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Correio da Manhã

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Público parece a Al Jazeera

José António Lima, ex-director adjunto do ‘Expresso’, responde ao director do ‘Público’. José Manuel Fernandes acusara o semanário de “mau jornalismo” num artigo de opinião publicado ontem na revista ‘Atlântico’ e que o CM antecipou sexta-feira. Em causa estava a leitura que o ‘Expresso’ fizera de uma sondagem sobre a sexualidade dos portugueses
28 de Fevereiro de 2006 às 00:00
O artigo de José Manuel Fernandes (JMF) na revista ‘Atlântico’ suscita alguns comentários sobre oportunidade, credibilidade e seriedade.
1. Quanto a oportunidade jornalística e agenda política. Depois da legislação aprovada em Espanha pelo Governo socialista de Zapatero, no que respeita ao casamento entre homossexuais, e depois da formação, em Portugal, de um Governo socialista de maioria absoluta liderado por José Sócrates, tornava-se óbvio que o tema do alargamento dos direitos dos homossexuais seria, a curto prazo, colocado na agenda política.
Bastava, para o perceber, ter a noção de que um Governo de esquerda (em Portugal como em qualquer democracia ocidental, os exemplos não faltam) que se vê forçado a levar à prática uma política de austeridade e de restrição de ‘direitos adquiridos’ se sente obrigado, para compensar as críticas da sua base de apoio e atenuar o descontentamento do seu eleitorado, a aprovar medidas ideologicamente radicais que marquem uma fractura clara entre esquerda e direita. Com o exemplo espanhol aqui ao lado e o Governo Sócrates a braços com os protestos do funcionalismo público e outras corporações, amplamente representadas no interior do PS, estava na cara qual iria ser um dos temas da agenda política socialista.
O ‘Expresso’ apenas revelou capacidade de antecipar o debate e de apresentar um estudo, inédito e credível, sobre os hábitos sexuais dos portugueses e o problema da homossexualidade. Fê-lo antes dos outros e de acordo com as regras do bom jornalismo.
2. A credibilidade da sondagem realizada pela empresa Eurosondagem para o ‘Expresso’ não é questionável e apresenta uma detalhada ficha técnica que deveria impedir quaisquer dúvidas. Foram feitas entrevistas directas e pessoais (não telefónicas) a 726 portugueses maiores de 15 anos, uma amostra que não é inteiramente correspondente com a população em estudo mas que fornece um resultado muito aproximado. E o facto de se ter registado uma elevada taxa de recusa de respostas (em particular, entre a população mais idosa) não anula a representatividade da amostra. Pode até permitir análises complementares para qualquer dos pontos de vista em oposição nesta matéria.
Ao invés de olhar para a sondagem como um contributo positivo para a inevitável discussão que em breve se iria abrir, JMF resolve culpá-la por todos os males que o inquietam. Preferiria, ao que se percebe, que ninguém se tivesse lembrado de a realizar.
3. Não é sério nem bonito JMF criticar outros jornais esquecendo o papel do ‘Público’ no tema que aborda. É verdade que o ‘Público’ é um jornal peculiar (costumo dizer, por graça, que parece a Al Jazeera dirigida por Donald Rumsfeld, e já o disse a JMF), mas o seu director não pode querer dar lições de moral e de ‘bom jornalismo’ aos outros, ignorando o que se passa em sua casa.
E, no ‘caso da Teresa e da Lena’, como se lhe refere JMF, foi o ‘Público’, se não me engano, o primeiro jornal a dar ampla e simpática divulgação à encenação de casamento desse casal homossexual feminino (seria, política e esteticamente menos correcto, pegar num casal homossexual masculino) e, desse modo, de acordo com a tese de JMF, a promover uma agenda política particular. Ou não foi?”
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