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Correio da Manhã

Tv Media
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O QUE MUDOU NA TELEVISÃO PORTUGUESA?

Um mês depois da estreia da ‘Quinta das Celebridades’, o panorama televisivo está virado de pantanas. Que a TVI recuperou a liderança das audiências, já toda a gente sabe. O que é importante saber é à custa de quem. E, já agora, quem vê o programa do ano? E quanto tempo dedicam os portugueses ao pequeno ecrã? As respostas seguem dentro de momentos…
30 de Outubro de 2004 às 00:00
Comecemos pelos factos. Primeiro: a ‘Quinta das Celebridades’ é um fenómeno de audiências, só comparável à primeira versão do ‘Big Brother’, lançado pela TVI a 3 de Setembro de 2000.
Segundo: o programa foi a locomotiva que puxou a estação para a liderança das preferências dos espectadores, acabando com sete meses consecutivos de domínio da SIC.
Terceiro: a ‘novela da vida rural’, como é promovida pelo próprio canal, num claro paralelismo com o histórico ‘reality-show’ da Venda do Pinheiro, tem uma forte penetração junto dos espectadores jovens (6,6 por cento ainda não chegaram aos 14 anos e 20 por cento têm menos de 24 anos).
Quarto: contrariando um velho mito urbano de que só as classes socialmente desfavorecidas (as chamadas C2 e D) é que vêem este tipo de programas, refira-se que mais de 250 mil espectadores da ‘alta sociedade’ não resiste à gala semanal de Júlia Pinheiro.
Quinto e último facto: apesar do crescimento da TVI se fazer com prejuízo para a SIC e RTP, regista-se também uma apreciável quantidade de novos ‘clientes’, habitualmente longe da televisão, e ainda um incremento do número de minutos que cada espectador dedica ao pequeno ecrã.
Temos, pois, por aqui várias questões a analisar, com base no estudo dos números registados diariamente pela Marktest Audimetria, a empresa que mede em Portugal o consumo televisivo, em que a amostra se baseia num painel de mil lares, representativo do universo total de espectadores (indivíduos com mais de quatro anos), avaliado em 9.450 milhões de pessoas.
A VIRAGEM
A guerra das audiências é uma longa e interminável maratona, composta por várias batalhas. A exposição mediática, os famosos ‘campeonatos de audiências’ e ‘top dos programas mais vistos’, a que todos os jornais se referem diariamente, é apenas uma ínfima parte (porventura a menos importante) da complexa teia do negócio audio
-visual. E tudo porque cada ‘share’ e cada ‘rate’ (os dois instrumentos mais utilizados na medição de audiências e os únicos termos mais familiares para os leitores) significam milhões de euros. De investimentos e de receitas. E é isso que faz girar o barco.
A estreia, a 3 de Outubro, da ‘Quinta das Celebridades’, o mais aguardado programa dos últimos anos, foi uma bomba. Até aí, a SIC era a estação preferida dos portugueses, liderava confortavelmente o ‘day-time’ (até às 20h00), lutava taco-a-taco no ‘prime-time’ (entre as 20h00 e as 24h00) e marcava pontos nos chamados ‘targets comerciais’, palavrão utilizado para designar a população activa, ou seja, com maior poder de compra.
Em Setembro, o canal Carnaxide fechava o mês com 30,4 por cento, contra 27,2 da TVI, mas no espaço de um mês o cenário mudou por completo. Com Outubro a chegar ao fim, Moniz salta para a frente, com 32,2 por cento de quota de mercado, contra 28,0 de estação de Manuel Fonseca. Estes são dados acumulados até à passada terça-
-feira. Ou seja, a TVI cresce 4,5 por cento, enquanto a SIC cai 2,4. Quanto à RTP 1 aguenta o assalto, decrescendo ligeiramente quatro décimas.
MAIOR CONSUMO
Mas a bomba da TVI conseguiu também aumentar o consumo televisivo em Portugal. Trocado por miúdos: não só a estação conseguiu ‘roubar’ espectadores à concorrência, como foi capaz, por si só, e à custa dos malabarismos de José Castelo Branco, Alexandre Frota, Cinha Jardim e companhia, de atrair para si portugueses habitualmente afastados da televisão.
De acordo com os dados da Marktest, no espaço de um mês, entre Setembro e Outubro, houve por dia, em média, mais dez minutos de consumo televisivo. Além disso, cada espectador, em média, esteve em Outubro mais nove minutos em frente à televisão do que aconteceu em Setembro. No mês que agora termina, cada espectador teve, em média e por dia, quatro horas, 24 minutos e dois segundos a ver televisão.
Metade deste tempo foi dispendida entre as 20h00 e as 24h00, ou seja, durante o horário nobre (2h, 12m e 01 s, um valor também superior ao registado no mês passado).
Analisadas as quatro galas de domingo, dia das expulsões e em que o programa tem cerca de três horas, as suas audiências têm vindo a crescer.
No dia 3, dia de estreia, o programa registou 16,2 por cento de audiência média (1,530 milhões), subindo no dia 10 para 17,3 (1,634 milhões) no dia 17 (18,2 e 1,718 milhões) e finalmente no dia 24 (18,3 e 1,733 milhões).
O QUE VÊEM AS CLASSES ALTAS?
As classes sociais mais altas são habitualmente consumidoras dos canais
de cabo, mas não se pense que não gostam de ‘reality shows’. Aos domingos, cerca de 15 por cento da tele-assitência das galas da ‘Quinta’ são de espectadores das classes A/B (alta e média-alta), o que representa cerca
de 250 mil pessoas. O quadro que a seguir reproduzimos mostra bem
como as celebridades da ‘Quinta’ pesam no comportamento deste tipo
de espectadores. Em Outubro, a TVI será, pela primeira vez este ano, líder de audiências junto das classes A/B, colocando fim a três meses de hegemonia dos canais temáticos distribuídos pela plataforma de cabo.
RTP DOIS SIC TVI CABO
Janeiro 24,9 5,9 21,1 22,5 25,4
Feverei. 24,6 5,4 21,9 24,0 24,4
Março 25,9 6,1 21,2 22,6 24,1
Abril 23,8 5,7 22,0 22,7 25,7
Maio 24,4 5,9 21,6 22,6 25,5
Junho 26,9 6,1 21,4 20,4 25,2
Julho 22,8 7,0 22,4 19,2 28,7
Agosto 22,1 8,5 21,8 19,3 28,3
Setembro 23,6 6,8 23,7 20,1 25,9
Outubro* 22,8 6,0 20,8 25,4 25,0
O QUE VÊEM OS JOVENS ENTRE OS 15/34 ANOS?
Todos os domingos, cerca de 120 mil miúdos com menos de 14 anos não perde uma gala da ‘Quinta das Celebridades’. Se a este número juntarmos os jovens entre os 15 e os 24 anos, temos mais 225 mil. Ou seja, 20 por cento da audiência do programa tem menos de 25 anos. Mérito dos concorrentes? Sim, seguramente, mas também das vacas e dos bezerros, dos partos em directo, do Óscar e do Pavarotti… Tudo somado, a TVI, pela primeira vez este ano vai conseguir liderar neste segmento etário, colocando fim a uma histórica liderança da SIC.
RTP DOIS SIC TVI CABO
Janeiro 17,1 3,9 35,7 28,7 14,6
Feverei.18,5 37 33,7 29,6 14,4
Março 18,8 13,8 34,7 28,1 14,6
Abril 18,8 3,7 34,7 27,2 15,7
Maio 19,6 3,6 34,0 27,0 15,9
Junho 22,0 4,3 32,3 24,8 16,6
Julho 17,9 4,5 33,9 25,5 18,2
Agosto 17,0 5,9 34,4 25,6 17,0
Setembro 17,5 4,2 34,6 26,5 17,1
Outubro* 16,6 3,9 31,3 32,8 15,3
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