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Correio da Manhã

Tv Media
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Olé, ou o autismo dos serviços de notícias no cabo

Os dois canais portugueses de informação trataram a pontapé um directo relevante da política nacional.
Octávio Ribeiro(octavioribeiro@cmjornal.pt) 1 de Dezembro de 2006 às 00:00
Último sábado pelo final da manhã. Em Badajoz, os dois líderes executivos dos dois Estados soberanos da Península preparam-se para os discursos com que se finaliza mais uma Cimeira Ibérica. Primeiro Zapatero. Durante largos minutos, o primeiro-ministro espanhol faz a sua parte do balanço da estratégia comum acertada.
Muitos dos portugueses que se interessam por ‘estas coisas da política’ puderam seguir o discurso de Zapatero de fio a pavio. Depois, o espanhol passa a palavra ao português. José Sócrates pega noutro tema igualmente interessante.
Mas, ao fim de poucos minutos, Sócrates é tirado do ar. O pivô pega na emissão que segue alinhamento.
Acredite, caro leitor: a estação de televisão que deu todo o discurso de Zapatero e cortou o de José Sócrates não emite desde Espanha. É um canal por cabo, português e dá-se pela marca de SIC Notícias. Irritado, procurei asilo na RTPN. Ao menos esta estaria a dar as conclusões do primeiro-ministro de Portugal, no final de uma importante cimeira, já na contagem decrescente para a presidência europeia portuguesa. Mas não, caro leitor. Na RTPN, nada. O canal por cabo da televisão pública emitia uma certamente incontornável prova de automobilismo.
A independência editorial dos projectos de informação é um múltiplo garante. Assegura aos cidadãos o direito à informação, essencial em democracia, e, pela eleição dos consumidores, garante retorno aos investidores.
Mas a independência não deve ser confundida com autismo. Para um canal de notícias português, que chega por cabo – serviço pago – aos consumidores, a opção de cortar o discurso de José Sócrates sobre as conclusões de uma Cimeira Ibérica, sem que outro facto presente o justifique, é uma bizarria. Pior ainda são os carros a esmagar as notícias num canal de gestão pública.
ATRÁS DAS CÂMARAS
NEGATIVO: AUGUSTO SANTOS SILVA
O anteprojecto da proposta de Lei da Televisão reforça o intervencionismo do poder público sobre o sensível sector. Com a sua visão controleira, Santos Silva conseguiu mesmo algo de inédito na era Sócrates: até Emídio Rangel zurziu forte num projecto político deste Governo. O que se percebe de Santos Silva é que o ministro não percebe os vasos comunicantes que este mercado cultiva como nenhum outro. Aqui, muda-se de fornecedor com um simples clique. Aqui, o inesperado acontece ao ritmo do mundo. Aqui, quando um programador muda um programa, fá-lo sempre para tentar servir melhor, para obter mais público. Claro que ‘melhor’, aqui, é muito discutível. Porém, muito democrático. Aferido dia a dia, ao minuto.
O ministro não toca na RTP e na sua excessiva dispersão de canais como deveria. E pretende impor regras cada vez mais asfixiantes a um mercado concorrencial onde o papel regulado do Estado se deve fazer pela oferta distintiva da televisão pública e pelo incentivo à concorrência que adviria de mais um canal privado. O resto cabe ao mercado e aos tribunais.
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