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Correio da Manhã

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O ESTRANHO MUNDO DE LYNCH

‘Quem matou Laura Palmer?’ foi a questão que, no princípio dos anos 90, inquietou espectadores em redor do globo. ‘Twin Peaks’, a série de culto de David Lynch, provou que uma produção invulgar e artística é capaz de prender o público ao pequeno ecrã.
4 de Dezembro de 2004 às 00:00
O ESTRANHO MUNDO DE LYNCH
O ESTRANHO MUNDO DE LYNCH FOTO: d.r.
Quando ‘Twin Peaks’ se estreou, na estação norte-americana ABC, David Lynch já era um cineasta reputado. O realizador correu o risco de assinar um projecto para televisão, mas a aposta foi largamente recompensada. A loucura pela série foi tal que, ainda hoje, há fãs de todo o mundo que se deslocam aos cenários reais onde decorreram as gravações para reviver a magia.
O enredo abre com a macabra descoberta do cadáver de Laura Palmer (Sheryl Lee), envolto em plástico, à beira do lago que banha a pequena cidade de Twin Peaks, no noroeste do Estado de Washington. Esta imagem marcante, que Lynch imaginou numa conversa de café com Mark Frost, co-autor da série, foi o ponto de partida.
UM FENÓMENO ÍMPAR
Os ângulos de câmara típicos do cinema, a iluminação invulgar, os cenários belos, porém sinistros, as personagens carismáticas e misteriosas e os diálogos enigmáticos, acompanhados pela genial banda sonora de Angelo Badalamenti, fizeram de ‘Twin Peaks’ um fenómeno provavelmente irrepetível.
A produção da série, à semelhança do enredo, está pejada de pormenores curiosos, que espelham o método de trabalho pouco convencional de David Lynch. Ray Wise, inicialmente contratado para o papel de xerife, acabou por interpretar Leland Palmer, pai de Laura. A personagem de Wise, pouco relevante no início da trama, ganhou importância acrescida na segunda temporada, quando surgem indícios de que o patriarca Palmer violou e assassinou a filha.
Sheryl Lee também beneficiou do voto de confiança de David Lynch. O realizador, satisfeito com o trabalho da actriz, criou uma nova personagem – Madeleine Fergunson, a prima de Laura Palmer – para que ela regressasse ao elenco.
O aparecimento de Bob, figura enigmática que representa o lado negro de Leland Palmer, foi absolutamente incidental. As gravações já decorriam quando Lynch se deparou com Frank Silva, um elemento da equipa técnica cuja aparência era sinistra. Abordado pelo realizador, Silva aceitou o papel. À semelhança de Bob, também o agente Andy Brennan surgiu de improviso. Harry Goaz, que desempenha o papel do tímido e solícito polícia, era um aspirante a actor que ganhava a vida como motorista. A sorte bateu-lhe à porta quando conduziu David Lynch e o impressionou com o seu altruísmo e simpatia.
MISTÉRIOS DA SALA VERMELHA
A segunda temporada de ‘Twin Peaks’, actualmente em exibição na SIC Radical, tomou o rumo habitual das tramas de Lynch, tornando-se cada vez mais estranha.
Os admiradores do cineasta apreciaram a mudança, no entanto, parte do público perdeu o fio à meada e as audiências caíram. De entre as cenas mais bizarras destacam-se as que têm como pano de fundo a Sala Vermelha, um produto dos sonhos de Dale Cooper (Kyle MacLachlan), onde este é confrontado pelo anão identificado como ‘The Man From Another Place’ (‘O Homem de Outro Lugar’). As deixas do actor que o interpreta, Michael Anderson, não são, como aparentam, totalmente desprovidas de sentido. Para criar a estranha sonoridade, Anderson gravou as suas falas lidas de trás para a frente. Depois, ‘bastou’ passar a fita ao contrário...
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