rádio, um frigorífico ou televisão generalista”.
Positivo é também o facto de o cabo ter criado mais oportunidades para os criativos portugueses fazerem programas, que de outro modo, dificilmente veriam a luz do dia.
SÓ MESMO NO CABO
São os casos de dois projectos desalinhados, que assumidamente pisam o risco da irreverência, ‘Cabaret da Coxa’ e ‘Gato Fedorento’, dois programas que muito improvavelmente se encaixariam na televisão generalista e que têm lugar na SIC Radical.
O ‘Cabaret da Coxa’, conduzido pelo apresentador Rui Unas, é já por muitos considerado um ‘talk-show’ de culto e um dos mais divertidos programas da televisão. Sempre com humor, Rui Unas, provavelmente o maior fenómeno de televisão da última década, leva aos espectadores um pouco de tudo o que pode ser divertido em televisão: textos cómicos, cantores pimba e grupos ou bandas de que poucos se lembram de ter ouvido falar.
Não faltam ainda as entrevistas – também elas cunhadas de muita ironia – que ajudam a animar o programa, mesmo que com ‘personagens’ desconhecidas do grande público.
O ‘Gato Fedorento’, também um ‘vencedor’ da SIC Radical, é igualmente um exemplo da ideologia da comédia só possível num canal temático. O programa baseia-se em conjuntos de ‘sketches’ humorísticos, muitas vezes absurdos, de registo popular. Mas é mesmo essa a ideia: fazer rir, envolver os espectadores em momentos em que nada é para levar a sério.
“Esta é a prova de que a SIC consegue fazer conteúdos de que as pessoas gostam. A aposta tem sido fazer com que outros géneros de público, que não o dos generalistas, se revejam em conteúdos mais feitos para eles”, afirma à Correio TV Francisco Penim, responsável pelos canais temáticos da SIC: SIC Mulher, SIC Gold e SIC Radical.
O seu ‘mais-que-tudo’ é a Radical, o canal lançado em 23 de Abril de 2001, assumidamente o mais ‘rebelde projecto’ de Carnaxide, em que “diariamente são ultrapassados os limites do bom gosto e do bom senso”, conforme prometeu há três anos o seu responsável, adiantando que era essa a sua vocação.
TUDO IGUAL
Se é certo que com a generalização do cabo, a programação televisiva se tornou mais diversificada para o espectador, Eduardo Cintra Torres observa o reverso da medalha. O crítico alerta para “o afunilamento da programação da televisão generalista, tornando-a toda muito igual”. “Quando haviam os quatro canais (RTP1, RTP2, SIC e TVI), tínhamos programas de debate político com a maior naturalidade. Hoje em dia, esse debate praticamente desapareceu dos canais privados e faz-se em canais do cabo, como a SIC Notícias”, aponta.
O processo que conduziu à criação de uma só empresa de distribuição de TV por cano em Portugal não é igualmente bem visto por Cintra Torres: “Há mais de dez anos houve a decisão política de conceder praticamente o monopólio a uma empresa, a Portugal Telecom. O processo não foi benéfico para o mercado, já que em termos de conteúdos podíamos ser mais beneficiados se houvesse mais concorrência”. Cintra Torres não está sozinho nesta batalha. Os restantes operadores de televisão por cabo, com a Cabovisão à cabeça, têm vindo a pressionar insistentemente a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) para que obrigue à separação da TV Cabo da PT, o histórico operador de rede fixa, com o argumento de que isso conduz à situação quase monopolista existente. Actualmente, a TV Cabo é o operador maioritário da plataforma, controlando mais quase 90 por cento do mercado.
NOTAS
‘SHARE’ SEMPRE A SUBIR
Em 1999, o cabo não tinha mais de 2,9 por cento de 'share'. Hoje tem 11,4
CABO CHEGA A 27 POR CENTO DOS LARES
No final de 2003 perto de 27 por cento dos lares já tinham televisão por cabo. Uma subida constante...
MADEIRA E LISBOA DOMINAM CABO
A Madeira tem a mais alta taxa de penetração de Cabo, com 60 por cento, seguida da área de Lisboa, com 53. Os alentejanos são os que menos aderiram à diversidade...
ANIMAÇÃO PARA TODOS
Em casa os miúdos mandam na televisão. Cada vez mais. Talvez por isso sejam poucos os pais que não conheçam o canal Panda. Ele é o preferido da pequenada. Não admira, portanto, que o canal seja o segundo mais visto no ‘ranking’ da TV Cabo, a seguir à SIC Notícias. Os desenhos animados, as animações pedagógicas e as histórias de encantar tornam o mundo da fantasia mais próximo das crianças. Ao citado Panda juntam-se ainda o Cartoon Network e o Disney Channels, como os maiores companheiros dos espectadores de palmo e meio.
ATRACÇÃO FATAL
Quem não se lembra, há dez anos, das loucas noites do ‘canal 18’? O sexo e o erotismo foram o primeiro grande chamariz da televisão por cabo, na altura ainda sem produção em português, com pouco cinema e, sobretudo com poucos programas legendados. Quase em segredo, jovens curiosos, grupos de amigos, casais enamorados, ou homens solteiros, não esqueciam alguns minutos mais ousados a partir da noite de quinta-feira. O canal 18 ficou célebre. Hoje, durante o dia, chama-se ‘Viver’ e tem produção luso-espanhola. Mas à noite, continua a dar vida aos prazeres do sexo e do erotismo, transformando-se em ‘Íntimo’. A eles se juntaram, entretanto, os codificados Sexy Hot e Playboy.
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