Barra Cofina

Correio da Manhã

Tv Media
8

“O público aceita bem os negros”

Gosta de provocar, de conversar e de ser frontal. Apresentador, cantor e jornalista, admite que a rejeição é das produtoras
20 de Junho de 2008 às 00:00
Daniel Nascimento
Daniel Nascimento FOTO: Sérgio Lemos

Como foi a sua estreia na televisão?

Vim para Portugal estudar Comunicação Social. Fiz o estágio na Informação da SIC, curiosamente com Nuno Santos [actual director de Programas]. Foi ele que me ensinou a trabalhar em televisão.

Tem uma carreira multifacetada, qual a área que mais gosta no jornalismo?

Sempre gostei muito de política internacional, talvez por ser filho de um político. Era um estagiário, e os colegas admiravam-me por ir, por exemplo, fazer a chegada do Ramos Horta a Timor. E, modéstia à parte, tinha uma confiança tão grande que nunca defraudei essas expectativas.

Quer falar-nos do seu pai?

O meu pai, Lopo do Nascimento, foi o 1.º primeiro-ministro de Angola, nos anos 70, depois da Independência. Nem eu nem o meu irmão tínhamos vontade alguma de ser políticos, mas discutíamos esses temas em casa. A minha mãe é empresária e sempre foi política, também.

É uma pessoa frontal?

Ponho tudo em causa. Às vezes, posso tornar-me mesmo chato. Pergunto uma coisa e têm que me explicar. Gosto de provocar discussão. O Emídio Rangel disse-me que era isso que queria que eu fizesse em ‘Noites Marcianas’. E diverti-me a fazer o programa.

Ficou lá quanto tempo?

Cinco meses. Farto-me da rotina. Mas não me arrependo nada de ter participado nesse programa e de ter começado no entretenimento, como Emídio Rangel me aconselhou.

‘Noites Marcianas’ foi uma viragem na sua carreira?

Eu era estagiário da Informação, não aparecia no ecrã nem tinha percepção alguma do mediatismo. De repente, comecei a aparecer cinco vezes por semana no ecrã.

O Daniel é tímido?

Sou. Não acredite em tudo o que vê. Quando estou ali não posso ser tímido. Mas, fora do ecrã, sou.

E como combate a timidez?

Por inerência da minha família, de ser filho de quem sou, cresci e vivi com os olhos postos em nós. Mas mesmo o meu pai nunca foi muito dado a revistas. Os meus pais são umas pessoas muito recatadas. Não gostam de revistas nem de mediatismos. Em casa, nem falo do meu trabalho. Desligo. Sou mais um dos quatro irmãos.

Como surgiu a oportunidade de ser actor?

Estava a estagiar na Informação SIC e li num panfleto que ia haver um curso de representação com a actriz brasileira Thaís de Campos e o André Cerqueira, hoje responsável pela ficção da TVI. Inscrevi-me e eles, que eram casados na altura, aconselharam-me a explorar a minha veia de actor. Fiz ‘A Noiva’, com Catarina Furtado e Diogo Morgado. Mas só contracenei com o Marco Delgado, e numa cena tinha de lhe bater. Foram filmagens muito duras.

Que experiência tem a apresentar?

Estreei-me no programa ‘Fátima’, num dia em que a Fátima Lopes ficou sem voz. Eu e a Cláudia Semedo ajudámo-la e, no dia seguinte, apresentámos o programa sozinhos. Entrámos em pânico!De repente, o programa líder da manhã ia ser apresentado por dois negros. Mas teve óptimas audiências.

Sentiu que há racismo?

Não. Mas não sou ingénuo, pode haver quem ainda tenha relutância. Acho que a falta de apresentadores negros, se calhar, passa pelas produtoras. O público aceita bem os negros. Depois disso, voltei a apresentar o ‘Fátima’ mais três vezes.

Gostava de apresentar um programa seu?

Sim, gosto de conversar. E acredito que, mais dia menos dia, vou ter um programa próprio.

Que programa quer para si?

Sou um comunicador, gosto de conversar. Dentro destas características, a direcção encontrará, com certeza, um formato à altura.

Já teve reacções negativas devido aos comentários na ‘Tertúlia Cor-de-Rosa’?

Já houve uma pessoa conhecida que não gostou que eu e o Cláudio Ramos tivéssemos comentado uma notícia sobre ela, mas o mundo dá tantas voltas que parece que nós tínhamos razão. Fora disso, nunca tive um feedback negativo.

Ser ‘tertuliano’ é dizer o que se pensa?

Sim. E acho que se pode fazer esse trabalho com dignidade,semofenderninguém, sem dizer disparates.Leiooquesaina Imprensa ‘cor-de-rosa’ e digo o que acho. Falo do que sei e há limites que não ultrapasso.

E quando comentam a sua vida?

Gosto. Porque nunca disseram nada desagradávelsobre mim. Não me exponho, não abro as portas da minha casa, não exponho a minha família. Tracei uma fronteira. Por exemplo, não faço presenças. Não recebo dinheiro para ir a festas. E não critico quem faz. A minha postura é de bom senso.

Como surgiu, nos ‘Globos de Ouro’, a sua frase de a Manuela Moura Guedes ser um animal de televisão?

Para já, gostei muito de falar com a Manuela e o Moniz. Admiro-os. Ela é um animal televisivo, é frontal, não tem medo, vai à luta e, tal como eu, já cantou. Sempre fui fã dela e nunca tive a oportunidade de a entrevistar. Nos Globos de Ouro vi-a à minha frente e disse-lhe que gostava muito dela. Ficámos ali na brincadeira e disse-lhe: ‘Temos aqui um animal televisivo’. ’Animal televisivo não, animal, só’, respondeu. Ela achou graça....

PERFIL

FILHO DE MINISTRO GOSTA DO SOCIAL

Nasceu em Luanda, filho de Lopo do Nascimento (ex-primeiro-ministro de Angola), e veio para Portugal há 15 anos. Estudou Comunicação Social e estagiou na SIC. Jornalista, cantor e apresentador, é solteiro, recusa divulgar a idade e falar do filho: 'É uma coisa que prometi ao meu pai e à minha mãe'. Tem um fascínio por ténis de marca e bonés. Já gravou dois CD e garante ter 'Angola no pulso', graças à pulseira que usa com as cores da bandeira do seu País.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)