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Correio da Manhã

Tv Media

Saio com muita, muita frustração

David Borges conta com uma carreira de 30 anos ao serviço da rádio. Passou pela SIC – em ‘Os Donos da Bola’ – mas são os microfones e as ondas hertzianas que o apaixonam. Agora, um mês depois de deixar a direcção da RDP África, o radialista fala da falta de empenho da administração e da tutela.
1 de Maio de 2005 às 00:00
Saio com muita, muita frustração
Saio com muita, muita frustração FOTO: Marta Vitorino
Correio da Manhã – Depois de nove anos na direcção da RDP África, porquê sair agora?
David Borges – É tempo de mais. Não devemos ficar tanto tempo à frente do mesmo projecto e eu fui ficando. Nove anos é mais do que dois mandatos. E há muito que a RDP África estava diante do muro.
– Como assim?
– Avançámos depressa, de forma muito voluntarista mas, diante do muro, era preciso outro tipo de envolvimento, um suporte maior do Estado português. E não estou a falar de dinheiro, mas de mais atenção, de uma discussão intensa sobre os objectivos e conteúdos da rádio e, eventualmente, da criação de mecanismos de apoio. E não tivemos isso. O pico da RDP África foi em 1999 e, nos últimos três anos, tudo se complicou.
– E resolveu sair…
– De repente fui confrontado com essa coisa – ao mesmo tempo, trágica e aliviadora – que é um papel a dizer: “Quem tem mais do que 55 anos faça o favor, se quiser sair, sai.” É como um convite... “Estão a mandar-me embora!”, pensei.
– Ainda tinha muito para dar...
–Evidentemente que sim.
– Podia ter ficado. Sentiu que a administração (liderada por Almerindo Marques, em funções desde 2002) não deu a atenção devida ao projecto?
– A certa altura, a tutela das antenas internacionais, inesperadamente, sai das mãos do administrador Luís Marques para as de Gonçalo Reis, que não conhecia o projecto, nem a equipa. Fui eu que tive de pedir uma reunião para lhe dar conta do projecto e das nossas inquietações. Foi sempre muito gentil, mas nunca se chegou a nenhuma conclusão.
– Quer dizer que nunca houve desenvolvimentos...
– Quando esta administração entrou, coloquei o meu lugar à disposição e fui o único director da RDP que o fez. Na altura, o Dr. Almerindo Marques disse uma frase que lembro até hoje: “É um bom princípio.” E, nesse primeiro encontro, alertei logo a administração para a realidade da RDP África. E fiquei à espera… Depois ouvi o [então] ministro Morais Sarmento numa intervenção sobre TV e rádio, sobre quase todo o universo do sector, sem nenhuma referência à RDP África. E isso marcou muito.
– Quer dizer que a tutela não mostrou preocupação com o projecto?
– A tutela nem sabia, ou sabe o que é a RDP África.
– O que era essencial para a RDP África?
– Que se discutisse, a nível das cinco antenas do operador público, o que se pretende em cada um dos canais. Estamos a falar de serviço público de rádio e as antenas são muito distintas [Antena1, 2, 3, Internacional, África]. A RDP África tornou-se um gueto. Está a falhar o objectivo de ser uma ponte para o lado português.
– Sai então com uma sensação de frustração…
– Muita, muita frustração.
– E como será o seu futuro?
– Não sei. Para já, estou desempregado.
PERFIL
David Borges nasceu em Angola, onde se iniciou, aos 15 anos, aos microfones da Rádio Clube Huila. Já em Portugal, o radialista, hoje com 55 anos, trabalhou no jornal ‘Record’, na RDP, foi um dos fundadores da rádio TSF e dirigiu a RDP África. Na SIC, no final dos anos 90, conduziu o programa ‘Os Donos da Bola’.
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