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Correio da Manhã

Tv Media
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O REGRESSO DO ESPECTÁCULO

A TVI é a primeira estação privada em sinal aberto a conseguir os direitos de transmissão de jogos da SuperLiga. O acordo, com a Sport TV, custou 13 milhões de euros para dois anos, mas o canal por cabo arrecadou para si a maior fatia das transmissões televisivas. No momento em que a bola começa a rolar, as televisões afinam a táctica...
28 de Agosto de 2004 às 00:00
O espectáculo do futebol está de regresso à televisão e, nesta temporada, a TVI ganhou a corrida para a transmissão de um jogo por jornada. Após seis anos de hegemonia, em que a televisão pública obteve a exclusividade da transmissão dos jogos do Campeonato Nacional, cabe agora à estação de Queluz de Baixo assegurar os 33 jogos que serão transmitidos em sinal aberto, todos eles envolvendo um dos três grandes clubes portugueses, Benfica, Sporting e Porto. Estes serão, aliás, os únicos duelos que a esmagadora maioria dos portugueses poderá acompanhar, já que todos os outros serão emitidos na Sport TV, canal codificado de desporto na televisão por cabo.
A SIC e a RTP também estavam nesta corrida, no entanto a proposta da Media Capital, proprietária da TVI, que pagou 13 milhões de euros para as duas épocas, superou as concorrentes. Um valor superior ao que a RTP estava disposta a pagar, cerca de cinco milhões de euros por temporada, de acordo com a informação prestada à imprensa por Luís Marques, administrador do operador público de televisão.
Quanto à SIC, os números da oferta não foram divulgados pela Impresa, a ‘holding’ de Balsemão que controla o canal, mas a Correio TV sabe que a proposta apresentada rondava também os cinco milhões de euros por época. “Fizemos uma oferta que levou em linha de conta as reais possibilidades de investimento publicitário e o que calculamos ser o real impacto das audiências dos jogos em causa, que são, como é sabido, a segunda escolha de cada jornada, feita após a Sport TV ter feito a primeira”, afirma o director de programas da estação, Manuel Fonseca. O responsável, que nunca escondeu as suas críticas à situação de monopólio em que a RTP se encontrava quanto à transmissão de jogos de futebol em sinal aberto, sublinha, que os valores deste acordo continuam “inflacionados” pelo cenário até aqui existente.
Uma opinião contrária à defendida pelo presidente da Media Capital, que, em declarações ao ‘Diário de Notícias’, considerou os valores avançados “compatíveis com a situação do mercado televisivo actual”. Miguel Paes do Amaral referiu ainda que este acordo é “estratégico porque permite à TVI atingir ‘targets’ que não atingia”.
NOVOS PÚBLICOS
A verdade é que esta ‘vitória’ contratual assegura à TVI a entrada num novo segmento de público, até aqui pouco ligado à estação, e que poderá permitir uma subida das audiências. Até agora, a sua programação tem sido marcada por uma aposta clara na ficção de produção nacional, mas a perda da liderança, a favor da SIC, pode orientar uma reformulação da grelha.
Apesar do novo trunfo, o director geral José Eduardo Moniz não se manifestou disponível, ao longo das últimas duas semanas, para falar à reportagem da Correio TV, delegando no porta-voz da estação qualquer comentário. De qualquer forma, o próprio Paes do Amaral reconhece que o futebol não afectará a oferta do horário nobre do canal, uma vez que vai exibir apenas um jogo semanal, mas, reconhece que a estação “vai aproveitar bem o novo conteúdo”.
“A nossa grelha de programação foi estruturada de uma outra forma, mas nunca escondemos que o futebol era um produto apetecível, apesar de não dependermos dele como outros dependem”, referiu o patrão da estação, em recente entrevista à Correio TV.
A ligação da TVI ao futebol não é, aliás, de agora. A Media Capital chegou mesmo a integrar o capital social da Sociedade Anónima Desportiva (SAD) da União de Leiria, num negócio que não teve o retorno financeiro esperado. Nos últimos três anos, a TVI, ao abrigo desse investimento, transmitiu os jogos em casa da União frente aos três grandes do futebol, numa espécie de balão de ensaio para o acordo agora assinado com a Sport TV.
APOSTA NA DIVERSIDADE
Quem parece não estar preocupado com este ‘reforço’ de peso da TVI é a sua rival de Carnaxide. O director de programas diz-se “preparado para todos os cenários”. “Na nossa estratégia de programação a possibilidade da Liga ser difundida pela TVI está devidamente contemplada.” O caminho é conhecido e o responsável pela programação traça-o de forma definida: “O objectivo que perseguimos é o de diversificar ainda mais a nossa programação, que já é a que maior diversidade apresenta em Portugal”.
No entanto, a SIC “não desiste de ter futebol”. “Vamos centrar as nossas ofertas noutras competições”, garante Manuel Fonseca.
E a RTP? Como vai a televisão pública suportar o fim do futebol português na sua grelha, depois de tantas alegrias que aquele produto lhe deu ao longo dos últimos anos? A resposta é dada por Nuno Santos, director-adjunto de programas da estação: “Uma coisa é certa, não vamos desiludir os espectadores. É um facto que a RTP queria os jogos da SuperLiga mas preparámo-nos para todos os cenários. Por isso, não lhe atribuímos uma importância especial. Este ano, e dadas as restrições colocadas pelo detentor dos direitos, o pacote também era menos interessante”, afirma. O responsável esclarece, contudo, que esta mudança de cenário “significa uma oportunidade que a empresa não vai desperdiçar”. “Permite, por exemplo, que diversifiquemos ainda mais a nossa programação, captando novos públicos, e que encontremos novas abordagens ao fenómeno desportivo.”
Realçando que “o futebol sempre fez tradicionalmente parte das linhas estruturantes da programação dos operadores de serviço público”, Nuno Santos revela que a prioridade da RTP para este ano “era acompanhar as selecções nacionais”. “Esse objectivo está alcançado”, garante, acrescentando que a televisão pública dispõe ainda do exclusivo da Liga dos Campeões.
À ESPERA DO SALTO
Quem espera lucrar com a nova temporada futebolística que hoje começa é a Sport TV, que no próximo mês de Setembro entra no seu sétimo ano de vida. Com a transmissão de quatro jogos por fim-de-semana e o exclusivo dos clássicos entre os três grandes, o canal espera atingir a marca mítica do meio milhão de subscritores, um valor para o qual faltam escassas dezenas de milhar.
“Com esta grande aposta no futebol, quer da SuperLiga, quer das melhores ligas internacionais (Itália, Espanha e Inglaterra), esperamos continuar a crescer, como o temos vindo a fazer”, refere o director do canal, Nuno Ferreira. “Temos a marca dos 500 mil assinantes e acreditamos que será ultrapassada rapidamente, com a oferta do que há de melhor no futebol mundial”, acrescentou.
Miguel Prates, chefe de redacção da Sport TV confirma à Correio TV “que uma das armas mais fortes é precisamente o futebol e a possibilidade de entrar em espaços privados e públicos, onde muita gente assiste às transmissões, é importante.” “A exclusividade destes jogos é um passo muito importante para o canal, para garantir a sua consolidação, e até para conquistar novos assinantes”, defende Miguel Prates, apesar de reconhecer, no entanto, que o maior salto vai ser dado no satélite.
FUTEBOL ESPECTÁCULO
Transformar o futebol num verdadeiro espectáculo de televisão é agora um dos grandes desafios que se coloca aos operadores. Bessa Tavares, ex-director-geral da Sport TV e actual administrador do canal codificado, esclarece que “a colaboração com a TVI vai no sentido de encontrar um padrão de elevada qualidade para as transmissões”.
“Os portugueses já conhecem a TVI e sabem a qualidade das nossas transmissões, portanto, não vamos inventar nada”, afirma à Correio TV o editor de desporto do canal. Luís Sobral lembra “as últimas finais da Taça de Portugal e a inauguração do Estádio da Luz como exemplos de espectáculo futebolístico que a TVI foi capaz de criar”.
“Nós temos uma marca importante, procuramos transformar o futebol em mais do que um simples jogo. Aliás, eu convidava as pessoas a lembrarem-se quem foram os comentadores da TVI no Euro’2004. Assim se percebe o cuidado que nós temos na selecção dos nossos especialistas”, sublinha, citando os exemplos de José Mourinho, Toni e Vítor Baía.
Para o director de programas da SIC, Manuel Fonseca, o problema não está só na cobertura televisiva dos jogos de futebol do campeonato português. “Idealmente, o futebol é um espectáculo fantástico, mas é preciso que o centro do espectáculo seja o jogo jogado e não os árbitros e as estéreis polémicas dos dirigentes; é preciso, em suma, que os estádios estejam cheios e que os grandes jogadores não fujam para o estrangeiro”, observa.
AS PRIMEIRAS EMOÇÕES
Sábado
19h15: BELENENSES – MARÍTIMO
21H15: SPORTING – GIL VICENTE
Domingo
18H00: BOAVISTA – NACIONAL
20h30: BEIRA MAR – BENFICA
Segunda-feira
20h30: ACADÉMICA – BRAGA
UMA QUESTÃO DE PREÇO
A transmissão dos 33 jogos da SuperLiga vai custar à TVI seis milhões de euros por época desportiva, de acordo com o comunicado oficial da Media Capital, empresa cotada em bolsa e proprietária da estação.
Estes, porém, são os custos directos, a que acrescem mais 500 mil euros por época pelos direitos de transmissão em sinal aberto dos resumos de todos os jogos. O contrato é válido por dois anos, o que perfaz um valor total de 13 milhões de euros, cerca de 2,6 milhões de contos.
Segundo o grupo de Paes do Amaral, cada jogo custará à estação 181,8 mil euros, ou seja, pouco mais de 36 mil contos por partida. No entanto, o valor suscita muitas dúvidas à RTP. Nuno Santos afirma que “é agora imprescindível entender todas as vertentes do acordo”. “O que foi entregue à Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) não contempla valores de produção nem ‘cross-promotion’, só para citar dois exemplos”, revela. Também o presidente do conselho de administração da televisão pública, Almerindo Marques, quer saber todos os dados do processo.
De acordo com o ‘Jornal de Negócios’ de quarta-feira, o ‘patrão’ da RTP’ quer que a Alta Autoridade para a Comunicação Social esclareça quais os verdadeiros números do negócio. Em causa, segundo aquele diário, estarão compromissos assumidos pela TVI junto da Sport TV de adquirir 600 mil euros em produção de eventos ao canal desportivo e ainda ceder espaço de promoção no valor de um milhão de euros.
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