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Correio da Manhã

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Produções apostam no Portugal rural

TVI e Plural não poupam esforços para enriquecer os cenários e as histórias da ficção nacional. Cada vez mais ambiciosas, as produções exploram pequenas localidades do País ao mesmo tempo que procuram destinos exóticos
3 de Abril de 2009 às 00:00
Joana Solnado
Joana Solnado FOTO: Direitos reservados

Praias, prados verdejantes ou vilarejos, pelourinhos, monumentos centenários cercados de vinhedos e oliveiras despertam sentidos e aguçam a curiosidade dos telespectadores. Quem ganha são as novelas da TVI e da Plural que, ao explorarem recantos de Portugal, conquistam audiências, patrocínios das autarquias e a simpatia das gentes visitadas que vêem as suas rotinas alteradas. Além disso, privam de perto com os rostos mediáticos dos actores que só conhecem do pequeno ecrã. 

Na semana passada arrancaram as gravações de ‘Vida Inteira’, a próxima novela da TVI que vai apostar na paisagem exuberante do Parque Nacional da Peneda-Gerês e na aldeia do Soajo, famosa pelos espigueiros erigidos sobre laje granítica. No concelho de Carrazeda de Ansiães, o destaque irá para  a praça municipal, a ponte sobre o rio Vez, o Paço da Glória e o cemitério, décors fixos desta nova produção. “Mariana Monteiro e João Catarré têm sido o alvo da maior curiosidade da população”, conta à Correio TV Cláudia Guimarães, do pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez. Sobre o investimento feito nesta produção, a autarquia não tem dúvidas: “É muito bom para o concelho e para os empresários locais terem imagens a divulgar a nossa terra e as nossas gentes, em horário nobre e durante vários meses. A população está colaborante e empenhada no projecto”, esclarece Cláudia Guimarães.

André Cerqueira, director de Conteúdos da Plural, é peremptório: “As novelas da TVI mostram Portugal aos portugueses. Esta é a nossa estratégia, por mais cara que fique a produção. Fazemo-lo com orgulho e por respeito ao público. Já estivemos nos Açores, na Madeira, em Trás-os-Montes. Agora, com ‘Vida Inteira’, vamos para a Peneda, que é um lugar lindíssimo, e Arcos de Valdevez. Com os ‘Morangos’ iremos para Portimão”. Para concretizar esta estratégia, a TVI e a Plural precisam de “parcerias e patrocínios”.

Pedro Miranda, director de produção da Plural, explica que os cenários das novelas são escolhidos “em função dos apoios das autarquias. De outra maneira seria impossível deslocar, a quilómetros de distância, equipas de 50 pessoas e equipamento”. Esse apoio, que se traduz no alojamento e alimentação, é fundamental para que a Plural possa sair de Lisboa. “A capital está muito vista”, conclui Pedro Miranda. 

No Verão passado as gravações de ‘Morangos com Açúcar’ agitaram Odeceixe. ”Houve muita curiosidade, porque a novela era mediática e envolvia juventude. Muita gente vinha à procura de encontrar os locais onde este ou aquele actor gravou esta ou aquela cena”, recorda Fernando Rosa, presidente da Junta de Freguesia de Odeceixe. Para o autarca, é “difícil quantificar” os benefícios do “pesado investimento” feito, mas assegura que é “preciso investir hoje para ter retorno mais tarde. O importante é que se fale de Odeceixe. A população gosta de ver chegar gente que conheceu a terra através da novela”.

José Silvano, presidente da Câmara Municipal de Mirandela, recorda o “impulso turístico” que a novela ‘A Outra’ (TVI), escrita pelo trasmontano Tozé Martinho, deu ao concelho, durante e depois das gravações. “Sentimos um grande aumento da afluência de turistas, sobretudo aos sábados e domingos, com gente simples a querer ver os cenários das gravações. O ídolo desses visitantes, o mais popular, era o Zé Bento, [Joaquim Nicolau]. Mirandela, a cidade-jardim, tornou-se mais conhecida”. O autarca diz: “A Associação de Municípios da Terra Quente, constituída pelas câmaras municipais de Mirandela, Vila Flor, Alfândega da Fé, Macedo de Cavaleiros e Carrazeda de Ansiães, suportaram o alojamento e as refeições de actores e equipa técnica”.

Adriano Luz, director da Casa da Criação, onde se escrevem os guiões de ‘Flor do Mar’, ‘Morangos com Açúcar’ e de ‘A Vida Inteira’ (TVI), considera que gravar no exterior “valoriza uma novela como investimento dramatúrgico e de produção. Gravar em países como a Índia permite-nos revisitar a História e mostrar a nossa ligação a esses lugares”. Adriano Luz confirma: “Temos tido uma boa resposta por parte do público. Por exemplo, em ‘Ilha dos Amores’ mostrámos partes desconhecidas dos Açores e sentimos que as pessoas gostaram muito”. E frisa: “A Casa da Criação trabalha em parceria com a TVI. Tudo tem de ser bem estudado. Fazemos viagens dentro das nossas possibilidades, mesmo em tempo de crise e com um certo esforço para conseguirmos redução de custos, usando a imaginação, levando o mínimo de pessoas por equipa e tentando que as mesmas sejam mais eficientes e solidárias”. Adriano Luz lembra ainda que “em todas as séries de ‘Morangos com Açúcar’ há uma viagem nas férias de Verão. E já se gravou, entre outros países, em Cuba, na República Dominicana e, agora, no Brasil”. 

António Barreira, co-autor, com Maria João Mira e André Ramalho, da novela da TVI ‘Flor do Mar’, cujos exteriores são, quase na totalidade, gravados na Madeira, confirma que “gravar em destinos exóticos pode valorizar uma história. Mas o que importa é ter essa história bem contada. As minhas duas novelas, ‘Flor do Mar’ e ‘Fascínios’, são diferentes em termos de contornos visuais. ‘Flor do Mar’ tem as duas vertentes, uma rural e outra mais cosmopolita, cuja junção resulta na perfeição. Se possuímos uma pérola, temos de a mostrar.” Sobre os bananais, o autor recorda: “Essas fazendas, na Calheta, são construídas em altitude e pareciam-nos minúsculas. Mas, quando subimos, tivemos a sensação que nunca mais chegávamos. E, já no topo, vimos que aquilo era enorme e deslumbrante, com o mar como pano de fundo. Barreira recorda ainda que, “no início da novela, houve cenas gravadas na Cidade do Cabo, África do Sul”.

Tozé Martinho, argumentista e actor, não tem dúvidas: “Uma novela fica a ganhar se tiver gravações fora de Portugal, não só pela paisagem e pela distância mas por mostrar o modo como se vive nesses locais”. O autor que, em ‘A Outra’, incluiu passagens por Moçambique e Trás-os-Montes, está agora a escrever ‘Correntes’, história com origem em Macau, ambas na TVI. A propósito desta novela, Pedro Miranda, director de Produção da Plural, revela que ‘Correntes’ “vai ao Oriente com o apoio da Delegação Portuguesa de Turismo de Macau”.

‘Equador’, série que a TVI tem em exibido aos serões de domingo, representa um dos maiores investimentos na ficção nacional. Índia, Brasil e S. Tomé e Príncipe foram destinos que a produção fez questão de introduzir na história baseada no livro de Miguel de Sousa Tavares. Maria João Bastos, Filipe Duarte e Marco d’Ameida são os protagonistas da série.

EM ‘FLOR DO MAR’

BANANAIS DA MADEIRA

Os bananais de ‘Flor do Mar’ são um dos ex-libris desta novela da TVI. As fazendas e a casa de Eduardo (Nuno Homem de Sá) situam-se na Calheta e o armazém na Madalena do Mar. É nessas paisagens que Eduardo e Salomé (Paula Lobo Antunes) têm dado largas ao seu amor. As cenas mais urbanas decorrem no Funchal e em São Vicente. Na Ponta do Sol gravam-se cenas dos trilhos para os passeios a pé. Também já se gravou nas ilhas Desertas e em Porto Santo.

A MAGIA DOS AÇORES

‘A CACHOEIRA DA MARIANA’

O verde luxuriante das ilhas, as lagoas, as plantações de chá e a profusão de flores seduziram quem acompanhou ‘Ilha dos Amores’. O sucesso da novela inspirou operadores turísticos que, aproveitando a divulgação do arquipélago, promoveram campanhas de reservas para vários programas de viagens em diferentes ilhas. André Cerqueira, da Plural, confirma o êxito desta novela escrita por Maria João Mira. “‘Ilha dos Amores’ deu um bom contributo ao turismo da região. Os voos triplicaram. Os hotéis lotaram. Ainda hoje há turistas que chegam à ilha e dizem querer conhecer a ‘cachoeira da Mariana’”, conta o realizador e produtor referindo-se ao local onde a actriz Joana Solnado, no papel de Mariana, interpretou algumas das mais belas cenas desta produção. 

AS PRODUÇÕES EM NÚMEROS

5, 7 milhões de euros é o valor da megaprodução ‘Equador’

500 mil euros foi o investimento do Governo Regional da Madeira em ‘Flor do Mar’

38 mil euros é o investimento aproximado da CM de Aljezur para tornar Odeceixe parte de ‘Morangos’

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