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Correio da Manhã

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RTP E TVI VÃO TER DE PROVAR QUE SÃO MELHORES DO QUE A SIC!

Director dos canais temáticos da SIC, Francisco Penim, 38 anos, acaba de lançar um novo projecto no cabo. Em entrevista à Correio TV, o ‘pai’ da Radical garante que a SIC Comédia, o novo canal, não é “mais do mesmo” e admite estar “ansioso” para ver a entrada da TVI no negócio. Quanto à RTP, elogia o seu vasto arquivo histórico, mas duvida da eficácia da ‘máquina pesada’ da televisão pública…
23 de Outubro de 2004 às 00:00
A SIC Comédia arrancou as suas emissões no início desta semana no Cabo, substituindo a SIC Gold. O que é que este novo canal traz de novo à televisão portuguesa?
Tudo parte de uma premissa importante: a SIC é uma fábrica de informação, por um lado, e de comédia, por outro. E o que nos pareceu é que se fomos capazes de fazer a SIC Notícias sem canibalizar os outros canais do universo SIC, também vamos ser capazes de fazer um canal de humor e comédia. Estamos confiantes que a SIC Comédia terá capacidade para produzir novos formatos, para aproveitar outros produtos e dar uma nova embalagem a sucessos de outros tempos.
Mas a quem é que se destina este novo canal?
Não é seguramente para um nicho de mercado, em termos de idade ou de estrato social. O que nós queremos é chegar ao público que se quer divertir a ver televisão. Os espectadores portugueses já sabem, hoje em dia, que se querem saber o que se passa no País e no Mundo, ‘picam’ a SIC Notícias. O que pretendemos é que quem quiser divertir-se e ver boa comédia encontre neste novo canal a sua satisfação.
Portanto, é um ‘target’ muito heterogéneo…
Sim, completamente. Apesar de ser um canal temático, porque tem a comédia e o humor como tema central, tem um perfil muito generalista, porque pode agradar potencialmente a qualquer espectador, de todas as idades, de todos os estratos sociais, de todas as regiões de Portugal.
Na linguagem futebolística quando há um grande jogador a desequilibrar uma equipa diz-se que é ‘fulano e mais dez’. A SIC Comédia vai ser ‘Malucos do Riso’ e mais dez?
(risos) Não. Para já, não temos na grelha os ‘Malucos do Riso’, mas eles vão surgir inevitavelmente, porque o programa é um dos cartões de visita do humor da SIC. A SIC Comédia não é um canal de repetições, que fique bem claro. É evidente que vamos repetir coisas que já passaram, mas vamos ter vários géneros de comédia ao longo dos tempos. E vamos ter também produção própria.
Quando?
Isso não pode acontecer de um dia para o outro. Acredito que em menos de um ano vamos ter produção nacional original na SIC Comédia. Eu recordo que a Radical começou com uma produção original, o ‘Curto Circuito’, e hoje temos 14 no ar. A SIC Mulher começou com um e hoje tem cinco. O caminho é esse. Hoje nós temos na grelha o ‘Jay Leno’ ou o ‘Conan O’Brien’ com uma diferença de uma semana de exibição em relação ao original. Eles vão trazer muitas pessoas ao canal. A eles juntam-se clássicos como ‘Alô, Alô!’, ou o ‘Cheers’. Quanto a conteúdos portugueses, vamos começar sem nada de original, como o ‘Não há Pai’, o ‘Programa da Maria’, etc, mas em breve vamos ter oportunidade de produzir formatos próprios, como, de resto, já acontece com a SIC Radical.
Mas essas produções próprias para a Radical ou para a Mulher são de custo muito reduzido: os cenários são minimalistas, as equipas são pequenas, etc. Mas produzir comédia, ficção é diferente, é muito mais caro. Como é que vai convencer a administração da SIC a investir na produção de conteúdos mais caros?
Não estamos a falar de novelas, atenção. Quando falo em produção própria é diferente. O que eu tenho de conseguir é convencer a administração a investir suficientemente para que a SIC Comédia cresça. Eu não estou cá para desbaratar investimentos, mas sim para fazer coisas seguras e que dêem resultado. O que nós temos conseguido no mundo SIC, excluindo o jornalismo, é produzir a custo controlado formatos que têm sucesso junto do público a que se destinam.
Mas tem orçamento suficiente?
Quando se lança um canal destes tem de haver dinheiro para permitir o seu lançamento.
Portanto, a SIC Comédia tem um orçamento mais elevado do que a SIC Gold?
Se eu quero fazer melhor do que a Gold tenho de ter mais dinheiro.
O nascimento da SIC Comédia é a assumpção pública de que o projecto SIC Gold foi um fracasso, tendo em conta a natureza finita dos arquivos da estação?
Eu percebo a pergunta e acho-a muito legítima, mas não acho que a SIC Gold tenha sido precipitada ou um fracasso. Naquela altura, há quatro anos, era importante ter a SIC na plataforma do cabo. E o que era mais fácil, mais exequível e mais imediato era fazer um canal de repetições. No ano 2000, era uma primeira aposta, era um movimento estratégico. Por isso, a coisa resultou muito bem. Ninguém se lembra hoje que o canal acabou esse ano em terceiro lugar entre os temáticos. Ninguém se lembra disso, mas isso aconteceu. Apesar de ser um canal à partida fragilizado, porque toda a gente já tinha visto todos os conteúdos do canal.
Mas reconhece que o interesse estratégico para a empresa foi superior ao interesse que a SIC Gold gerou no grande público?
Não, não reconheço, porque se isso fosse verdade a SIC Gold não tinha sido o terceiro canal mais visto no cabo em 2000. Temos todos vários exemplos de projectos de cabo estratégicos que nunca vingaram em audiências. O CNL, a RTPN são apenas dois exemplos. Enquanto esteve em ‘cartaz’, a SIC Gold cumpriu os seus objectivos.
O lançamento do RTP Memória, anunciado há dois anos, apressou a morte inevitável da SIC Gold?
Não, de todo. Nós sabíamos que os arquivos da SIC eram finitos e, tanto assim foi, que fomos obrigados a abrir o canal a sucessos que tinham passado noutros canais. É óbvio que é impossível comparar o arquivo da RTP com o nosso, mas o lançamento da RTP Memória não teve nada a ver com o fim do Gold.
Mesmo correndo o risco de, com o poderoso acervo que o alimenta, o RTP Memória esmagar a SIC Gold?
Para já, não me passa pela cabeça que a RTP consiga fazer um canal que esmague qualquer canal da SIC. Essa é a primeira. Se a SIC Gold ainda anteontem era mais vista que a RTPN… isso espelha bem a realidade. Não passa pela cabeça de ninguém. Conheço bem a máquina da RTP e também conheço algumas das pessoas novas que lá estão. E sei o valor delas. Mas tenho consciência que as coisas aqui na SIC são muito mais ágeis, são mais céleres. Além disso, esta empresa tem uma visão estratégica que aquela nunca há-de ter.
Como assim?
Há uma agilidade e uma componente prática e objectiva que a SIC tem, uma cultura que a RTP não tem. Por exemplo, eu não percebo o que fazem 20 pessoas na RTP Memória. Vinte pessoas? É um escândalo! Eu com 20 pessoas fazia mais cinco canais. Os canais temáticos das SIC fazem-se, cada um, com três ou quatro pessoas. Eles têm uma equipa de 20 pessoas a colocar de pé o Memória. É um escândalo, só mesmo numa empresa como a RTP isso poderia ser possível.
Mas reconhece que o RTP Memória pode vir a ter muito mais sucesso do que a SIC Gold…
Não sei, como lhe disse, nós fomos o terceiro canal em 2000. Será que a RTP Memória vai conseguir isso? Tenho dúvidas. Eu não tenho quaisquer dúvidas sobre o valor do arquivo da empresa pública. Sempre defendi, aliás, que ele fosse aproveitado. Eu cresci a ver a RTP, você cresceu a ver a RTP. Eu hoje sou o profissional de televisão que sou graças à RTP, não tenho dúvidas disso.
Até aqui a SIC foi a rainha do cabo, nunca teve concorrência, mas o cenário vai mudar. Receia a entrada da TVI no mundo dos canais temáticos? Tem medo que lhe possa fazer frente?
Não, não tenho medo nenhum. Eu sempre disse que quanto mais concorrência houver, melhor. Atenção, isto não é aquela história do ‘vamos lá fazer melhor, porque vamos ser espicaçados’. Não, não se trata disso. Isso é-me igual ao litro. O que é importante é que o público seja mais interventivo, mais exigente. E, portanto, nessa medida, eu acho que a entrada da TVI no cabo é importante, porque dará ao espectador mais oportunidades de ver e de perceber quem faz melhor. Eu acho que nós somos a empresa mais bem preparada para o fazer, porque temos experiência e saber feito.
Está com expectativas quanto aos canais da TVI?
Posso dizer-lhe que estou desejoso que a TVI tenha canais temáticos. E que a RTP também. Para que o País tenha mais capacidade de escolha, tenha mais produto português no ar, tenha mais talentos portugueses, mais ideias nacionais. O que me chateia é que apareçam canais da Roménia, de Espanha, dos Estados Unidos, do Canadá, da Alemanha a quererem fazer canais cá em Portugal. Porque esses canais não nos acrescentam nada, não reflectem a cultura portuguesa.
Estão anunciados para breve dois canais temáticos da TVI, um de notícias de economia e outro de viagens e lazer. Acha que há espaço para essas duas propostas?
Eu só posso acreditar que sim, que há espaço, até porque tenho cinco projectos na TV Cabo à espera de aprovação. Portanto, se eu acho que há espaço para mais cinco canais que a SIC pode colocar no ar imediatamente, também reconheço que os outros podem pensar exactamente o mesmo. Eu sou a favor da concorrência. Quero que os canais da SIC sejam preferidos pelos portugueses, mas, em última instância, eu quero que o público seja melhor. E se para serem melhores os espectadores precisarem dos canais da TVI, então, venham eles. E quando digo que estou ansioso de os ver, é mesmo verdade. Até porque eu também quero aprender com eles, com novos métodos, com formas diferentes de trabalhar. Os portugueses já sabem o que a SIC sabe fazer no cabo. Agora chegou a vez da RTP e TVI terem de provar que também sabem, que são melhores do que nós…
‘SIC RADICAL NÃO PODE CRESCER MAIS’
A SIC Radical continua a ser a ‘menina dos seus olhos’?
Infelizmente, vou tendo cada vez menos tempo para a Radical, porque tenho tido cada vez mais trabalho e outro tipo de funções. Mas a Radical dá-me muito gozo, porque é muito divertida.
E muito motivante?
Sim, claro, porque há muita liberdade para fazer coisas. Qualquer pessoa dos conteúdos fica agradada por fazer uma coisa para a Radical, porque sabe que pode fazer o que lhe dá na real gana. Desde que seja divertido, estúpido e ‘non-sense’ tem cabimento no canal.
A SIC Radical é um fenómeno muito interessante. Há quatro anos, muita gente duvidou que a falta de gosto e o pisar o risco pudesse fazer escola e hoje a crítica considera-a uma estação de culto…
Isso dá-me grandes dores de cabeça, deixe-me que lhe diga. Este é um canal ao qual se permitem determinadas coisas que não são comuns em Portugal. Isso significa que o canal é feito para um determinado número de pessoas, que não tem que ver apenas com a idade, mas mais com a atitude. Eu tenho muitos adultos que vêem a Radical, que gostam do estilo irreverente, politicamente incorrecto, alternativo.
Ou seja, o canal nasceu e assume-se politicamente incorrecto, mas hoje é politicamente correcto elogiar a SIC Radical. Isto é contraditório…
É e preocupa-me muito. Eu, como director, tenho de me arrepiar com algumas das coisas que a Radical passa. Eu tenho de me questionar se aquilo é de gosto duvidoso, se não estará a pisar o risco do admissível. Eu tenho de sentir isso, só assim é possível. Portanto, ser elogiado pela critica pode ser mau, porque me aumenta o espectro. A SIC Radical foi pensada para ser um canal alternativo, não para ser consensual. Eu diria que o canal não pode crescer mais. Eu estou a borrifar-me para a conquista de novos espectadores. Eu quero é manter satisfeitos os clientes habituais…
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