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Correio da Manhã

Tv Media
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Remédio contra a solidão

Em casa, no lar ou nos centros de dia, a televisão é a companheira de todas as horas. Sempre presente, sempre disposta a debitar som, imagem, cor e movimento. O convívio é pobre, mas a envolvência é sedutora e capaz de colmatar o vazio da solidão e da ausência…
11 de Março de 2005 às 00:00
Remédio contra a solidão
Remédio contra a solidão FOTO: d.r.
Quinta-feira, 3 de Março. Às 13h00, na Casa de Repouso Alexandre Ferreira, pertencente aos Inválidos de Comércio, já se almoçou e a sala de estar enche-se de gente que acompanha o ‘Jornal da Tarde’. Aquela sala é um feudo da RTP 1. Quem quiser assistir ao ‘Primeiro Jornal’, na SIC, tem outra divisão. O ‘Jornal da Uma’, na TVI, pode ser visto noutra sala ainda. Para que reine a paz e a harmonia entre os utentes, televisores é coisa que não falta na casa de repouso! No interior dos quartos há mais televisores, porque cada utente tem o seu.
Quase 30 idosos enchem a sala de estar principal da casa de repouso. Uns acompanham as notícias. Outros dormitam. Mas ninguém comenta em voz alta esta ou aquela peça de reportagem. No silêncio e na penumbra da sala só a televisão debita som.
O casal Mateus prefere ver o ‘Jornal da Tarde’ no aconchego do quarto. Virulinda, 83 anos, está sentada em frente ao televisor, a poucos centímetros do ecrã para onde tem virado o ouvido esquerdo, aquele que melhor trabalha. “Gosto de ver as notícias, de saber o que de bom e de mau vai pelo Mundo”, comenta. Detesta política, dá “graças a Deus por não ter políticos na família” e, quando não gosta de um programa, carrega num dos botões do comando e desliga. “Nada mais simples”, diz consciente do poder que tem em seleccionar o menu televisivo.
Olhanense de coração, benfiquista de simpatia, Virulinda Mateus não vê novelas porque ao fim de algum tempo já lhes baralha os enredos. Elogia o trabalho de Judite de Sousa, José Rodrigues dos Santos, e perde-se de amores por Fernando Mendes: “Acho muita graça ao homem. Adaptou-se muito bem ao concurso”, diz referindo-se ao ‘Preço Certo’.
Telespectadora assídua da RTP, porque se “habituou”, Virulinda recorda com orgulho que, quando a televisão apareceu, ela e o marido foram as primeiras pessoas da rua a comprar um aparelho. Apesar de ter na televisão um companheira fiel, quando a saúde o permite, pratica os movimentos relaxantes de Tai Chi Chuan, dança e ainda canta no coro: “Gosto muito de mexer o corpo”, remata.
MUITA VIOLÊNCIA
Os livros, os passeios e a televisão ajudam Maria de Lourdes Neves, de 75 anos, a passar o tempo. E ainda os vídeos que trouxe de casa, porque os filmes da televisão têm demasiado “sangue, sexo, e violência”, conteúdos que “fazem mal às crianças e deprimem os idosos”.
Maria de Lourdes, ex-secretária de administração, vê novelas brasileiras desde que elas “não comecem a esticar como a massa dos rissóis”. “São um excelente exemplo de representação e encenação”, diz, antes de elogiar o seu herói preferido da ficção da SIC, Rex, “cão maravilha”. Se a reforma o permitisse, ligava-se ao canal História ou Odisseia.
No campo da informação, Maria de Lourdes lamenta ficar com a “sensação de vazio” no final de cada bloco noticioso. “As notícias são demasiado espremidas e perdem sentido”, remata.
A ex-secretária de administração é “fraldisqueira” e, quando o tempo o permite, pega na bengala e vai até ao Parque das Nações passear à beira-rio.
Também José Pureza, de 80 anos, “dá o fora” sempre que pode. E só quando as artroses lhe trocam as voltas, ele opta pela leitura de um romance ou pela televisão que tem no quarto.
Ex-proprietário de uma pastelaria em Campo de Ourique admite passar muito tempo “agarrado à televisão”. E revela: “Tive uma luta titânica para que me colocassem uma antena no exterior do quarto. Depois de ter chorado baba e ranho, lá atenderam ao meu pedido, porque não conseguia ver todos os canais”, recorda à Correio TV.
Benfiquista ferrenho, José Pureza tanto vê a RTP, a 2: como a SIC e a TVI. A informação, ‘Rex, o Cão Polícia’ e ‘CSI’ são os seus passatempos preferidos.
“A televisão é uma grande companhia” admite o ex-comerciante, que tem “pena de não ter cabo”. “Não é para as minhas algibeiras”, lamenta. “No ano passado, fomos dar um passeio a Portimão e a televisão do quarto da pensão onde estávamos instalados tinha cabo. De comando na mão corri os canais todos. Foi uma novidade para mim. Adorei”, relata.
UMA COISA BELA
Manuel Rosa Coutinho, de 79 anos, não tem dúvidas: “a televisão é uma das coisas mais belas que veio ao Mundo. Uma enorme distracção para todos”. Este antigo comerciante, natural das Caldas da Rainha, só consome televisão à noite. Durante o dia “trabalha”. “Por opção”. “Transformei uma mata da Casa da Repouso num jardim. É por lá que me ocupo durante o dia”, explica.
Manuel Rosa Coutinho, que começou a trabalhar com cinco anos ajudando o pai na lavoura, e aos 13 se estreou na actividade comercial, recusa-se a ver e a ouvir os políticos. Prefere ‘O Preço Certo’, ‘Um Contra Todos’ e ‘Portugal no Coração’. Só não vê telenovelas “para não ficar preso a elas”.
Dentro de semanas, Aurora Costa Pedro faz 90 anos. Foi empregada de escritório, regente escolar e funcionária dos correios. As cataratas impedem-na de ver mais televisão. Gosta de assistir a um “bom programa musical” e detesta “programas com conversa de chacha”. Não perde um espaço televisivo onde se fale de saúde ou ensino e tem pena de não acompanhar a série ‘João Semana’, na RTP, que é exibida à hora a que ela se deita.
Quando recolhe ao quarto, a primeira coisa que Aurora Costa Pedro faz é ligar o televisor. Quando a colega que com ela partilha o quarto chega e lhe pergunta o que está a dar, ela responde: “Não sei. Está ligada só para me fazer companhia”. A telefonia, essa, “está esquecida em cima da mesinha de cabeceira”.
LACUNAS DE CONVÍVIO
“A televisão torna-se um meio fascinante para esta nova geração de velhos que tem de superar as lacunas do convívio que deveria ter com a família”. A afirmação é de Luís Rodrigues, psicosociólogo e professor na Universidade Nova de Lisboa.
Se há uma coisa que o “idoso modelar”, ou seja aquele que está activo mas começa a ter problemas de audição e visão, “não perde é o desejo de convívio”. Daí que, explica o catedrático, a televisão representa esse meio de convívio. “Mas este está longe de ser o modelo ideal de comunicação”, sublinha.
“A televisão entra pela casa dentro dos idosos e leva-lhes vida e movimento. Às novelas, cujo xadrez do enredo se torna cansativo, e aos filmes, cuja leitura de legendas exige rapidez, o idoso prefere consumir os programas com mensagens simples e directas. Daí a sua maior apetência para os ‘talks-shows’ da manhã ou da tarde, onde as conversas são fáceis de descodificar e as histórias que lá se contam são quase sempre positivas. Já não está na moda o ‘talk-show negativo’”, afirma à Correio TV.
O professor catedrático justifica a preferência dos idosos em ver televisão sozinhos no quarto: “Tal como nós gostamos de estar sentados à vontade no nosso sofá, o idoso prefere o recato do quarto, onde, até do ponto de vista físico, está mais confortável. Entre o cadeirão e a cama, onde se pode recostar a um almofadão, e a cadeira de costas direitas da sala de estar, ele prefere a primeira opção”.
Sobre a ausência de conversa ou comentários na sala onde se vê televisão, diz o psicosociólogo: “As salas de convívio têm uma grande lateralidade, ou seja, os idosos não comentam o que vêem porque se ouvem mal e não têm voz para falar mais alto, e também não têm capacidade auditiva para ouvir falar baixo. Nestes termos, a comunicação torna-se difícil”. considera.
SOLIDARIEDADE E ENTREAJUDA
Fernanda Antunes, 74 anos, é uma das associadas e beneficiárias do Coração Amarelo, uma associação não governamental que procura minimizar o isolamento e a solidão dos muitos idosos que vivem em Lisboa. É neste âmbito que recebe em casa Isabel Namora, uma das voluntárias da associação.
Além destas visitas que lhe sabem sempre a pouco, o telefone, a rádio, a telefonia, o canário Piu-Piu e os curtos passeios pela Praça de Londres são as suas principais distracções. “Vejo a SIC, o canal Odisseia e o História. Umas vezes, tenho muito interesse em ver as notícias, noutras, interesse nenhum, porque os noticiários são muito dramáticos e só evidenciam tragédia. Prefiro programas que me façam pensar um pouco e que me transmitam uma mensagem positiva.”
Fernanda Antunes é mais uma admiradora do ‘Rex, o Cão Polícia’ e das telenovelas brasileiras. Sobre estas últimas, comenta: “O que mais me agrada é ver dias seguidos as mesmas caras. É como se já conhecesse aquelas pessoas”, diz.
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