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Correio da Manhã

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Páginas da nossa vida

Ao retratar o sequestro, o alcoolismo ou o drama da adopção, a novela de Manoel Carlos entra em sintonia com o real. E traz ao ecrã os medos que atemorizam a sociedade.
4 de Maio de 2007 às 00:00
Páginas da nossa vida
Páginas da nossa vida
Muito comentado o episódio do sequestro do filho da procuradora na novela ‘Páginas da Vida’, um drama que o autor quis mais novelesco ao incluir o pai, tornando a trama mais improvável. Seja como for, o suspense criado pelo sequestro violento de um adolescente, filho de uma procuradora do Ministério Público – uma adaptação livre para a nomenclatura judiciária portuguesa – encarregue de chefiar a investigação do crime mais sofisticado cuja organização envolve nomes graúdos da sociedade brasileira, criou um impacto que extravasa muito o público habitual de telenovela.
Ouvi altos quadros de empresas, advogados, políticos comentarem a novela de Manoel Carlos exibida ao serão na SIC, infelizmente em doses cada vez mais repetidas e exíguas (porquê impor ‘Paraíso Tropical’ ao público de ‘Páginas da Vida’? Porquê o desdobramento com repetições sistemáticas de cenas de episódios anteriores?).
Voltando ao conteúdo da novela: ‘Páginas da Vida’ traz ao ecrã a dramatização de medos, preconceitos, crimes que estão na agenda de todos nós homens ou mulheres, classe alta, média ou baixa. O sequestro tornou-se um crime que abala e atemoriza toda a sociedade brasileira mas que também tem ressonância em Portugal. Já não se trata de uma realidade puramente ficcional como os números das estatísticas policiais provam e o alerta social amplia. Depois temos o alcoolismo que quase faz ruir a relação entre um pai e uma filha da classe média alta induzindo comportamentos violentos e provocando desajuste social. Pelo meio surge o internamento numa clínica de desintoxicação talvez e, infelizmente, o único factor surpresa para as classes C e D do público português.
Quanto ao resto a escalada do consumo abusivo de álcool na nossa sociedade vai a par do número de depressões diagnosticadas e do disparo na venda de antidepressivos. ‘Páginas da Vida’ tem ainda traição amorosa, chantagem, falência de casamentos, racismo, sida e o drama central, – em torno do qual todos os outros se desenrolam numa teia complexa mas urdida com talento e desenvoltura – o conflito entre paternidade biológica e paternidade e maternidade de afecto.
Em quase perfeita analogia com o célebre ‘Caso Esmeralda’ que tantas paixões e tanta controvérsia tem gerado em Portugal, também na novela brasileira se adensa a tensão em torno do futuro dos gémeos Francisco e Clara, duas crianças órfãs de mãe cujo pai biológico cinco anos depois do seu nascimento reclama a custódia contra a vontade de um avô e de uma mãe adoptiva. Mesmo sem um paralelismo tão óbvio com um caso da vida real, a opinião pública brasileira dividiu-se aquando da exibição da novela tendo a maioria favorecido a prevalência dos laços do afecto e do amor em detrimento da biologia. Pelo que fica dito e ainda por um sem--número de outros factores como a excelência da generalidade das interpretações, a beleza estonteante dos planos aéreos da cidade do Rio de Janeiro e o realismo, o tal realismo que nos prende e atrai e explica o sucesso da novela e a transversalidade do seu público.
A antiga casa senhorial onde impera o veterano Tarcísio Meira no papel de Tide, o clássico pai de família que todos gostaríamos de ter e a casa/porto de abrigo no mundo urbano perigoso e incerto é mais um mito que reconhecemos e onde nos reencontramos. ‘Páginas da Vida’ são, num ponto ou noutro, páginas do livro das nossas próprias vidas. É assim que se constrói um grande sucesso na ficção em língua portuguesa.
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