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Correio da Manhã

Tv Media
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Portugal joga para o Mundo

Falta de brilho na realização não afasta espectadores.
7 de Julho de 2006 às 00:00
A selecção nacional e Luiz Felipe Scolari captaram as atenções das televisões internacionais com as suas prestações na competição mais importante do futebol. De Portugal ao Japão, passando pelo Brasil e pela Alemanha, os resultados das audiências não param de surpreender e confirmam o Mundial da Alemanha como o mais mediático de sempre – o valor avançado antes do início da competição para a audiência acumulada era de 33 mil milhões de espectadores em todo o planeta.
Isto apesar de as vozes mais críticas reclamarem com a pouca inovação nas transmissões em directo e com a censura imposta pela FIFA. As objecções são compensadas, no entanto, com a qualidade das imagens difundidas e a paixão que o torneio desperta. Em Portugal, a cobertura do evento também divide opiniões. Tanto em relação à cobertura noticiosa feita pelos principais canais generalistas como em relação às transmissões dos jogos, a cargo da SIC e da Sport TV.
Quando ainda estão por apurar os vencedores dos dois jogos decisivos – que acontecem este fim-de-semana (amanhã, dia 8, tem lugar o encontro de apuramento para os terceiro e quarto lugares e domingo, dia 9, disputa-se a final) –, a única certeza é que o jogo em que Portugal participa será o tema mais focado nas estações de televisão nacionais. E, se a meia-final contra a França deixava antever resultados excepcionais a nível de audiências televisivas, a projecção para o jogo decisivo do evento não pode ser inferior.
Os dados comprovam-no. Portugal é o país cuja população mais segue a sua selecção, sendo ultrapassado apenas pela Holanda. Em termos globais, o Brasil é o país que cativa mais audiências televisivas. O jogo entre Brasil e Croácia foi o mais visto durante as primeiras fases do Campeonato, com 124 milhões de telespectadores em 53 países.
Outro dado que merece ser salientado neste Mundial é a explosão de novos meios ao dispor dos telespectadores para acompanhar a par e passo todos os pormenores da sua equipa favorita. Da internet aos telemóveis, uma panóplia de aplicações criaram novas formas de ver jogos, resumos e golos em quase qualquer parte do globo, e prometem gerar receitas para os operadores superiores a 200 milhões de euros.
COBERTURA NOTICIOSA
“As transmissões dos jogos têm sido razoáveis”, apesar de, por vezes, “os comentadores defenderem em demasia a selecção portuguesa”, diz o crítico Fernando Sobral. Em sua opinião, o pior tem sido a cobertura noticiosa. “A maior parte das reportagens tem focado coisas sem sentido. O programa da RTP, por exemplo, tem esticado, esticado, esticado.” No entanto, Fernando Sobral ressalva a diferença de estilos entre os canais.
“A TVI tem feito uma cobertura suficientemente sóbria em termos informativos, mas continua a preferir apostar nas suas novelas. A RTP, com meios do outro mundo, tem esticado em demasia com coisas que não acrescentam nada. A SIC joga com o que tem, os jogos, e tem-no feito bem”, defende.
GOBERN ELOGIA SPORT TV
A qualidade das transmissões em directo é o maior destaque que o também crítico João Gobern retira do evento. “As transmissões têm sido, em média, bastante boas. E até trouxeram alguma inovação. Há repetições e câmaras multi-ângulos que eu ainda não tinha visto. Nesse aspecto, o único senão é a ausência das repetições dos lances polémicos. Até compreendo essa restrição, apesar de achar que provoca um alheamento da realidade.”
A crítica de Gobern vai então para a cobertura realizada pelas estações portuguesas. “Faz-me confusão que, em torno de algo tão simples como o futebol, se faça tanta festa e romaria. Principalmente quando são as televisões a provocar a festa. Quando a festa não é espontânea isso nota-se. Por outro lado, parece claro que há demasiado tempo – e o tempo em televisão é precioso – entregue ao debate, ao comentário, aos pormenores que não interessam. Torna-se fastidioso. É tudo muito longo. O melhor mesmo têm sido as transmissões dos jogos.”
Para o crítico televisivo, o melhor do Mundial tem sido o trabalho realizado pela Sport TV, a única estação a transmitir os 64 jogos do Mundial 2006. “Ressalvando que é um canal dedicado em exclusivo ao desporto, tanto a nível de reportagem lateral como na análise, tem tido uma estratégia inteligente. E está muito bem servida de jornalistas e comentadores. No entanto, considero também que alguns dos melhores comentários aos jogos têm sido os do Humberto Coelho, na SIC”, conclui.
MUNDIAL RECORDISTA DE AUDIÊNCIAS
Ideia diferente têm os realizadores de televisão das estações portuguesas. Para Ricardo Espírito Santo, da SIC, a realização das transmissões dos jogos deste Mundial “não tem sido brilhante”. Atento às potencialidades do espectáculo, defende que “não há mais nenhum evento como o Mundial que permita fazer transmissões tão espectaculares”. “Mas acho que neste campeonato as repetições são muito poucas.
Nesse ponto de vista, a realização falhou”, considera. “Não compreendo como é que, com o dispositivo técnico que eles têm, com 16 pessoas só para as repetições e para os ‘slow motion’ – normalmente eu faço isso com quatro pessoas –, nos lances mais vistosos só se vê uma repetição. Tem de haver ângulos mais espectaculares. Os lances de perigo não são retratados”, reitera Ricardo Espírito Santo, o realizador que registou em directo a morte do ponta-de-lança Miklos Fehér no jogo Guimarães-Benfica.
Em sentido contrário vai a opinião de Rogério Borges. O realizador da RTP considera que o trabalho dos seus colegas da HBS (Host Broadcasting Service, empresa responsável pela recolha e difusão de todas as imagens relativas aos jogos desde o Mundial de França) “tem sido bom, apesar de faltar inovação”. “A HBS inovou em 1998 com a introdução do ‘super slow motion’. Agora, tal como na Coreia e no Japão, apenas modificou o alinhamento das câmaras”, constata.
Numa análise à cobertura total do evento, Rogério Borges admite: “Não considero nada extraordinariamente negativo, mas julgo que falta ambiência do público. Podiam ser mais arrojados e dar melhor uso às novas tecnologias, nomeadamente a utilização de elementos virtuais como a distância da barreira na marcação dos livres.”
Este Mundial 2006 é um verdadeiro recordista de audiências. Segundo os dados divulgados pela Initiative Media, empresa de audimetria sediada em Nova Iorque (Estados Unidos), os países que disputaram o campeonato registaram grandes subidas de número de telespectadores. Nos dias em que as selecções nacionais jogaram, as audiências sofreram acréscimos de 196% face ao registado no Mundial da Coreia e Japão em 2002. Para estes números também contribuiu em grande parte o facto de os jogos serem disputados em horários mais favoráveis para o mundo ocidental.
Nos Estados Unidos, onde o futebol está em expansão, a média de telespectadores que acompanhou a equipa norte-americana subiu 52%. No entanto, neste país, os jogos mais vistos foram os das selecções do Brasil, Itália e México. A excepção a esta subida regista-se na região Ásia/Pacífico. A diferença horária levou a uma quebra de 80% na audiência das transmissões em directo, com declínios acentuados na China e na Malásia.
Curiosamente, na Austrália, cuja selecção se qualificou para o Mundial 2006, a transmissão dos jogos foi menos vista do que em 2002, quando a equipa do país ficou de fora do campeonato.
'SHARES' NA EUROPA
SIC É NÚMERO 2
Até às meias-finais, a transmissão do Inglaterra-Portugal, feita pela SIC, registou o segundo maior ‘share’ (88,1%) de todas as emissões de jogos do Mundial na Europa. O primeiro lugar pertence à Holanda, com 89,4%, conseguido no jogo com a Sérvia (canal NED2).
A Holanda, aliás, voltou a ter um grande resultado na transmissão do encontro entre a sua selecção e a da Costa do Marfim (86,6%), o terceiro maior ‘share’ da tabela.
MUNDIAL NO TELEMÓVEL
Operadores de telemóveis estão a usar o Mundial da Alemanha para cativar o interesse dos seus clientes em ver televisão através do telemóvel. Um relatório da Informa prevê, além de receitas acrescidas, que 210 milhões de pessoas vão ver televisão no telemóvel em 2011.
FIFA CENSURA IMAGENS
CASOS QUE (NÃO) SE VIRAM
Ainda antes de o Campeonato do Mundo ter começado, a FIFA impôs aos responsáveis pela cobertura televisiva, a HBS, que não exibissem imagens de violência, invasões de campo e lances duvidosos. A medida teve, porém, efeitos nefastos. Exemplo disso é a suspensão do alemão Thorsten Frings por dois jogos por agressão a um jogador argentino. Aconteceu, mas ninguém viu.
FOTÓGRAFOS REALISTAS
O veto da FIFA a imagens que poderiam motivar a repetição de comportamentos menos dignos não foi aplicado aos fotógrafos. Só assim foi possível ver uma adepta invadir o treino do Brasil e abraçar Ronaldinho ou um croata invadir o campo no jogo da sua selecção contra o ‘escrete’.

NÚMEROS DO MUNDIAL
ENTUSIASMO ESMORECE
O jogo decisivo – com Portugal – foi o terceiro mais visto.
EMPENHO VAI SUBINDO
Encontro que mais espectáculo prometia ficou em segundo lugar.
INTERESSE MODERADO
A maior audiência ocorreu no jogo que ditou a saída da competição.
NÚMEROS
240 milhões de euros - Valor estimado das receitas dos 'downloads' para 2006
25 - Total de câmaras
750 Km - Cabo de áudio / vídeo
25 - Microfones de som ambiente
2200 - Horas de conteúdos
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