Barra Cofina

Correio da Manhã

Tv Media
2

Queridas inimigas

Quando há coisa de um ano em Vilar do Paraíso, Gaia, um indivíduo matou a amante e se suicidou em seguida, José Mesquita comentou o caso vizinho com a mulher e filhas, incrédulo com tão absurda violência.
8 de Maio de 2005 às 00:00
Na última terça-feira de Abril, Mesquita não esteve com meias medidas, disparou duas vezes contra a amante e desfechou um tiro na cabeça.
José Rocha Mesquita morreu aos 59 anos, protagonista do que é convencional catalogar-se de crime passional. A brutalidade do episódio que marcou o seu último minuto de vida, detalhadamente descrito nos jornais do dia seguinte, mostram-no como intempestivo, irascível. Ficou a imagem de uma mulher prostrada no empedrado, em agonia, suplicando ajuda, e diante dela o seu agressor, de olhar alucinado pela pólvora e sangue, levando maquinalmente a pistola à cabeça e cerrando os olhos para não ver a dor.
Mas quem conheceu Mesquita garante que o motorista do centro de saúde do Barão do Corvo, em Gaia, era pessoa calma, gentil e equilibrada. E foi para evitar a injustiça de classificar quem viveu quase seis décadas pela ínfima fracção de 60 segundos que Angelina, a sua mulher, cinco anos mais nova, aceitou contar a sua história, reabrindo feridas nunca cicatrizadas, expondo corajosamente a sua intimidade com o homem que amou como só uma mulher pode amar.
MULHERENGO
Que o Zé era mulherengo, não era novidade para Angelina. Mas o modo como a olhava era tão apaixonado, que a ameaça até podia nem cumprir-se, a guerra na Guiné e o casamento podiam acabar de vez com os pecados de adolescente. Ora da Guiné, José veio quase igual. A única alteração foi aquele cambetear, da carne e pedacinho de nervo levados pela bala que lhe atravessou a coxa, quando a saraivada de tiros interrompeu o jogo de cartas e a modorra enganadora do aquartelamento. E quanto ao seu fácil distrair por um rabo de saias, bem, na verdade aí a diferença também não foi por aí além.
Angelina, que nunca teve outro amor, foi fazendo vista grossa, fingindo não saber o que bem sabia. José, que arranjara emprego como motorista no centro de saúde, tratava-a como uma princesa, e a sua alegria de viver mitigava vida dura na fábrica têxtil. E depois, deu-lhe duas filhas lindas de morrer, a Goretti e a Anabela.
O primeiro grande teste deu-se cinco anos depois quando José teve um envolvimento mais sério, de que resultou um bebé. Mais uma menina, a Carla, que Angelina aceitou resignada, e a quem proporcionou um são relacionamento com o pai e as duas meias irmãs. Quem não esteve pelos ajustes foi o pai adoptivo de José, que vendo que o rapaz não tinha emenda, decidiu passar a casa que lhe pusera à disposição para o nome das suas duas primeiras filhas.
ZÉ E NININHA
A vida foi andando. As raparigas cresciam, José melhorava a casa, que enchia de boa disposição. Aqui ou ali, foi dando a sua facadinha no matrimónio. A coisa não dizia bem com os seus princípios católicos, pois era homem religioso e muitas vezes desempenhou o papel de sacristão, mas Deus, na sua infinita sabedoria, e certamente com ocupações bem mais prementes que chamar o servo José da Rocha Mesquita à razão, terá concluído que mexer nas margens que comprimem o rio pode resultar em desastre natural. Esse foi, pelo menos, o entendimento de Angelina.
Dinheiro nunca faltou em casa. Nem dinheiro nem passarada, a paixão de José, sempre ocupado em ampliar a colecção e as gaiolas nas horas vagas e fins-de-semana. A boa disposição não faltava e até a catatua lhe apanhou o jeito do assobiar, para gaúdio das filhas e Angelina.
Paralelamente, o zeloso motorista foi ganhando a amizade dos médicos e funcionários do centro de saúde. Cumpridor e de seriedade irrepreensível, nem hesitaram em atribuir-lhe tarefas de confiança. José Mesquita fazia levantamentos e depósitos, e foi mesmo por lidar com quantias significativas de dinheiro que comprou a pistola e foi renovando a licença para o seu porte.
As crises com Angelina passavam depressa. Ele chamava-lhe de Nininha, ela de Zé, e tudo recomeçava como se fosse a primeira vez. A fábrica têxtil encerrou e José não quis que a mulher arranjasse outro emprego, ele tudo providenciaria.
O que José dava de amor, recebia a dobrar. Angelina preocupava-se com ele, levava-lhe o pequeno-almoço à cama, ao almoço descascava-lhe a fruta, preparava-lhe o jantar que ele sugeria à tarde pelo telefone.
A CATATUA CALOU-SE
Foi há coisa de seis anos que a vida começou a mudar de rumo. José foi mudando de humor e Angelina pôs-se alerta, que aqueles sinais não eram bom prenúncio. Se calhar andava fêmea na costa. A confirmação só a teve quando Anabela ao lavar-lhe o carro se entreteve a ler a factura do telemóvel e estranhou a quantia exorbitante e a insistência em determinado número. Fez-se a experiência a ver o que dava e o coração de Angelina acelerou quando uma voz feminina atendeu do outro lado da linha.
Passavam os dias, as semanas, os meses, e José era outro homem. Foi então que Angelina decidiu lutar pelo que era seu. Por essa altura sabia já que a rival, 18 anos mais nova, se chamava Ângela, que era enfermeira no centro de saúde do marido, que era casada e tinha um filho. Foi ao seu encontro mas a mulher negou. Veio-se embora e deixou-a, depois de a presentear com um par de estalos e lhe mostrar que não estava disposta a abdicar do marido.
Dias depois apareceu em casa de Angelina um indivíduo, bem parecido, que se dizia serralheiro e marido de Ângela, a pedir satisfações pela agressão. Quando viu a factura do telemóvel de José hesitou, foi de confiança abalada mas não deu parte de fraco.
Angelina já não tinha dúvidas que desta vez não era devaneio de adolescente, era certo que José estava com o coração para o lado de lá. O núcleo familiar uniu-se em torno da mãe. As filhas eram como irmãs nas confidências, mas a tristeza foi tomando conta da casa. Já não havia melhoramentos nos tectos ou nos soalhos da casa, as gaiolas estavam cada vez mais vazias e displicentes, a catatua deixou de assobiar. A luz da vida de Angelina foi-se apagando.
Derrotada, só por uma vez sentiu o renascer da esperança. Foi quando a relação entre José e a enfermeira esteve por um fio. A “outra”, com grande lata, telefonou-lhe há uns dois anos dando-lhe conta que acabara com José, e cruelmente perguntava-lhe se queria que devolvesse as peças de um serviço de loiça antigo que o amante lhe ia fazendo chegar peça a peça. Angelina desligou o telefone com desprezo e foi espreitar o serviço de loiça. Confirmou as faltas, sentou-se e chorou de raiva e humilhação.
SEGREDO REVELADO
José quis salvar o que restava do lar. Jurou que tinha acabado com a amante, que queria recomeçar, chorou de arrependimento. E prometeu-lhe férias no Algarve. Angelina pediu conselho às filhas que incentivaram a reconciliação. Mas quando o Verão chegou e a viagem se concretizou já José recomeçara com a enfermeira Ângela. Ainda o dia só parecia despontar e voltou a noite.
Depois foi aquele desagradável encontro na festa de S. Cosme, em Gondomar. Angelina sentiu um empurrão ao navegar na multidão e virou-se: José passeava com a enfermeira Ângela e o filho desta pela mão. Ainda trocou umas palavras com o marido, queixando-se da provocação da mulher que o acompanhava, mas já não tinha força para discussões.
Um dia apareceu-lhe de novo o serralheiro em casa. Veio pedir desculpa por ter duvidado da sua palavra aquando da primeira visita. Que já sabia de tudo, que estava a divorciar-se da mulher. Angelina não se condoeu com o homem.
Há um ano, Anabela casou. José pagou tudo mas não foi ao casamento da filha. E como a mais que certa ausência não pudesse ser explicada, Angelina foi contando o seu segredo a outros familiares e amigos mais chegados. Para Anabela, o dia mais feliz da sua vida ficou ensombrado pela desilusão em não ter junto de si o pai, de quem herdou a proximidade à Igreja – e por isso hoje dá catequese –, a quem lavava meticulosamente os carros e a quem acompanhava à feira dos pássaros, logo pela manhã de tantos domingos, não denunciando noites de sábado pouco dormidas.
RAMO DE NOIVA
Na última terça-feira de Abril, José chegou cedo ao centro médico do Barão do Corvo, em Gaia, que não dista mais de quinze minutos de carro de sua casa. Disse que nesse dia não iria trabalhar. Os funcionários estranharam o anúncio, mas levaram em conta os pequenos sinais de perturbação de que José Mesquita vinha evidenciando nos últimos dias. A poucos escapava a ligação com a enfermeira Ângela e a zanga entre o casal não passara despercebida. Ela queria acabar com tudo, José lutava pela reconciliação como afogado em mar alteroso de amor selvagem.
Como era costume, Ângela preparou-se para ir visitar alguns doentes, a quem prestava assistência ou fazia curativos. Aos apelos de José fez-se muda. Nessa manhã já não foi o amante que a conduziu ao destino, optou pelo seu próprio carro.
José, desesperado, antecipou-se no percurso e quando Ângela estacionou diante da casa de Maria Fernanda, na Rua de Manuel Marques Gomes, em Canidelo, tinha já a solução para todos os problemas. Ângela fechava a porta do carro à chave e José afagava o frio metálico da coronha da arma no bolso direito do casaco.
A troca de palavras foi breve. “Não quero nada contigo”, disse ela, conta quem ouviu. José empunhou a pistola e disparou. Um tiro, e depois outro e mais outro. Ângela caiu no passeio, atingida de raspão na cabeça, no peito e no ventre. “Ajudai-me!”, terá dito ao vulto que adivinhava por entre as sombras. Era a Maria Fernanda, que tardava em perceber a origem dos estrondos e a razão que levara aquela mulher a ser projectada contra a sua porta até a abrir. Nessa altura já os clientes do café Nora saíam à rua a inteirar-se do que estava a ocorrer naquela terra onde nada acontece. E se forem como a Maria Fernanda, o que viram naquela manhã, vão vê-lo repetidamente em noites de pesadelo até que resulte a ajuda do psicólogo que lhe foi recomendado: José, a levar lentamente a pistola à cabeça, o ribombar do disparo e o corpo sem vida a tombar no empedrado da rua. Para José acabou, mas Ângela recupera no serviço de neurologia do Hospital de Santo António.
Angelina contesta exausta com as recordações, a que Anabela emprestou detalhes. Não há mais nada para dizer, só um vazio sem fim. De repente parece-lhe absurdo ter aberto o coração a um estranho. Só não resiste à teimosa lágrima quando a filha Anabela resume a história de amor: “Não foi ao meu casamento mas eu guardei o ramo de noiva. Pu-lo a seus pés, no caixão, e ele levou-o consigo”.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)