Luís Costa Ribas, correspondente em Washington da SIC e da TSF, acompanha a realidade norte-americana há 20 anos. O jornalista acredita que os EUA ainda são a terra das oportunidades, admira Dan Rather e confessa que irá votar em John Kerry nas próximas eleições presidenciais. Em entrevista à Correio TV, recorda alguns dos momentos mais marcantes da sua carreira e fala sobre a televisão nos EUA
Há quanto tempo vive nos EUA e em que órgãos de comunicação trabalhou desde então?
Fui para os EUA há vinte anos, trabalhar para a Rádio Voz da América, a emissora oficial norte-americana. Era já correspondente deles em Lisboa, mas apeteceu--me experimentar outros ares. Fui editor da divisão dos PALOP’s da rádio. Entretanto, quando a TSF começou, em 1988, foi convidado para ser correspondente, e em 1992, quando a SIC arrancou, passei a ser também correspondente da SIC.
Tinha um interesse especial pela sociedade e pela cultura norte-americana antes de partir para lá?
Os Estados Unidos eram, nos anos 80, ainda mais do que hoje, o país das oportunidades. Na altura, a diferença entre Portugal e a América era dramática. Antes de ir para lá, já tinha trabalhado no ‘Século’, na Rádio Renascença, mas estava na altura de tentar algo mais arrojado. Foi isso que me motivou.
Em 20 anos de estada nos Estados Unidos, já viveu seguramente muitos momentos emocionantes…
Para além do momento óbvio, o 11 de Setembro, que redefiniu o carácter político e social da América, um dos momentos mais fascinantes para mim foi uma entrevista para a SIC com Salman Rushdie, em 1998. Já entrevistei muita gente, desde senadores a congressistas, a actores como Richard Gere e Robin Williams, mas nenhum deles tão interessante como Salman Rushdie.
Julgo que por viver isolado do resto do mundo, ele tem um prazer enorme em estar com pessoas e conversar. Outro dos momentos interessantes foi a cobertura da cimeira entre Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev, em 1987, durante a Guerra- -fria, no qual assinaram um tratado de redução de armamento nuclear. Foi um momento fascinante, vimos ali o degelo entre as superpotências.
E o povo americano sentia a importância de acontecimentos como esse?
Sim. É difícil para esta geração imaginar o peso da rivalidade entre EUA e União Soviética nessa época. As pessoas sentiam que das decisões tomadas nas cimeiras podia depender uma guerra nuclear e o fim da humanidade. Ainda hoje tenho dificuldade em aceitar o jornalismo cor-de-rosa por ter chegado aos EUA no auge da Guerra-fria, quando havia a ameaça de guerra nuclear, que me levou a concluir que o jornalismo é uma coisa muito séria.
OS DIAS DO PÂNICO
Naturalmente não podemos fugir ao 11 de Setembro… O que recorda desse dia?
Estava ainda em casa e, como faço todas as manhãs, liguei o televisor na CNN. Estava a olhar para o ecrã e vi uma das Torres Gémeas a arder e fiquei intrigado. Embora haja três aeroportos em Nova Iorque, nenhum deles é tão próximo que um avião tivesse que passar perto das torres. Nas horas seguintes começaram a surgir rumores. Naquela altura ninguém sabia ao certo o que ia acontecer. Washington estava a ser evacuada. Lembro-me de telefonar à minha mulher, que trabalha perto do Pentágono, e dizer-lhe para ela sair dali. Durante o telefonema ouvimos o ruído da explosão do avião que embateu contra o Pentágono.
O que mais o marcou no 11 de Setembro?
Ao fim da tarde, quando vi na CNN ser anunciado o regresso do Presidente dos Estados Unidos. Lembro-me de olhar para o relógio e pensar para mim, o Presidente anda há dez horas fugido dos terroristas, no avião Air Force One. Mais do que o choque em Nova Iorque e Washington, marcou-me o facto dos terroristas porem em fuga o Presidente americano. Foi um atentado à soberania dos Estados Unidos.
Depois do conflito no Iraque e da guerra movida pelos EUA ao terrorismo, fazer a cobertura das movimentações políticas em Washington tornou-se difícil para um jornalista estrangeiro?
Com a administração Bush, e depois com o 11 de Setembro, tornou-se muito mais difícil o acesso dos jornalistas estrangeiros à informação. Embora eu tenha amigos e fontes no Congresso, eles foram encarregues de tarefas de tal maneira confidenciais que nem podiam falar comigo por eu ser jornalista.
CAMPANHA “SUJA”
Como caracteriza a actual campanha eleitoral para as eleições presidenciais nos Estados Unidos?
Esta é a campanha eleitoral mais suja deste século e do anterior. Até ao final de Maio, na campanha de Bush, o total de ‘spots’ televisivos contra John Kerry era de 49 mil. Só por causa do ímpeto da campanha de Bush e da ideia de que, se as coisas não mudarem, ele vai ganhar, muitas pessoas estão a mudar para Bush para ficarem do lado do vencedor.
Acha que Bush vai ser reeleito?
Eu sou insuspeito porque vou votar em John Kerry, mas julgo que, muito dificilmente, Bush perderá as eleições. E tudo graças ao trabalho da sua equipa de propaganda, que fez um ataque cerrado a Kerry.
Disse que vai votar, portanto tem cidadania norte-americana?
Tenho dupla nacionalidade, porque acho que se vivo num país tenho de votar lá.
Na Europa, George W. Bush tem uma imagem bastante negativa. Como é que os norte-americanos o vêem?
Os americanos gostam de um Presidente que seja como eles, enquanto aqui na Europa se valoriza um Presidente ou primeiro-ministro com uma certa cultura e uma competência acima da média. Bush tem um número muito grande de apoiantes entre os homens, porque ele, enquanto estudante, faltava às aulas, embebedava-se, andava em festas. Era como os outros. Kerry não tem tanta empatia com os americanos. A última vez que um presidente foi eleito, sendo antipático, foi com Nixon…
Qual é a opinião da comunidade portuguesa nos EUA sobre o actual Presidente?
A comunidade portuguesa na costa Leste, os açorianos e os continentais, são Democratas. Na costa Oeste, os madeirenses, são Republicanos.
E o facto de John Kerry ser casado com a luso-descendente Teresa Heinz, não teve influência sobre os emigrantes portugueses?
Resultou pouco. Teresa Heinz não se assume como portuguesa e nunca viveu em Portugal. Ela nasceu em Lourenço Marques, foi estudar para a Suíça, e depois foi para os Estados Unidos, por isso a ligação dela com o País é ténue. Nós entusiasmamo-
-nos muito mais com isto do que ela.
TV AMERICANIZADA
Quais as principais diferenças entre a televisão norte-americana e a portuguesa?
Há cada vez menos, porque a nossa televisão imita a americana. Muitos dos programas, como os ‘reality shows’, vêm dos EUA. Mas julgo que a principal diferença é o facto das televisões norte-americanas terem muito mais dinheiro, um mercado maior, e terem mais poder junto da opinião pública.
O ‘infotainment’, a televisão espectáculo, desempenha um papel tão importante para o público norte-americano como se crê?
Num país com cem mil jornais e revistas, mais de mil estações de televisão, centenas de canais por cabo e satélite, todas as realidades se encontram representadas. O que é preciso perceber em relação aos Estados Unidos é que são uma espécie de quartel-general da humanidade. Nos EUA existe tudo o que há de melhor e pior no mundo. É difícil encontrar um denominador comum, porque é um sítio com tantos contrastes, tantas diferenças, tantas etnias. Apesar das desigualdades, há uma capacidade de alcançar os objectivos básicos maior do que em outros países. É por isso que as pessoas vão para lá e é por isso que há uma relativa paz social. Cerca de dez por cento dos norte-americanos são considerados pobres, mas um pobre americano vive muito melhor do que um pobre colombiano. Os pobres americanos têm um carro em terceira mão…
Há alguma figura na televisão norte--americana pela qual tenha particular admiração?
O Dan Rather, da CBS, apesar de ele agora estar em apuros. Em 1985, numa sondagem sobre a personalidade norte-americana com maior credibilidade Dan Rather ficou em primeiro lugar, com 81 por cento, e Ronald Reagan aparecia a meio da tabela com 50 por cento. Dos grandes pivôs, Dan Rather foi aquele que cedeu menos ao ‘infotainment’.
AFASTADO DA COMUNIDADE PORTUGUESA
A adaptação à realidade norte-americana foi difícil? Que dificuldades encontrou?
Vai-se tornando mais fácil, conforme vamos aprendendo. Julgo que por ter lá tirado um curso de Ciência Política, compreendi melhor o sistema político. E como já fui casado com uma americana, isso ajudou-me a entrar na sociedade através da vivência familiar. Vivi sempre muito afastado da comunidade portuguesa, porque achei que não valia a pena ir para a América e, ao mesmo tempo, ficar em Portugal.
Suponho que conhece bem os EUA. Qual a cidade que prefere?
Para visitar, prefiro Nova Orleães, para viver, Washington. Não gostaria de viver em Nova Iorque, porque tem um nível de stresse muito elevado, mas é uma cidade espantosa para visitar. Quanto a Nova Orleães, é a cidade da farra por excelência. Eles são conservadores politicamente, mas não socialmente. Também gosto da Florida e da Califórnia, onde há sempre sol. Há muitas Américas diferentes, há América da praia, a da montanha, a do interior...
Qual é o ambiente que se vive Washington?
Washington tem um ambiente um pouco pesado, é a capital, tem muitos políticos, muitas embaixadas. Por isso, eu não vivo na cidade, vivo nos arredores, numa zona com árvores. Trabalho na Washington política, mas vou para casa fora dela. Para ter uma vida normal, prefiro manter os dois mundos separados.
Quando não está a trabalhar, o que faz?
Pratico artes marciais, sou cinturão negro de Hapkido, gosto de andar de bicicleta nos parques, ando a cavalo quando posso. Comecei a fazer ‘snowboard’ com o meu filho nas montanhas de Washington. Também gosto de desporto. Gosto de futebol americano, sou adepto dos Redskins de Washington, gosto de ver basebol, sou fã dos Orioles de Baltimore, porque em Washington não há equipa de basebol, mas também gosto do nosso futebol. Essencialmente, gosto de desporto e do ar livre.
AS ELEIÇÕES AMERICANS: ‘BUSH ARRASOU A IMAGEM DE JOHN KERRY’
As presidenciais norte-americanas são realmente o espectáculo televisivo que aparentam ser?
Sem televisão não é possível chegar a um eleitorado de quase 300 milhões de pessoas. Mas o que não há na televisão americana é tempo de antena grátis e as campanhas têm de comprar espaço televisivo e produzir ‘spots’.
Esses ‘spots’ são encarados como uma forte arma nas campanhas…
Claro que sim. Há uma indústria de produção de publicidade política. Tem sido através dela que o Bush arrasou a imagem de John Kerry. Bush tem a melhor equipa de propaganda política que vi nas seis eleições presidenciais que acompanhei nos EUA. Até aqui destacava-se a de Ronald Reagan, mas Reagan era um homem mais fácil de vender politicamente do que Bush, tinha mais prestígio. Depois de todas as asneiras feitas no Iraque, depois de se ter provado não haver armas de destruição massiva, depois das pessoas terem sido ludibriadas em relação aos custos da guerra, há a possibilidade muito real de Bush ser eleito, e isso foi um trabalho brilhante da equipa de propaganda política. Kerry não está à frente porque não atacou Bush o suficiente.
O que é que levou Kerry a adoptar uma estratégia menos agressiva?
Julgo que os seus conselheiros olharam para as sondagens que indicam que o eleitorado está farto de campanhas negativas. O eleitorado diz isso, mas vota sempre em quem ataca mais. Em última análise, o tipo que dá os golpes mais baixos, com mais força, ganha.
DE COSTAS VOLTADAS PARA O MUNDO
Os norte-americanos não têm grande noção da realidade do mundo fora das suas fronteiras...
É verdade que o norte-americano não está tão desperto para o mundo como nós, mas a distância que separa Nova Iorque de Los Angeles é a mesma que entre Lisboa e Moscovo. Eu posso ir de Nova Iorque a Los Angeles falando uma única língua e havendo uma cultura que, sendo diferenciada, tem uma linha comum. A televisão tem uma relação simbiótica com os fenómenos sociais, influenciam-se mutuamente. Não creio que os americanos liguem menos importância ao mundo por causa da televisão. Mas se o resto do mundo não vende e não dá audiências, a televisão ignora o resto do mundo.
Considera que este afastamento se irá perpetuar, ou há uma tendência para os americanos se aproximarem da Europa e do resto do mundo?
O Presidente George W. Bush veio acentuar o isolacionismo do governo americano. Se Bush for reeleito isto ainda vai piorar. Se Kerry for eleito, haverá uma mudança progressiva, uma maior cooperação com a comunidade internacional.
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