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Correio da Manhã

Tv Media
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OS REALITY SHOWS SÃO UM ESPELHO DA SOCIEDADE

As novas gerações conhecem Artur Agostinho como actor de ficção nacional, mas não há em Portugal alguém com uma carreira tão longa e diversificada nos mundos da comunicação social e do espectáculo. Aos 84 anos, que completa no próximo Dia de Natal, Artur Agostinho mantém a lucidez crítica de quem conhece a televisão por dentro e por fora…
4 de Dezembro de 2004 às 00:00
Artur Agostinho
Artur Agostinho FOTO: Sérgio Lemos
Se tivesse a responsabilidade de numa televisão fazer uma grelha de programas sem estar subordinado às preocupações de audiências…
Era despedido no dia seguinte! (gargalhada)
Que programas é que privilegiaria no horário nobre?
Isso é muito complicado. Está-me a falar duma estação pública ou privada?
É uma situação ideal. Sem preocupação com as audiências.
Acho que para se fazer uma grelha é preciso uma equipa a trabalhar e a ponderar uma série de coisas. O horário nobre é complicado, mas devia ser diversificado com uma boa ementa – diferentes ingredientes em doses lógicas, normais, para que a pessoa pudesse escolher. Sei que isto é complicado, é idealista, mas deveria haver uma concertação entre as várias televisões, de tempo e de dias nos horários nobres, para que cada pessoa pudesse escolher esta ou aquela estação.
Quando apareceram as televisões privadas, aconteceu nos primeiros tempos alguma diversidade…
Acontece que a RTP nessa altura se esqueceu de que era serviço público e quis imitar – e mal – as televisões privadas, particularmente a SIC, que apareceu a revolucionar a forma de fazer televisão. Um grande equívoco, que hoje me parece estarem a tentar rectificar na RTP.
“ACEITO OS REALITY SHOWS”
O que pensa dos ‘reality shows’, nomeadamente de ‘Quinta das Celebridades’, que está no ar?
Alguns participantes são excelentes actores e, portanto, fomentadores de audiências, cumprindo a tarefa que certamente a estação espera deles. Aceito os ‘reality shows’. Dentro de princípios de boa educação e civilidade, acho que são um espelho da sociedade. Não tenho visto muito, não porque não queira ver, pois só vendo é que posso ter opinião, mas já vi o suficiente. As pessoas, ao verem um ‘reality show’, começam a perceber o que são certas personalidades, que, muitas vezes, fingem aquilo que não são.
Portanto, gosta…
A ideia dos ‘reality shows’ é engraçada. Não gosto, no entanto, das expressões ‘celebridades’ e ‘famosos’. Está a criar-se a ideia de que ser famoso é ser malcriado, é dar uma bofetada noutro, é tratar mal o parceiro, é ser intriguista. A palavra ‘famoso’ generalizou-se. E celebridade também. Fala-se no célebre criminoso, no célebre ladrão, no célebre escroque, no célebre sábio, no célebre cientista… Há uma grande confusão na utilização destas duas palavras.
Acha que a televisão de hoje cumpre o seu papel social?
Não sei, é capaz de ser politicamente incorrecto dizer isto, mas acho que não. Talvez não tenham tempo para pensar em muito mais coisas para além das audiências, problema esse que eu compreendo em relação às televisões privadas, que têm de viver da publicidade, conquistada a partir das audiências. O que eu não aceito – e estou a fazer uma crítica objectiva à RTP – é que uma televisão pública não se preocupe acima de tudo com aquilo que dá às pessoas, com aquilo que quer e deve dizer às pessoas, aquilo que deve esclarecer as pessoas.
Mas há algum debate, nomeadamente na RTP…
A maioria dos problemas que se discutem no nosso país é constituída por coisas que as pessoas falam na rua e à mesa do café sem terem bases e conhecimento. Não é por serem burras, que elas não são burras. Eu espero que agora, antes de se realizar o referendo sobre a Europa, informem primeiro as pessoas. Estas não podem ir votar só porque gostam duns senhores com camisa azul, branca ou encarnada. Têm que fazê-lo conscientes daquilo em que vão votar.
“FALTA COMUNICAÇÃO!”
Não culpa, portanto, apenas a comunicação social…
Há uma grande falta de comunicação. O grande problema desta geração é o de não comunicar, não falar. ‘Ah! Falamos muito!’, dizem. Falam muito com o telemóvel, falam muito com a Internet, falam sozinhos! As pessoas não falam umas com as outras! E não se pode andar para a frente sem que as pessoas falem umas com as outras.
A televisão não tem a sua quota de responsabilidade por essa falta de comunicação?
Não! Vamos lá ser justos: em muitos aspectos, a televisão tem dado oportunidade, como nunca aconteceu, de as pessoas acederem à informação e dizer aquilo que pensam. O que não basta é perguntar a uma pessoa na rua se conhece Eça de Queiroz e depois de a pessoa responder: ‘Por acaso moro aqui há pouco tempo, não conheço!’, não se fazer nada. Isto não pode acontecer, porque falta dizer à pessoa: “Então venha cá, que vou ensinar-lhe quem é Eça de Queiroz”.
Como?
Não compete ao repórter fazê-lo, obviamente, compete aos responsáveis que ouvem isto, dizer: ‘Alto! Há qualquer coisa que não está a funcionar!’ Vamos ensinar às pessoas quem foi este e aquele e aqueloutro. Não se pode aceitar que as pessoas, hoje, não saibam que há muitos anos houve um homem que ia liquidando o Mundo chamado Hitler. Sabe-se pouco, sabe-se pouco de História, sabe-se pouco Português, há um défice de muitas coisas.
MEMÓRIAS
Quando fez a cobertura noticiosa de viagens de portugueses – figuras de Estado e equipas desportivas – ao estrangeiro gostaria de ter usado os meios de que hoje os jornalistas dispõem? Sentia-se constrangido pela censura?
Certamente! Fi-lo num tempo em que havia censura e em não havia fax nem telex. Era aquilo a que eu chamo ‘a TV do preto-e-branco, sem rede’. Mas gostava de ter os meios que hoje são facultados aos repórteres, designadamente o telemóvel.
Em 1954 foi numa reportagem a Moçambique e salvou-se por não ter seguido no avião que lhe estava destinado, que se despenhou. Anos mais tarde, o avião que o deixou em Nairobi caiu, minutos depois de ter levantado voo para prosseguir viagem. O ‘Dornier’ em que seguia, numa outra reportagem, em Quipedro (Angola), no início dos anos 60, bateu na copa dum embondeiro, desfez-se e o senhor escapou incólume. Acredita na Providência?
Não sofri nada. Estava escrito. Acredito na Providência!
“NÃO PEÇO NADA A NINGUÉM!”
Acabadas as gravações da série ‘Ana e os 7’ e editado o primeiro romance, ‘Os Abutres’, o que vem a seguir?
Não estou a fazer nada. O que dá mais certo é esperar que os projectos venham ter comigo. Não ando a pedir a ninguém para fazer nada, pode ser que apareça alguma coisa para me entreter.
Há poucos anos, disse que tinha algumas coisas na gaveta…
Disse que tinha perspectivado algumas coisas, mas os projectos que faço nunca não dão certo. Por exemplo, o romance que agora saiu, ‘Os Abutres’, comecei a escrevê-lo com a intenção de ser um guião televisivo para uma novela ou para uma série. Mas, de repente, percebi que não ia dar certo e decidi fazer um romance, porque nunca tinha feito.
“SEMPRE GOSTEI DE FAZER CONCURSOS”
Se estivesse no auge da sua carreira, que programa é que escolheria para apresentar ou representar na RTP de hoje?
Uma coisa que gostei sempre de fazer foi concursos. Hoje gostaria, por exemplo, de um concurso do tipo ‘Quem Quer Ser Milionário’…
E o ‘1,2,3’?
São formatos que sempre me agradaram. Ou isso, ou representar: fiz teatro radiofónico e teatro televisivo. Portanto, apresentar um concurso ou um ‘show’ ou representar… tinha
essa liberdade.
E tendo em conta o seu passado no jornalismo desportivo, não gostaria de um programa de debate sobre o futebol, como o antigo ‘Jogo Falado’, da RTP’, ou o actual ‘O Dia Seguinte’, na SIC Notícias?
Gosto de futebol e do desporto em geral, mas devo dizer que não me identifico muito com o tipo de painéis de comentadores em que cada um deles é objectiva e assumidamente vinculado a um clube. Eu assumo que sou do Sporting, mas em todos os trabalhos desportivos que fiz deixei sempre o emblema do clube no cabide, à entrada…
ADMIRADOR DE FÁTIMA, JUDITE E JÚLIA
O Artur fez também muitos programas de jornalismo, com entrevistas e debates, como no caso do ‘Curto Circuito, que em 1970 sucedeu ao célebre ‘Zip Zip’. Actualmente, quais são, para si, os melhores profissionais desta área?
Os meus colegas do ‘sexo forte’ que me perdoem, mas os homens perderam um bocadinho de força em relação às mulheres. A percentagem de mulheres a exercer esta função com qualidade é, quanto a mim, superior à dos homens, apesar de terem também aparecido alguns com muito talento. Mas cito a Fátima Campos Ferreira, por quem tenho muita admiração, e que conduz notavelmente o ‘Prós e Contras’, a Judite de Sousa, nas entrevistas políticas, e a Júlia Pinheiro, que é uma excelente moderadora, como vimos no ‘Eu Confesso’.
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