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Correio da Manhã

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“Quando dizem que tens cancro é um pontapé na cabeça” (COM VÍDEO)

Conversador por excelência, Nicolau Breyner regressa à casa onde começou, a RTP, para conduzir um talk show. Actor e realizador, diz que tem muitos projectos que ainda quer cumprir.
18 de Fevereiro de 2011 às 00:00
Nicolau Breyner vai fazer uma série de humor para a RTP e entrar na próxima novela da TVi, 'Anjo Meu'
Nicolau Breyner vai fazer uma série de humor para a RTP e entrar na próxima novela da TVi, 'Anjo Meu' FOTO: Pedro Catarino

‘Nico à Noite' é o novo desafio de Nicolau Breyner, a partir de dia 25 na RTP1. Mas a vida de um dos mais acarinhados actores portugueses, que mantém a ligação às novelas da TVI, também se faz atrás das câmaras.

Como é que está a ser o regresso à televisão?

Está a ser excitante, mas também não estou assim há tanto tempo sem fazer televisão como isso, acabei uma novela há uns meses, mas é a excitação de fazer alguma coisa que não fazia há muito tempo. O talk show é o regresso a uma coisa que gosto muito de fazer, que fiz algumas vezes e que me põe num estado de alegria,excitação e expectante.

 

Como é a pesquisa de convidados e de histórias para o programa?

É uma equipa que a faz, um talk show é um programa feito de várias coisas, é a pesquisa, a banda, os sketeches de stand up e eu.

 

Mas que linhas orientadoras deixou para que resultasse um programa com que se identifica?

Foram estas. Não há nada que inventar, porque já foi tudo inventado. Os grandes talk shows, hoje em dia, com o Jonhy Castle, o Larry King, o Jô Soares, são um formato, é um show de conversa. Depois é ter os convidados certos, não só pessoas notáveis ou notórias, como absolutos anónimos que tenham alguma coisa para contar.

 

De que forma estas histórias chegam à produção?

Há um grupo de jornalistas que faz essa pesquisa, procuram as pessoas, deixam à minha consideração quem eu quero e escolho.

 

Está entusiasmado?

Estou, é um formato que gosto e que há algum tempo que não faço. Gosto de conversar, sou um conversador por natureza, portanto um talk show tem tudo a ver comigo. Depois tenho duas coisas espantosas, que é o José Raposo a acompanhar-me nos sketches, e o Nuno Eiró que vai fazer as reportagens de rua, e que são dois grandes profissionais, actores notáveis, e tudo junto pode dar um bom programa.

 

Sentia falta de fazer uma pausa na representação?

Não é bem uma pausa, dentro de pouco tempo começo logo outra coisa que não posso revelar, ao mesmo tempo do talk show, e é uma pausa muito curta. Eu tenho que saltar de coisa para coisa para não ficar aborrecido e rotineiro naquilo que faço. Gosto de ser actor, depois sou realizador, depois faço uma coisa de humor, depois uma novela...

 

Daqui a pouco podemos vê-lo numa participação de ‘Anjo Meu', na TVI?

Sim. Mas é um papel muito curto, e sobre o qual não posso dizer nada. E mantenho a ligação às novelas, à TVI, em termos de formação.

 

‘Anjo Meu' é filmada no Alentejo, de onde é natural. Tem um gosto especial filmar na sua terra?

O meu papel é gravado em Salamanca, mas é sempre bom filmar noAlentejo, estar no Alentejo é a melhor coisa que há. Eu adoro Portugal todo, é das melhores coisas que há, e deve ser acarinhado, mas nasci no Alentejo, adoro o cheiro de lá, a comida de lá, é a minha casa.

 

De que maneira vai participar na formação na TVI?

Ainda não estou autorizado a falar sobre isso, é um projecto que ainda vai aparecer e com uma certa pompa e circunstância e só nessa altura se saberá.

 

A última novela em que participou, ‘Meu Amor', recebeu o EMMY para melhor novela do mundo. Como é que viu este reconhecimento?

É muito agradável por várias razões. Primeiro, porque é bom recebermos prémios, depois porque sendo portugueses trabalhamos muitas vezes em condições inferiores às dos outros, com orçamentos muito mais baixos e conseguimos fazer. Para mim, é triplamente bom, e não é imodéstia, pelo facto de ter sido em Portugal um dos mentores para fazer novelas. Quando arranquei, ninguém queria fazer novelas em Portugal. Quando toda a gente dizia que não era possível e que não valia a pena, que foi uma coisa espantosa que ouvi uma vez de um director de televisão, fomos para a frente, fizemos e agora ganhámos um prémio. A TVI investiu muito, e isso é muito bom, não só para nós como também para o audiovisual, como para o nosso nome fora de Portugal.

 

Depois deste prémio o investimento da TVI nas novelas mudou?

Acho que sim, eu não sou da administração da TVI, mas sei que vai fazer um grande esforço agora para tornar as coisas diferentes. Há um investimento muito grande nos actores, porque é uma das mais valias de uma estação, e a TVI faz um grande esforço de acarinhar, apadrinhar e tratar bem os seus actores, cada vez mais. E sobretudo percebeu e entendeu muito bem este sinal de lhe ter sido dado um prémio. Quer dizer que não é um fim, é o princípio de qualquer coisa. Agora vamos começar a fazer melhor, com menos meios e dinheiro que os outros, vamos puxar pela nossa imaginação como fazemos todos os dias para sobreviver, e fazer coisas melhores.

 

Parte desse tratamento foi compreenderem que precisava de fazer um projecto noutra estação?

Houve uma grande compreensão da parte da RTP e da parte da TVI. O José Fragoso [director de programas da RTP1] foi impecável, percebeu que sou uma pessoa que não se pode esgotar numa coisa só. Tenho 70 anos, sou novo, e tenho muitos projectos para fazer, e que quero fazer, e preciso de às vezes ir fazer uma coisa aqui outra acolá. Isso foi perfeitamente percebido pela TVI, com quem tinha contrato, e pela RTP e juntos criámos aqui uma salutar maneira de trabalhar da qual podemos tirar todos bastantes frutos.

 

Mantém o contrato com a TVI?

Tenho um contrato com a TVI para formação e novelas. Estou neste momento a fazer estas duas coisas com muito prazer na RTP, uma estação que me diz muito, porque foi a minha primeira casa. Eu digo ‘A Televisão', a TVI e a SIC porque, na minha cabeça, a televisão é a RTP. Mas voltarei à TVI para fazer outros projectos e a formação é um deles.

 

Mas tem contrato de exclusividade com a TVI?

Em novelas sim.

 

Como é que vê a ficção que se faz em português?

Acho que a ficção está a melhorar todos os dias, há coisas muito boas. Nós ainda lutamos com falta de orçamentos, em todas as estações. Em televisão, o que é mais caro não são os equipamentos, ou os actores, é o tempo. O tempo é muito caro em televisão e o tempo faz a diferença entre o bom e o mau produto. Por vezes temos pouco tempo para fazer, mas vamos ter que superar isso tudo. Há investimentos, a TVI tem investido muito, há uma nova linha e acho que vai haver um investimento muito grande na ficção, não só em novelas como a vários níveis.

 

A RTP é a unica estação a não investir em novela, mas aposta noutro tipo de fição. Faz falta sairmos da ‘caixa' da novela?

Mas com certeza, a própria TVI está atenta a isso, eu saí porque senti essa necessidade, apesar de respeitar profundamente. Seria perfeitamente burro se não respeitasse, afinal escrevi a primeira novela em Portugal, juntamentre com o Francisco Nicholson. Há outros mundos e não nos podemos esgotar na novela.

 

Estamos a explorar bem esses mundos?

Vamos explorar. Cada vez há melhores autores, melhores actores, melhores realizadores a fazerem coisas muito boas e há uma apetência para ver. E cito como exemplo um dia em que uma estação passou uma série sobre a princesa Letícia de Espanha e a TVI passou o meu filme ‘Contrato', e o filme bateu a série. Isto quer dizer qualquer coisa, há uns anos não se passava.

 

Escreveu e realizou a primeira novela portuguesa. O que é que mudou na forma como se fazem hoje?

Os meios técnicos são incomparavelmente melhores, criou-se uma rotina, um ‘metier'. Nós começámos experimentalmente, erámos todos amadores e correu muito bem, foi um êxito e nasceu tudo dali. Agora criou-se a profissão.

 

Mas há muitas pessoas que dizem que hoje se produz para o consumo imediato e que antes se fazia com arte. Encara as coisas dessa forma?

Não sou tão radical quanto isso, essa história do "no meu tempo" é uma coisa que me faz confusão.O meu tempo é este, eu estou vivo, este tempo é meu, como é de todos. Havia coisas que se fazia com mais tempo, havia mais empenho, mais carolice. Nós funcionávamos mais por estímulos de amizade do que por dinheiro, havia um amor e o pioneirismo das coisas. Inventávamos coisas, máquinas, não sabíamos nada, erámos uns miúdos a experimentar coisas com toda a irreverência dos miúdos.

 

A profissionalização alterou isso?

Sim, claro, há coisas que se foram transformando de uma coisa perfeitamente empírica, de paixão, por algo profissional. Com tudo o que isso tem de bom e o que tem de mau.

 

 

O público está a descobrir o que é português?

Está, cada vez mais, não só nisto, como no turismo. Podemos ter um turismo fantástico, tenho 70 anos, conheço Portugal todo, e não devo conhecer nem um terço. Todos os dias vejo fotografias e penso: o que é isto? Nunca aqui estive... Nós somos muito virados para fora, mas também há motivos para isso. Nós temos tudo de bom, menos os governos.

 

Percorre Portugal em cada um dos seus filmes. É uma coincidência, ou faz questão nisso?

Faço questão disso, porque ao fazer um filme, como toda a gente sabe, a minha intenção é exportar, este filme [‘A Teia de Gelo'] é bilingue, filmado em português e inglês, os actores são todos bilingues, há toda uma geração que fala inglês na perfeição, e por isso quero mostrar coisas nossas, porque é também assim que se faz e que devia ser apoiado. Nunca se esqueçam do que Barcelona pagou ao Woody Allen para lá fazer um filme.

 

O filme é bilingue e vai ser exportado por uma questão financeira ou de promoção externa do cinema português?

Eu não sou o produtor, este filme é produzido pelo cinemarte, mas é claro que o produtor tem que ganhar dinheiro. E nós temos obrigação de tentar ganhar dinheiro com o filme perante o FICA [Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual], que foi onde o filme foi aceite para apoio - e que é uma coisa de saudar porque não é estatal e traz capital para o cinema, não vamos escalpelizar como e de que maneira, mas traz. Não é a fundo perdido, tenho obrigação de pensar que quero trazer espectadores, mas também que quero mostrar Portugal e quero fazer um filme, não descurando a qualidade, mas sendo também um filme comercial.

 

Diz que aos 70 anos ainda tem muitos projectos para fazer. Que projectos são estes?

Ah, montes de coisas! Cinema, mais cinema, televisão, fui desafiado para gravar um disco, aí há dias, montes de coisas...

 

E vai aceitar gravar o disco?

Talvez.

 

Podemos saber com quem?

Não, mas se tiver oportunidade volto a gravar [participou no Festival da Canção e gravou com Baden Powell e Vinicius de Moraes]. A música faz parte de mim, começo a fazer um filme a pensar que música é que vou usar. Vão ser canções em português mas não só, são canções de que eu gosto e que me apetece cantar.

 

E para além do cinema, da televisão e da música?

Resta-me muito pouco tempo. Gosto de estar em Serpa, onde estou muito pouco, mas agora tenho que pensar em passar lá mais tempo, gosto de estar isolado, gosto do campo, gosto dos animais, é onde me sinto bem e cada vez preciso mais disso.

 

Teve pena de abandonar a NBP Producções, uma vez que a criou de raiz?

A NBP não é a televisão e a televisão continuou para mim. A NBP foi um acidente da minha vida. Eu continuo a ser actor, a realizar, a dirigir, por isso não tive pena nenhuma.

 

É um episódio encerrado na sua vida?

É uma coisa que acontece. Eu continuo por cá. A NBP já fechou, foi Plural, portanto acabou antes de mim.

 

E hoje na Plural é bem tratado?

Sou muito, muito bem tratado.

 

Não pondera sair para outra estação?

Não, mas neste momento eu já estou noutra estação, na RTP.

 

Como é que vai ser o projecto da sitcom na RTP?

Disso não posso falar porque não me deixam.

 

Mas foi o Nicolau que procurou a RTP ou ao contrário?

Digamos que foi um encontro de ideias.

 

Tinha vontade de regressar a este formato?

As primeiras sitcoms em Portugal fui eu que as fiz, na RTP. Tenho sempre vontade de começar coisas novas, ainda que num género que já existe.

 

E sente que a RTP não se encostou ao facto de ser a primeira estação e ao património televisivo que já conseguiu?

De maneira nenhuma. A RTP tem-me surpreendido muito e vê-se, as audiências falam. Tem-me surpreendido na forma como tem gerido esta situação, com muito critério, calma e sem precipitações. E está a fazer um caminho que é o que deve fazer uma estação pública de televisão.

 

Podemos ver o Nicolau a tempo inteiro numa estação de forma definitiva?

Estive agora durante três anos na TVI, mas não há coisas definitivas na vida, só a morte. O amor não é definitivo, a dor não é definitiva, as ideias dos homens não são definitivas,a política não é definitiva, nada é definitivo.

 

Sendo um actor já com uma larga experiência, como vê a chegada de tantos jovens à televisão?

Todos são bem vindos, desde que tenham talento e queiram ser actores. Quando estive nos ‘Morangos Com Açucar' encontrei jovens que estão a fazer aquilo como outra coisa qualquer, querem ser conhecidos e têm abdominais, e a par disso encontrei miúdos e miúdas empenhadíssimos e a trabalharem, a darem a litro porque querem ser actores e são actores, belíssimos, e a esses tiro-lhes o meu chapéu.

 

Como é que encara a passagem do tempo e envelhecer?

Não se pode encarar mal, é inevitável. O Woody Allen tem uma história em que dizia ser "francamente" contra a morte. Eu também sou contra o envelhecimento, mas o que é que se há-de fazer, ele existe. Se não podes lutar contra ele, junta-te a ele, e eu tenho que me juntar a ele, aceitar, com todas as coisas más, e algumas coisas boas, que tem. É aproveitar a minha experiência, as capacidades são diferentes, há coisas que hoje consigo fazer que não conseguia quando era novo e outras que não consigo fazer. Isto é uma troca, com a natureza, ou deus, no meu caso que sou católitco, que nos dá.

 

A troca tem-lhe sido favorável?

Não, ser velho é mau! Não é nada bom. As pessoas têm menos vigor, mas outras coisas vêm, eu não teria realizado um filme aos 50 anos. Fiz tudo tarde, fui pai tarde, comecei a realizar tarde, fui imaturo até tarde, ainda sou imaturo, agora só temos que aceitar.

 

Com tantos projectos entre mãos, sobra-lhe tempo para a família?

Tento, infelizmente não muito, agora que estou a filmar ainda menos. Mas eu gosto de trabalhar.

 

E conta ter férias a curto prazo?

Este ano não, possivelmente para o ano.

 

A reforma não entra nos seus planos?

Não, acho terrível o que se faz ás pessoas quando se reformam. Há quem goste, mas o trabalho é a última coisa que resta às pessoas. O homem tem necessidade de se sentir útil, necessário e admirado. E com a idade isso vai desaparecendo, a prole sai de casa, somos olhados, como diz o António Lobo Antunes, como a idade da transparência. Antigamente, uma gaja olhava para nós e hoje passam por nós e não nos vêem. E nós somos importantes é na nossa profissão.

 

Sente que já conquistou o reconhecimento do público?

Acho que sim, e sobretudo dos meus pares, porque é muito importante para mim saber que sou respeitado na minha classe.

 

O Nicolau esteve doente há alguns anos. Esse processo está encerrado?

É pá, não lhe ligo nenhuma, mas acho que sim. Tomo umas coisas e continuo a fazer o tratamento.

 

E quando é que termina?

Não sei, se calhar é para o resto da vida. Não perguntei nem quero perguntar. Mandam-me tomar e eu tomo. Não me incomoda e não penso nisso. Quer dizer, lembro-me de vez em quando.

 

Na altura preocupou-o?

Claro que sim. Quando nos dizem que temos um cancro, é um pontapé na cabeça do caraças. Primeiro, a sensação é de incredulidade, de que estavam a brincar comigo. Depois tem que se digerir, é complicado. E gerir é não ligar muito, tens que viver com o que tens. Ou morremos e acabou, ou não e continuamos com o que temos, desde que estejamos bem. Acho que geri bem o processo e não lhe dei demasiada importância. Aliás, tive sorte. Pessoas que conheço, com problemas destes muito mais graves, e esses eu não sei como geriria. No meu caso foi assim.

 

Por ser uma figura pública, pensou em esconder ou revelar o problema?

Não escondi nem contei, quando me perguntaram confirmei. E dei a cara por uma campanha sobre isso. Há dias conheci alguém com o mesmo problema e que me disse que por ter lido uma entrevista minha tinha tido muita força. Nós temos o dever de usar a nossa imagem para mostrar às pessoas que isto não é o fim e que há uma esperança.

 

Como foi a experiência da publicidade?

De actor, porque não era eu. Eu dizia que era eu, mas não. Somos procurados porque somos nós, se calhar havia um modelo que fazia melhor e mais barato, e podia ser mais fácil porque não somos modelos, mas quando nos procuram é porque temos já uma relação com o público.

 

E hoje o Nicolau é um actor, um realizador? Há alguma faceta predominante?

Sou tudo isso e mais alguma coisa. Acho que sou uma pessoa com um olhar muito crítico, sou um observador do mundo e das pessoas e sou um contador de histórias, e conto-as como actor e como realizador.

 

Como é que constrói histórias para os seus guiões?

Surgem-me. É a coisa mais espantosa do mundo. De repente, vejo uma notícia no jornal, falo com um amigo, vejo uma pessoa na rua e começo a imaginar a vida daquela pessoa, ou leio um livro. Já estou a mergulhar no argumento que já está em concurso, que resulta de duas pequeninas coisas que me contaram, e que não será o próximo filme que começo dentro de alguns meses, será o outro a seguir a esse, e que me vai dar um enorme prazer em fazer.

 

Já tem projectos em carteira até ao final do ano?

Mais, até ao final de 2012.

 

Quanto tempo demora a escrever um argumento?

É conforme. Ás vezes sento-me e escrevo um argumento seguido. Tenho uma ideia na cabeça e um dia passo para papel, depois noutro escrevo as cenas. Normalmente tenho gente a colaborar comigo, como acontece neste. Não gosto de escrever sozinho, tem que haver um olhar crítico sobre as coisas, sob pena de, a certa altura, ficarmos cegos. Gosto de escrever, voltar a ler, meter na gaveta durante uns meses, depois ler outra vez e a seguir é que se vai construir. E mesmo quando começo o filme, penso que não devia ter feito assim e que há sempre uma solução melhor.

 

Quando escreve um papel, já é com um actor específico em mente, ou é uma cirscunstância que vem depois?

Não, isso é completamente depois. Escrevo um argumento porque me interessa aquela história. Depois é que penso nas pessoas. Até hoje não aconteceu, mas não digo que não venha a fazê-lo. Não rejeito hipótese nenhuma, não há ‘nuncas'.

 

Na ‘Teia de Gelo' colaboram actores conhecidos pelas novelas. Não tem o preconceito de que um actor de televisão não faz teatro e cinema?

Só em Portugal é que esse preconceito pode existir, que é das coisas mais bestas do mundo. Em qualquer parte, os actores de teatro fazem cinema e televisão, mesmo os actores de cinema nos Estados Unidos, que eram mais puristas, já estão a fazer televisão. Representar é representar e só há duas maneiras: bem e mal. Há os que fazem bem, e fazem bem tudo. E os que fazem mal, que fazem mal tudo. É claro que são adaptações a estilos de representação, mas a essência, que é emocionar as pessoas a contar uma história, a interpretá-la, é igual.

 

Quando podemos esperar não o próximo filme, mas o seguinte?

São dois filmes que quero fazer. Mas ainda tenho que pensar se faço em inglês ou não, porque o último tem muito a ver com Portugal. Foge ao que eu faço, mais main streem, com uma história muito bonita.

 

 

E como está o projecto da cidade cinematográfica?

Nunca pensei numa cidade cinematográfica, acho que é um disparate total fazer-se. Há é que aproveitar determinadas zonas do país, haver ‘film comissions' que lancem a ideia de fazer e trazer cá produções estrangeiras. Temos castelos, planícies, vilas medievais, lugares espantosos, em Marrocos há vilas que vivem só disso, da indústria cinematográfica, e nós podíamos fazer isso cá. Para isso precisamos que uns seres perfeitamente espantosos chamados governantes percebam que para vendermos Portugal no estrangeiro precisamos de uma política de impostos diferente, o IPPAR não pode pedir o que pede para filmarmos nos locais do IPPAR, não se pode pedir o que se pde para filmar na rua... Mas esta ganância de ganhar dinheiro em tudo quanto é lado está a fazer-nos perder dinheiro.

 

Sente a crise nos últimos projectos?

Claro que sim,como é obvio. Temos dezenas e dezenas de actores desempregados. Se bem que cresceu o volume de trabalho, também há mais actores, e há toda uma idade de actores que estão a ficar desempregados, o que é completamente preocupante. Acho que devia haver um movimento, e faço um apelo aos actores de qualquer cosia que nos possa defender, como um sindicato. Somos o único país do mundo sem um sindicato de actores. Deve ser aqui e no Burkina Fasso. Já que não temos isso, ao menos um mecânismo de defesa, porque neste momento há actores portugueses em situações extremamente difícies, que não têm a quem recorrer e temos que urgentemente pensar nisso.

 

Alguma vez foi condicionado pela questão financeira?

Se calhar quando faço um filme faço com menos dinheiro. Mas pessoalmente não tenho problemas.

50 ANOS ENTRE O TEATRO, CINEMA E TV

Nicolau Breyner nasceu em Serpa, no Alentejo, a 30 de Julho de 1940 e soma já 50 anos de carreira. Os primeiros passos na representação foram dados no teatro, mas foi a televisão que o tornou conhecido dos portugueses, com as rábulas do ‘Sr. Feliz e Sr. Contente', com Herman José, ou sit-coms, como ‘Nico d'Obra'. Foi co-autor de ‘Vila Faia', a primeira novela portuguesa, em 1982, e fundou a produtora NBP, que deu lugar à Plural Entertainment Portugal. "Foi um acidente na minha vida, mas a televisão continuou para mim. Continuo a ser actor, a realizar, por isso não tive pena nenhuma", garante Breyner. Produziu ainda diversas séries televisivas antes de dar o salto para o cinema, outra das suas paixões, como actor e realizador. A música é outra das suas facetas artísticas, tendo participado no Festival da Canção e gravado um disco. Vítima de cancro, colaborou em campanhas publicitárias sobre o tema. É casado e tem duas filhas.

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