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Correio da Manhã

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"País precisa que os jornalistas cumpram o seu papel" (COM VÍDEO)

A apresentadora está satisfeita com a mudança para a área de programas, mas não se consegue dissociar do jornalismo. Diz ainda que Manuela Moura Guedes “não tem medo das palavras”
21 de Janeiro de 2011 às 00:00
CONCEIÇÃO LINO, SIC, JORNALISMO
CONCEIÇÃO LINO, SIC, JORNALISMO FOTO: Bruno Colaço

Quatro meses depois do arranque, que balanço faz de ‘Boa Tarde'?

É bom. É um projecto empreendedor. São quatro meses muito intensos, em que temos posto em prática muitas ideias. Temos feito coisas que nos divertem e que nos compensam muito. Este programa pretende trazer alguma coisa de positivo às pessoas e nós, tanto quanto é possível, cada vez que as trazemos cá, gostamos de as mimar, de as puxar para cima.

Um balanço positivo...

Muito positivo.

Como foi a adaptação a um novo registo?

Ao longo do tempo, tenho sentido um maior à vontade e estou muito confortável. Não tenho de me preparar mental ou psicologicamente quando entro no estúdio só porque venho fazer um programa que tem características diferentes do que fiz até agora. Este programa permite que esteja mais descontraída, que tenha os meus momentos de humor...

Nunca se divertiu tanto em TV como em ‘Boa Tarde'?

Sou uma privilegiada, tenho-me divertido muito ao longo da minha vida na televisão, porque não consigo trabalhar de outra maneira. Cada vez que pego num trabalho é para me entregar a ele completamente. Nunca saio perdedora de uma experiência, saio sempre a ganhar. E este trabalho também é muito criativo.

As audiências correspondem ao que esperava?

Não defini uma meta. Antes de mais, temos de fazer um trabalho que nos compense e em que acreditemos. Tenho a certeza de que este programa está próximo das pessoas e se interessa por elas. A televisão não é um percurso garantido, é um processo que nunca acaba. Não podemos descansar sobre louros de espécie alguma, ainda agora a procissão vai no adro. Quatro meses para um horário de hábitos não é quase nada.

Está satisfeita com este formato?

Estamos a trabalhar todos os dias, não é um formato fechado. Logo, podemos incluir no programa mais assuntos e fazer abordagens diferentes. É um programa em construção, não tenho a menor dúvida disso. O que é também estimulante...

Como foi recebida pela equipa da programação?

Muito bem. Sou muito bem tratada. A equipa é simpática, cada um toma conta do seu trabalho. Na redacção tenho gente que estava comigo no ‘Nós Por Cá' e pessoas que estavam a produzir as tardes da SIC. Tem sido um bom entendimento, as coisas têm corrido bem e as pessoas estão satisfeitas.

Vê a concorrência?

Espreito uma coisa ou outra e tenho informação sobre isso. Tenho pessoas que me dão nota do que se faz em Portugal, mas também noutros programas do género. Qualquer coisa pode ser fonte de inspiração, temos de estar atentos.

Tem acompanhado Fátima Lopes na TVI?

Tenho. Sei que foi para o ‘Agora é que Conta' e depois para o programa anterior, muito à semelhança do ela fazia na SIC. Penso que ela está satisfeita.

Compara o seu trabalho com o dela?

Não. O meu trabalho não comparo, porque não são coisas comparáveis. As pessoas são sempre diferentes. Quando avalio o trabalho de outras equipas, não o faço em relação à prestação dos apresentadores. Aprecio, mas não para me comparar. Não é por alguém fazer alguma coisa que vou fazer da mesma maneira.

Na sua opinião, houve espectadores da SIC que migraram com a Fátima para a TVI?

Não tenho elementos sobre isso. Mas acho normal que pessoas que gostem de ver um apresentador queiram seguir o trabalho deles. As pessoas gostam dos produtos, mas também dos apresentadores. Uma coisa não é dissociada da outra.

E com o regresso da Júlia Pinheiro pode passar-se o mesmo?

Obviamente, a Júlia é uma apresentadora muito forte, isso faz todo o sentido. Há pessoas que seguem o trabalho dela há anos e que procuram saber o que ela está a fazer onde ela estiver. Isso é natural.

E qual será o impacto da entrada da Júlia na SIC?

Bom. (risos). Acho que vai ser bom.

Ela vai coordenar os talk shows diários. O que pode mudar em ‘Boa Tarde'?

Isso depois é o que se vai ver.

Falaram da mudança?

Não. Pelo que sei, ela está a chegar [entrevista foi realizada na véspera da apresentação de Júlia Pinheiro].

Mas são amigas...

Sim, mas sempre conseguimos distinguir o que é profissional do que é pessoal. Não se mistura trabalho com amizade.

Tem saudades do jornalismo?

Não consigo dissociar-me do jornalismo. Parte do que faço é exactamente igual ao que fazia antes de vir para o ‘Boa Tarde'.

Entregou a carteira profissional...

Sim, porque estou a fazer uma coisa com características diferentes.

Como foi esse momento?

Teve de ser. Fiz uma suspensão da carteira. Já tenho idade suficiente para perceber que os caminhos das pessoas de vez em quando têm cruzamentos e que se vira para outra direcção. É assim que se faz a vida profissional das pessoas.

Está, então, convicta de que tomou a decisão correcta ao aceitar este desafio?

Não tenho dúvidas. Estas decisões não se tomam para andar a hesitar. Não se pode vir para um desafio destes, de um programa diário, com dúvidas. Isso é impossível de fazer. E ainda por cima divertir-me com isso. Ainda que possa ter mais ambições em relação ao programa, que tenho.

E como vê estas contratações na SIC?

De forma positiva. Tudo o que for para fazer avançar este projecto, para mim é bem-vindo.

Passou anos na informação. Manuela Moura Guedes tem lugar?

Não tenho grande opinião porque a Manuela ainda não começou a trabalhar. Agora, é uma jornalista que não tem medo das palavras, e isso é uma coisa boa. Se vier com essa atitude, é bom, porque acredito que, nesta altura, o jornalismo em Portugal pode fazer toda a diferença. O País precisa muito que os jornalistas cumpram o seu papel, porque nos últimos anos temos assistido a uma degradação da imagem dos políticos. Há casos de bradar aos céus. A utilização dos dinheiros públicos é escandalosa. Pagamos impostos mas não sabemos muito bem como é que aquilo é gerido. Temos um sistema político cheio de vícios, de pessoas que se protegem umas às outras, gente que devia ter responsabilidade e decência e que não tem. Quando penso em como se dá a volta a isto, vejo nos jornalistas uma parte do caminho, porque estas coisas precisam de ser ditas, sustentadas, investigadas.

Faz falta jornalismo de investigação?

Claro e fazem falta pessoas que tenham espírito de investigação. Ser jornalista é ter uma missão. Tudo o que for para agitar, com responsabilidade e rigor.

Nesse sentido, Moura Guedes será uma mais-valia?

Ela faz parte desse grupo de jornalistas. As pessoas podem gostar mais ou menos, mas ela ao longo dos anos tem demonstrado que não tem medo das palavras. Isso, para mim, é saudável. É bom.

Está na SIC desde o início. Teve convites para mudar?

Tive.

RTP ou TVI?

Ambas.

Algum recente?

Não.

Porque não aceitou?

A SIC faz parte de mim. Tenho arranjado sempre espaço para projectos diferentes, para crescer profissionalmente, e custa-me muito em momentos, que também os tive, mais baixos ou de maior desânimo, trocar isto por outro projecto. Encontrei sempre motivos para continuar a trabalhar na SIC e tive sempre liberdade para o fazer. Nunca tive qualquer constrangimento. Isso para um jornalista é um valor imenso.

Hoje, se tivesse algum convite, aceitaria?

Depende do convite! (risos) Não, não estou a ver que isso pudesse acontecer. Aqui encontro o meu espaço e isso é muito bom.

"Já nos deixaram de boca aberta" 

O novo desafio de Conceição Lino passa por ‘Portugal Tem Talento' (estreia dia 30), onde faz parte do júri, ao lado de José Diogo Quintela e de Ricardo Pais. A apresentadora revela que durante os castings têm surgido muitos talentos e promete "um programa irresistível". "Há pessoas que já nos deixaram de boca aberta", revela. Sobre o papel de jurada, conta que é "o trabalho mais difícil" que já teve, devido às "expectativas que as pessoas levam para um concurso deste género". "Não gostam de ouvir um reparo ou uma crítica. Gostam dos aplausos". Mas o balanço é francamente positivo. "Divirto-me muito. Já vimos dezenas e dezenas de candidatos e tenho-me divertido em quase todos, mesmo quando não são tão bons ou quando são maus".

Aproximar do público

Em ‘Boa Tarde', Conceição Lino tem proporcionado algumas surpresas ao público. À Correio TV, a apresentadora explica que ajudar e aproximar-se das pessoasé um objectivo. Para tal, conta, já realizou diversas iniciativas, como quando surpreendeu "toda a plateia do programa com tratamentos dentários" que custam milhares de euros. Uma iniciativa destinada a pessoas que "dificilmente teriam a possibilidade financeira de se tratar". "Temos a certeza de que fizemos a diferença na vida destas pessoas", diz. Além disso, já deu "viagens a pessoas que nunca andaram de avião", ajudou famílias sobreendividadas a renegociar as dívidas, mudou a "imagem a mulheres que estavam mesmo a precisar de um mimo" e levou "camas articuladas e cadeiras de rodas a várias famílias" que de outra maneira não teriam acesso a estes equipamentos. Gestos que dão "a sensação de que vale a pena fazer este programa".

PERFIL

Aos 45 anos, Conceição Lino aceitou o desafio de assumir as tardes da SIC. Casada e com duas filhas, a apresentadora está em Carnaxide desde o arranque da estação, onde apresentou, entre outros, programas como ‘Praça Pública' e ‘Casos de Polícia'. Licenciada em Ciências Sociais e Humanas pela Universidade Nova de Lisboa, Conceição Lino esconde um talento: a apresen-tadora adora cantar.

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