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Correio da Manhã

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Políticos têm medo da imprensa livre

Luís Costa Ribas, antigo correspondente da SIC nos Estados Unidos da América, confessa problemas de adaptação a Portugal e critica líderes nacionais.
7 de Setembro de 2007 às 00:00
Jornalista fala do seu regresso a Portugal
Jornalista fala do seu regresso a Portugal FOTO: Manuel Moreira
- Esteve 22 anos nos E.U.A. Está cá há dois. Já se adaptou à realidade portuguesa?
- A adaptação é um processo contínuo. Vai-se fazendo gradualmente. Mas nunca acaba. Tenho amigos que viveram menos anos nos EUA e já voltaram há mais tempo, que me dizem que o processo de adaptação ainda está em curso. Mas está a andar bem.
- De que forma isso tem impacto no seu dia-a-dia?
- Em geral os portugueses são mais complicados que os americanos, menos práticos e mais burocráticos. Em tudo. Seja numa loja, seja numa repartição pública. Atenção, não é nenhuma ‘americanice’ ser prático. É uma coisa com que toda a gente concorda por princípio, mas depois é difícil encontrar quem o faça na prática.
- A atitude relaxada dos portugueses perante a vida não tem vantagens?
- Também tem vantagens. O problema é que, por causa da globalização e da grande concorrência internacional, vão-se instalando em Portugal multinacionais e empresas que têm actividades com impacto sobre um vasto espectro da economia. Isto é, se dantes havia uma atitude generalizada de aceitação dessa descontracção, hoje isso já não é aceite.
- Porque acontece isso?
- Já há muitas pessoas que vão estudar para os EUA e vários países da Europa que, quando voltam, ocupam lugares de relevo nas empresas e dizem ‘isto não pode ser assim’. Nós não temos que ser como os ingleses ou os americanos, mas se queremos ser produtivos temos que trabalhar com uma maior orientação para a produtividade e para a rapidez de execução das tarefas. Isso, às vezes, falta-nos.
- E ao jornalismo português, já se adaptou?
- Vou-me adaptando. É como um lisboeta ir viver para o Sabugal, nos arredores da Guarda. Não deixa de ser um sítio interessante, com pessoas boas e trabalhadoras, mas é muito mais pequeno, pelo que requer habituação. Isso foi o que me aconteceu. Saí de um país muito grande com interesses a nível global, para um país pequeno onde as pessoas têm uma ideia deprimida de si e do país. E o jornalismo reflecte o resto do país.
- De que forma?
- Nós não temos um jornalismo à margem do país. O pessimismo, os ordenados baixos, tudo o que se passa na economia em geral passa-se no jornalismo.
- Sente saudades dos E.U.A.?
- Sim, tenho saudades. Mas agora a opção é estar aqui. Foi uma opção de família, portanto, não me vou arrepender. O que é mais difícil de ambientar, e isso não tem a ver com o país, mas sim com a classe política actual, é que não esperava nunca, trinta anos depois do 25 de Abril, regressar a Portugal e assistir a um debate sobre a liberdade de informação, a censura, o autoritarismo... No fundo sobre coisas que não deveriam ter lugar numa sociedade moderna e democrática do século XXI.
- Como assim?
- Para mim é chocante encontrar o tipo de ambiente que há, de denúncias, de não se poder criticar o Governo. Deve-se poder falar. No nosso caso, o Estatuto do Jornalista ou a Lei da Televisão são uma vergonha. Essas leis são uma vergonha porque não se fazem leis para ter melhor informação. Fazem-se leis para controlar a informação. Nenhum decreto-lei ensina a fazer uma reportagem, o que faz é limitar o nosso trabalho. E se nos obrigarem a divulgar as fontes, ninguém fala connosco. E se ninguém fala connosco deixa de haver jornalismo. Não me digam que é a lei, porque quem faz a lei são os políticos. E se fazem a lei desta forma é porque têm medo.
- Têm medo de quê?
- Têm medo da liberdade. E quem tem medo da imprensa livre é quem pensa em controlá-la. Quem acha que é um democrata não teme que o chamem antidemocrata.
- Ainda quer ser coordenador de noticiário, tal como ambicionava?
- Eu não quero ser coordenador. Percebi isso quando coordenei o ‘Programa da Manhã’. Essa questão ficou resolvida. Gosto de fazer reportagens, gosto de explicar as coisas, gosto de pegar numa coisa difícil e trocá-la por miúdos. Se voltar a guerra ao Líbano não me importo de ir para lá, ou para Timor ou Angola... Prefiro isso do que estar na redacção a coordenar. Todos nós temos de saber qual é o tipo de trabalho para nós e eu sei que o meu tipo de trabalho não é coordenar. Por isso estou muito bem aqui.
"MUNDO MORIBUNDO"
- A sua rúbrica está no ar há dois meses. Que balanço faz?
- Ainda mal começou para fazer balanços. O ‘Mundo Moribundo’ é um projecto a longo prazo, que vai sendo feito, que não tem periodicidade fixa porque eu prefiro juntar as coisas e quando houver um bom pretexto falar no assunto. As rubricas sobre meio ambiente, como a da Carla Castelo [’Terra Alerta’], que falam sobre as coisas concretas que as pessoas podem fazer, como têm uma utilidade prática estão mais vezes no ar. Eu não quero estar a forçar a criação de uma rubrica alarmista. Gosto de juntar três ou quatro coisas que se foram passando e podem constituir um bom alerta, um pequeno espelho do que se esta a passar globalmente.
LIVRO DE MEMÓRIAS A CAMINHO: “EXPERIÊNCIAS VIVIDAS PELO MUNDO”
Luís Costa Ribas está a escrever um livro que “vai debruçar-se sobre os primeiros 25 anos de carreira” como jornalista. “Vai reflectir as experiências vividas quer nos EUA, quer noutros sítios do Mundo por onde andei.”
Ainda sem data de lançamento definida, Costa Ribas afirma que quer acabar a obra “ainda este ano”, mas não tem pressas: “Prefiro fazer bem feito. Estou a escrever de memória e esse processo demora mais tempo.”
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