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Correio da Manhã

Tv Media
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O sentido da televisão pública

A RTP permanece um projecto híbrido no balançar dos governos entre o interesse público e a vertigem da propaganda.
19 de Maio de 2006 às 00:00
O sentido da televisão pública
O sentido da televisão pública
Incapazes de optar entre o interesse público que lhes cabe prosseguir e o interesse do público que não resistem assegurar na antena que dominam – para maior eficácia dos dóceis alinhamentos dos telejornais (em especial o da tarde), onde mostram obra ou botam discurso os ministros em queda – os sucessivos governos mantêm a RTP um projecto híbrido, a meio caminho do que foi no tempo de Jose Eduardo Moniz – uma ávida devoradora de audiências–, e o que deveria ser: o farol da qualidade da produção nacional, da informação à ficção, do humor ao desporto.
Quando, há dias, com pompa e circunstância, a RTP anunciou um espaço de “grande reportagem”, que terá 15 minutos, o analista ainda pensou que estava perante mais uma promoção dos Gato Fedorento. Mas não, a coisa era mesmo a sério. Assim, quatro bons jornalistas e um qualificado coordenador vão todos trabalhar para um espaço que terá 15 minutos semanais?
O anúncio, para lá de demagógico, é uma confissão pública de má gestão. A RTP é uma manta de retalhos com novelas brasileiras e programas de entretenimento – o de Fernando Mendes é o exemplo máximo – sem qualquer cabimento num canal público. Mas é também na RTP que o humor inteligente tem lugar (os Gato e Aldo Lima, são espaços de aplaudir e sem recuo) sendo igualmente aceitável a presença de concursos sobre cultura geral – paupérrimos em comparação com os de há décadas. Mas não é só o escandaloso controlo político que faz da RTP o que não devia ser. A sua dupla via de financiamento – dinheiro público publicidade – faz o resto para manter o canal público na senda da competição estéril com os privados. Uma competição sem sentido quando o que deve prosseguir é a excelência do serviço público na tv. Sem concessões ao populismo das escravas isauras, merches e outras vacuidades.
Sem filmes com bolinha gratuita. Sem futebol de clubes – a não ser em finais com portugueses presentes. Esta RTP que deveria ser pressupõe a atitude corajosa de prescindir da publicidade e privatizar a 2: deixando para o mercado os 50 milhões que a RTP assim capta. É também sem sentido o projecto público de televisão no cabo.
Afinal caberá a qualquer governo bondoso dar cumprimento ao que Morais Sarmento chegou a projectar antes de colocar na RTP os homens que o PS aí deixa eternizar como penhor dos boys que espalha por outras áreas da economia.
ATRÁS DAS CÂMARAS
POSITIVO: NUNO FERREIRA (SPORT TV)
Avançou para a restruturação da Redacção e dos conteúdos aos primeiros sinais de retracção do mercado. Mostra respeito pelo cliente num canal que poderia dormir à sombra dos direitos adquridos.
POSITIVO: FILIPE TERRUTA (TVI)
Um dos mais criativos comunicadores invisíveis da tv portuguesa. Depois das boas reformas gráficas na linha da Informação, chega agora à realização de Maxmen. Linguagem cuidada e ousada.
NEGATIVO: AZEREDO LOPES (ERC)
A ERC(S) intervém na área de televisão deixando o célebre ‘Diácono Remédios’ a milhas do fundamentalismo e falta de sentido de humor já demonstrados. A luta é pela tv a preto e branco?
À FRENTE DAS CÂMARAS
POSITIVO: CLARA DE SOUSA (SIC)
Profissional segura, Clara dá credibilidade às notícias que lança. A voz grave e o autocontrolo numa beleza sóbria põe Clara a caminho do topo. Falta apenas um pouco mais de ritmo nas sílabas.
NEGATIVO: SORAIA CHAVES (SIC)
Nem mesmo ela pode ser boa em tudo. A gala do CNID deixou a nú as limitações desta forma de ficção sem substância para directos. Confundir “teatro” com triatlo foi a gaffe de uma noite má.
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