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Correio da Manhã

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Quero provar que sei fazer coisas diferentes

Sofia Alves está de regresso à TV num registo bem distante da boazinha a que habituou o público das novelas. Agora a trama é centrada na Avenida de Roma, em plena Lisboa.
3 de Março de 2006 às 00:00
'Quando alguém sonha ser actor, não é ser actor de novelas'
'Quando alguém sonha ser actor, não é ser actor de novelas' FOTO: Vítor Mota
Três anos depois da sua última aparição em novelas da TVI, Sofia Alves garante que mudou tudo nela: o registo de interpretação, o grau de maturidade e até o penteado. Não custa a acreditar, depois de visionar algumas cenas de ‘Fala-me de Amor’.
Na novela que substituirá ‘Mundo Meu’ a partir de segunda-feira, dia 6, parece não haver resquícios das gémeas de ‘Olhos de Água’ nem da invisual de ‘O Teu Olhar’. “Adoro transformar-me e estes três anos foram marcados por transformações graduais e necessárias que ajudaram ao radicalismo desta minha nova personagem”, confessa Sofia Alves.
A actriz ansiava por esta mudança e foi recusando trabalhos até aparecer Sara Varela, a oportunidade de mostrar que também sabe interpretar uma mulher temperamental e cheia de contradições: “Estava farta do mesmo tipo de papéis. Foram importantes para mim, mas estava na altura de evoluir e de provar que sei fazer coisas diferentes.”
José Eduardo Moniz fez-lhe a vontade e Maria João Mira, a autora, escreveu um papel à medida dos seus desejos.
Em ‘Fala-me de Amor’, Sofia Alves vai surpreender quem se habituou a chorar e a sofrer com as interpretações que a tornaram famosa. Marcada por uma violação na adolescência, Sara tem tanto de egocêntrica como de inteligente. Não revela pudores no dia em que abandona marido e filha. É agressiva e nada lhe interessa para além dela própria. A actriz defende-a como pode, e não vê nela uma vilã: “A Sara é vítima do seu passado, ela transforma-se a partir do momento em que é violada. Tem várias personalidades, para cada pessoa revela uma forma de ser e de estar na vida. O desafio é conseguir dar-lhe essas nuances todas sem sair da linha da personagem.”
As atenções estão viradas para Sofia Alves por força de um registo que não lhe é familiar, mas a actriz faz questão de frisar que não se considera a protagonista desta história de quatro mulheres que Moniz não quer ver comparada com nenhuma outra produção, como chegou a ser falado em relação à série norte-americana ‘Sexo e a Cidade’.
Em ‘Fala-me de Amor’ (ver páginas 34 e 35), há a Sara, a sofisticada Joana (Sílvia Rizzo), a cerebral Margarida (São José Correia) e a pacata Leonor (Sandra Faleiro). “Somos as quatro protagonistas”, não se cansa de dizer Sofia Alves. A autora Maria João Mira colocou-as a viver no meio urbano, em plena cidade de Lisboa, e todas elas pretendem ser exemplos de muitas mulheres dos nossos dias: “Procurei que fosse uma história dinâmica com muitos segredos, angústias, alegrias e fraquezas das mulheres.
Sempre com o amor como pano de fundo.” Este piscar de olho ao público feminino – sempre mais fiel ao género – não se esgota nele. É a convicção de José Eduardo Moniz: “Os homens vão ver esta novela quanto mais não seja para tentarem perceber o mundo fascinante das mulheres.”
O espaço urbano referido por Maria João Mira, onde decorrerá parte da acção da novela, situa-se bem no centro da cidade de Lisboa e foi escolhido pessoalmente por José Eduardo Moniz. Situa-se na freguesia de São João de Deus e engloba uma área compreendida entre a Avenida de Roma, a Avenida João XXI e a Praça de Londres. Apesar de não ser uma das zonas mais modernas da cidade – a sua construção data da década de 50 – é, ainda, um local muito pretendido pelas elites da sociedade lisboeta. Nomes como Campos e Cunha (ex-ministro das finanças), Kruz Abecassis (ex-presidente da Câmara de Lisboa), Santana Lopes (ex-primeiro-ministro) ou Herman José fazem parte dos ilustres habitantes da zona. Alguns deles, embora já não vivam no local, são vistos nas imediações com alguma frequência.
O próprio José Eduardo Moniz mantém naquele sítio um apartamento. “É uma zona que conheço bem, pois é onde moro desde que vim para Lisboa. Isso permitiu-me ter a percepção do conhecimento das pessoas, dos remediados, dos ricos e dos pseudo-ricos”, afirma Moniz para justificar a sua escolha. Para os residentes que assistiram às gravações, tal como confessaram à Correio TV, “foi uma oportunidade para voltar a ver a Sofia Alves ao vivo e sem ter que sair de casa.”
Na rua, as abordagens a Sofia Alves tornaram-se uma constante. E o tema recorrente. Para quando o regresso às novelas? “Noto que as pessoas têm saudades de me ver na televisão. Dizem-me que estão à espera que eu apareça”, conta.
A culpa está no teatro em que a actriz resolveu investir nestes últimos três anos. Depois de ‘A Educação de Rita’ (onde dividia o palco com Vítor de Sousa), aventurou-se no primeiro monólogo da sua carreira – ‘Socorro Estou Grávida’ – que em Março vai somar apresentações em 25 cidades diferentes do país. E a ideia é continuar a digressão, conjugando como pode com o ritmo das “frenéticas” gravações da novela. O esforço será proporcional aos ensinamentos que a actriz garante retirar de cada vez que sobe ao palco. “Este investimento no teatro representou um grande crescimento como actriz, trouxe-me mais maturidade.
Não foi para mostrar às pessoas que sou capaz de fazer outras coisas, foi a mim mesma. Era uma evolução necessária. Estava na altura de fazer teatro. Acho que a minha carreira aconteceu de uma forma estranha. Comecei no cinema, fiz televisão e finalmente teatro. Quando alguém sonha ser actor, não é ser actor de novelas. Não é o meu caso, pelo menos.”
Garantido fica para já novo desafio profissional lá para o final do ano. Concluídas as gravações de ‘Fala-me de Amor’, Sofia Alves vai estrear-se com nova produção no teatro. A peça é um clássico do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen e caberá à actriz o papel de ‘Hedda Gabler’, personagem que dá título a esta obra. Até lá, resta-lhe dividir o seu tempo entre a novela e a atenção que não prescinde de dar ao namorado, o encenador Celso Cleto e, principalmente, ao filho Guilherme, fruto de um relacionamento anterior. “Claro que há sempre tempo para a família e o meu filho está sempre em primeiro lugar. Agora, a trabalhar em televisão, estou menos tempo com ele. Como qualquer mãe, vejo-o de manhã e à noite. Mas morro de saudades, claro.” Tantas quanto o público parece ter dela.
ESTRELA DA TVI
Sofia Alves nasceu em Luanda em 1972. Aos 12 anos, já em Portugal, estreou-se na Publicidade. Em 1992 chega ao cinema pela mão de Manoel de Oliveira, em ‘Vale Abraão’ e a estreia na TV dá-se com ‘A Banqueira do Povo’. A partir daí torna-se presença assídua em novelas e séries da NBP.
BALLET ROSE
Nesta série de Leonel Vieira teve um dos seus papéis mais marcantes.
OS LOBOS
Ao lado de Diogo Infante, participou na novela filmada na região Norte do País.
OLHOS DE ÁGUA
Ao lado de Diogo Infante, participou na novela filmada na região Norte do País.
JÓIA DE ÁFRICA
Para interpretar esta novela, viajou para Moçambique onde vive três meses.
O TEU OLHAR
Depois de assumir a cega Margarida, afastou-se para apostar no teatro.
A ZANGA DE SOFIA
MANHÃS POLÉMICAS
A única experiência de Sofia Alves na apresentação aconteceu com ‘As Manhãs de Sofia’, na TVI, em 2002. Contudo, a aposta de Moniz na sua estrela das novelas para ganhar as manhãs foi desastrosa. Sofia Alves entrou em litígio com Teresa Guilherme, a produtora do formato, e abandonou o programa, queixando-se de falta de apoio desta. A polémica instalou-se e foi Rita Salema quem salvou a situação. Teresa Guilherme levou o caso a tribunal mas, um ano depois, as duas resolveram o assunto por comum acordo.
IMPOSIÇÃO
Foi José Eduardo Moniz quem quis que os exteriores fossem filmados na zona da Avenida de Roma. O patrão da TVI vive nas imediações desde que veio para Lisboa.
HISTÓRIA DE MULHERES
‘Fala-me de Amor’ cruza as histórias de Sara, Joana, Margarida e Leonor, amigas de infância que se apoiam para enfrentar os problemas típicos de uma sociedade actual e urbana. Da autoria de Maria João Mira (segunda a contar da esquerda), a novela centra-se nas personagens de Sofia Alves, Sílvia Rizzo, Sandra Faleiro e São José Correia.
O ESPAÇO URBANO DE 'FALA-ME DE AMOR'
Para os habitantes da Praça Luis Pasteur, os dias em que decorreram as filmagens foram mais movimentados do que é normal. O proprietário de um estabelecimento comercial naquela praça contou a confusão gerada pelo acontecimento: “Foi quase caótico porque o trânsito esteve cortado e era muita gente.”
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