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Correio da Manhã

Tv Media
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O SOL DA MEIA-NOITE

Aos 23 anos de idade, foi ‘topado’ por José Viana no Maxim’s de Lisboa. Pouco depois, coube a Vasco Morgado a descoberta do novo talento que despontava para os palcos. Na TV, a popularidade explodiu quando chegou 1969.
5 de Dezembro de 2002 às 19:26
Cinquenta anos de uma vida cheia

Em 1952, um diligente jovem que ajudava o pai numa pequena fábrica de escovas, fez a sua estreia num espectáculo nocturno no Maxim’s em Lisboa. Evidenciava, certamente, algum talento, pois José Viana não lhe teria dirigido o convite que lhe mudou a vida se não tivesse notado nele uma qualquer centelha. Passados 50 anos, Raul Solnado é objecto de uma homenagem significativa, da parte de uma estação televisiva a quem deu programas inovadores e muitas audiências, no tempo em que estas não se traduziam em números, mas em popularidade.

Longo caminho, o que Raul Solnado percorreu até hoje. Da estreia no espectáculo “O Sol da Meia-Noite” passou para o palco do Teatro Monumental, a convite do empresário Vasco Morgado, que o viu no Maxim’s. E nunca mais parou. Poderemos ver muita coisa que o talentoso Solnado fez neste meio século no programa “Raul Solnado – 50 Anos de Carreira”, que hoje a RTP1 exibe, e amanhã a RTP2 repõe, mas não convém deixar passar em branco outra data essencial. Solnado estreou--se na TV em 1957. “Fiz o primeiro programa de variedades na TV, no próprio dia de início das emissões”, recorda hoje. Actuaram nesse espectáculo que Solnado apresentou os cantores Rui de Mascarenhas e Maria de Lurdes Resende, assim como o conjunto os Paraguaios.

Esses primeiros tempos da TV eram os do período de predominância teatral da carreira do jovem actor. “Fazia pouca televisão, e era tudo em directo”, recorda. O seu nome atingiu o cume da popularidade na década seguinte, quando a rádio começou a passar os hilariantes monólogos que o celebrizaram. A divertida “A Guerra de 1908” constituiu o registo sonoro de uma sua prestação na revista “Bate o Pé” no Teatro Maria Vitória em 1961. Os discos — de vinil, obviamente – vendiam-se como pãezinhos quentes. No Brasil, ocupou então os primeiros lugares de vendas durante semanas e semanas.

Em 1969 foi na TV que o seu nome atingiu de novo os píncaros da fama. E houve mais, nos anos 70, com o memorável concurso “A Visita da Cornélia” (ver caixas). Na presente semana é tempo de homenagem. Na terça-feira, dia 10, Solnado é agraciado com a Medalha de Lisboa pelo presidente da municipalidade, Santana Lopes. E um busto seu irá ser inaugurado, em data a anunciar, nos jardins do Museu do Teatro. Projectos televisivos para o futuro? “Este tipo de televisão não é a minha, não entro em lutas por audiências”, diz-nos o homenageado, referindo-se aos tempos de hoje. E acrescenta: “Nunca depois do Zip-Zip” alguém me perguntou se queria fazer algum programa de TV”. Solnado, o sol da meia-noite.

Um achado intitulado “Zip-Zip”

“Zip-Zip” foi um achado. “Aproveitámos a abertura de Marcelo Caetano e trouxemos o povo à televisão, o que aconteceu pela primeira vez”, afirma Raul Solnado sobre o seu primeiro grande êxito telivisivo, que aconteceu em 1969. Foi a primeira vez que o telespectador português viu um “talk show”, uma autêntica lufada de ar fresco num País em que a censura impunha normas drásticas a tudo o que ia para o ar. Entrevistas, interpretações musicais, ‘sketches’ humorísticos, tudo isso se misturava num programa único, que fazia as delícias de um público ávido de frescura e diversidade.

Todas as segundas-feiras, a partir de 26 de Maio de 1969, Raul Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz davam um autêntico espectáculo televisivo, entrevistando quer grandes figuras da arte portuguesa – Almada Negreiros foi uma delas – quer simples cidadãos, que assim saiam inesperadamente do anonimato. O “talk show” era cuidadosamente observado por um fiscal da censura durante as gravações. As cenas e afirmações que não agradavam ao regime eram cortadas, de modo a garantir que na segunda-feira seguinte o telespectador visse apenas aquilo que o regime queria.

“Zip-Zip” terminou no fim de 1969, mais precisamente em 29 de Dezembro. Raul Solnado fazia então dois espectáculos por dia. Ao sábado era a lufa-lufa das gravações do “Zip-Zip” no Teatro Villaret, realizadas sem ensaio prévio. Na TV participava nas entrevistas e fazia, também, rábulas, que eram muito apreciadas pelo público. A seguir, rumava ao teatro. Mas “Zip-Zip” tinha que ter um fim. “Queríamos que o programa não cansasse”, revela hoje Solnado. Os protagonistas concluíram que estava na altura certa de dar por finda uma experiência que se encontrava em plena fase de êxito. Solnado “inventou” o concurso “A Visita da Cornélia”, juntamente com Fialho Gouveia, durante um jantar. A vaquinha Cornélia, que ajudava Raul Solnado a manter a animação no concurso “A Visita da Cornélia”, exibido pela RTP em 1977, estava inicialmente para se chamar Margarida. Mas como em Portugal há muitas Margaridas, teve que ser escolhido outro nome, para não ferir susceptibilidades.

Solnado conta-nos esta curiosidade sabendo do que fala. De facto, a ideia de “A Visita da Cornélia”, um concurso em que pela primeira vez os participantes eram convidados a fazer prova da sua habilidade nas artes da representação e da interpretação musical, brotou do próprio Raul Solnado, em conjunto com Fialho Gouveia. Foi durante um jantar num conhecido restaurante lisboeta, “O Polícia”, conforme Solnado recorda hoje, que os dois conhecidos apresentadores televisivos cozinharam “o esquema do programa”. Os resultados da confecção revelaram-se brilhantes. A qualidade e talento de alguns dos participantes foi de tal ordem que os telespectadores falavam durante toda a semana no episódio anterior e não dispensavam a exibição do seguinte.

Segundo Solnado, a ideia surgiu pela necessidade, sentida por ele próprio e por Fialho Gouveia, de “fazer um programa que incentivasse o convívio da generalidade das pessoas”. Desejavam ambos criar um produto televisivo que pudesse constituir um virar de página sobre as feridas abertas pelos tempestuosos acontecimentos políticos de 1974-5. “Cumprimos os nossos objectivos”, conclui hoje Solnado, cujas rábulas com a vaquinha Cornélia constituíam uma das mais-valias do inspirado programa.

Antes do arranque, o título do concurso constituía um verdadeiro problema. Solnado não se recorda hoje como surgiu o nome de Cornélia para substituir o de Margarida. “Foi ao calhas!”, arrisca. E conta que uma vez, quando o concurso já estava em exibição, foi interpelado por uma alemã que vivia no Porto, que lhe disse: “O senhor mudou a minha vida!” O nome dela: Cornélia. Estava bem disposta e muito feliz por ter o nome de uma personagem muito popular de um programa muito popular, apresentado por um actor muito popular. Em “A Visita da Cornélia”, o apresentador mantinha um diálogo muito animado com uma vaquinha.
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