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Correio da Manhã

Tv Media
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O CASO É GRAVE

O caso é grave e não há como negar. A coisa não se pode resumir a um mero “problema laboral”. Dizer isso é pensar que os portugueses são tolos...
30 de Outubro de 2004 às 00:00
Três semanas depois de ter anunciado o fim dos seus comentários dominicais na TVI, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a abrir a boca. E fê-lo com estrondo. Com um surpreendente estrondo, acrescente-se, atendendo ao facto de ter dito com todas as letras o que os seus silêncios haviam deixado perceber nos últimos dias.
Ao contar que Paes do Amaral lhe lembrou que as frequências televisivas são atribuídas pelo Estado, ao recordar que o empresário lhe disse ser “inaceitável que houvesse uma informação e uma opinião sistematicamente antigovernamental na TVI” e ao garantir que o ‘patrão’ da Media Capital lhe pediu que “repensasse a orientação” das suas intervenções, Marcelo não deixou pedra sobre pedra e foi demolidor para o ‘patrão’ da TVI. Recorde-se que, na véspera, na Assembleia da República, o empresário tinha resumido a célebre reunião de há três semanas a um mero “encontro de amigos” e um pedido de conselhos estratégicos e “informações privilegiadas”.
Aqui chegados, não há volta a dar: alguém mentiu. É por essa razão que o caso não pode ficar por aqui, por mais que os partidos da maioria insistam em reduzir a polémica a um mero problema laboral, entre um patrão de uma empresa privada e um seu colaborador. Usar este argumento é tomar os portugueses (os eleitores, portanto...) por tolos. E a democracia portuguesa, mesmo que ainda titubeante, já deu provas de maturidade.
Não tenhamos ilusões: a situação é grave e é preciso dizê-lo com todas as letras. Quando um Governo pressiona um grupo de comunicação social privado, de forma directa ou através de uma rede de negócios e interesses económicos; quando um ministro se dá ao luxo de comentar o teor das críticas de um ‘opinion maker’; quando o porta-voz institucional do Governo vem dizer que deve haver limites à independência da RTP; quando o ‘patrão’ de um grupo de media, a acreditar em Marcelo, falta à verdade aos deputados no Parlamento… nada pode ficar como dantes. Ou será que tudo isto faz parte da célebre “cabala” contra o governo de Santana Lopes, defendida pela tese conspirativa do ainda ministro Rui Gomes da Silva?

PS - E agora, como será a coabitação futura entre Moniz e Paes do Amaral?Conseguirão ambos suportar-se daqui para a frente? Quanto tempo demorarão as feridas a sarar? Veremos...
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